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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 26 de Novembro: O cemitério (Parte XXVII)


Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre





26
de Novembro
O
CEMITÉRIO
Que
é um cemitério?
O cemitério é simplesmente o lugar do repouso dos mortos. A palavra cemitério vem
do latim:
 caemeterium, que literalmente
significa
 dormitório, co­mo a palavra
grega donde se origina.
 Dormitório! Lugar de descanso.
Lá estão aqueles sobre os quais reza a Igreja, dizendo:
 Requiem aeternam dona
eis, Domine! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno.
 Os corpos dos fiéis
cristãos dormem, à espera da res­surreição. A Igreja chama o cemitério o lugar
onde dormem os fiéis. O Ritual Romano fala na bênção
 “do lugar onde dormem
os fiéis”

Que expressões!
Na
linguagem cristã, o cemitério chama-se tam­bém campo santo. E há lugares onde o
denominam também campo de Deus. Os povos pagãos tinham do cemitério uma idéia
ou supersticiosa ou muito gros­seira e materialista. Os romanos o denominavam
 putreolli — lugar onde se
apodrece. Os pagãos moder­nos têm horror do cemitério e pensam mesmo em
aboli-lo, substituindo-o pelos macabros fornos cre­matórios. Entretanto, é um
lugar sagrado, uma lição perene para os vivos, é a recordação do nosso nada, da
nossa miséria, mas também da nossa imortalida­de e da ressurreição da carne. É
um lugar sagrado.
Tem
este caráter sagrado, por mais que o laicismo tente reduzi-lo a um simples
depósito de cadáveres destinados ao apodrecimento. Nosso corpo e sagrado, é o
templo do Espírito Santo. Ainda depois de sepa­rado da alma, há de merecer todo
respeito, porque um dia ressuscitará.
A
Liturgia tem uma bênção solene para os ce­mitérios, reservada aos Bispos. Nele
se planta uma cruz bem grande. É a lembrança de nossa Redenção. O cemitério é a
terra da cruz. Tudo ali nos fala da cruz de Jesus Cristo. Em cada sepultura, o
símbolo da Redenção. Como é triste verem-se, ainda hoje, tú­mulos pagãos donde
baniram a cruz, substituída por uma coluna partida ou qualquer outro símbolo de
dor e desespero. O cristianismo santificou a sepultura. Os primeiros cristãos
eram sepultados nas catacum­bas, com honras e piedosas preces. Como são belas
as inscrições que nos deixaram! Todas falam da imortalidade e do céu. Às vezes
uma só palavra dizia tudo:
 Vixit! Viveu!
A
Igreja, que consagra os cemitérios, abençoa as sepulturas cristãs e pede ao
Senhor mande um An­jo guardar cada uma delas. Eis a bela oração da bên­ção do
túmulo:
 “Ó Deus, cuja misericórdia dá o re­pouso
às almas dos fiéis, dignai-vos abençoar esta sepultura e enviar o vosso Anjo
para a guardar. Dig­nai-vos também livrar dos laços dos seus pecados as almas
daqueles cujos corpos estão aqui sepultados, a fim de que gozem continuamente e
eternamente a felicidade junto com os vossos Santos”…
Que laços são estes dos
pecados?
 Naturalmente os laços que prendem as
pobres almas na expiação, nas chamas do purgatório. Eis como a Igreja san­tifica
o cemitério e nossa sepultura, e deseja que aprendamos ali o que somos:
 pó! E… uma alma imortal
destinada à felicidade eterna no seio de Deus.


Lições
do cemitério
O
cemitério é uma escola, não há dúvida. Fala-nos da morte. Lembra nossos
Novíssimos. Dizia
 San­to Agostinho: “Sit mors pro
Doctore, que seja vos­sa mestra a morte!
 Palavras profundas e
tão singe­las! Sim, a morte é uma grande mestra. E onde en­sina melhor? Onde
está sua escola? No cemitério. Quantas lições ela não nos dá! Ó, se os vivos
soubes­sem aproveitar as lições da
 Doutora Morte!
Vamos
a cemitério com sentimentos cristãos e muito aprenderemos lá.
Um
cemitério cristão, escreve o erudito
 Mons. Gaume, prega quatro
dogmas:

A nobreza e a santidade do corpo do homem,

a grande lei da fraternidade universal e eterna,

a imortalidade da alma,

a ressurreição da carne.
Prega
a nobreza do corpo humano, cercando-o de respeito e veneração, mesmo quando ele
se transfor­ma num montão de ruínas, numa podridão, num pu­nhado de cinzas.
Respeita estas cinzas e as quer de­positadas num lugar sagrado.
Uma
voz parece se ouvir no cemitério como a do Senhor a Moisés:
 “locus enim in quo
stas, terra sanc­ta est”. É sagrado o lugar onde estás, esta terra que pisas.

dormem os cristãos. Como é doloroso ver-se desrespeitado e profanado o lugar
dos mortos com tantas leviandades e até com o escândalo e o pecado. No cemitério
conservemo-nos respeitosos como num templo. Oremos e meditemos ali. É lugar
sagrado. O cemitério fala-nos que somos todos irmãos. Todos ni­velados numa
tumba! A diferença dos mausoléus e
 das
sepulturas rasas não tira ao cemitério a idéia do nivelamento, do nada que
somos, e da podridão de uma sepultura. Que lição para os orgulhosos! E como
devemos nos amar em Cristo, nós que seremos nive­lados após a morte até a
ressurreição da carne! De­baixo de uma sepultura, todos iguais! Ali não há po­bres
nem ricos, nem grandes ou pequenos. Já o dis­semos, o cemitério cristão
prega-nos a imortalidade de nossa alma. Ali não se acaba tudo. Ali começa tudo.
É a porta da eternidade, o pórtico da outra vida. Então, pensamos na
imortalidade de nossa al­ma. Olhar para um cemitério com a indiferença des­te
grosseiro materialismo que hoje aí impera, é mui­to triste e horrível porque
desespera. Cada sepultura é uma porta do céu para o verdadeiro cristão. Uma se­menteira
onde descansa um corpo que depois de apo­drecido como a semente na terra,
surgirá ressuscita­do para unir-se à alma na eternidade, quando vier a
ressurreição da carne. Ressuscitarei um dia! Que doce esperança do cristão!
Escreveu
D. Cabról: “A alma voltará um dia pa­ra animar este corpo que foi seu companheiro
na ter­ra e que ela o fez trabalhar no serviço de Deus. To­mará de novo sua
forma mortal, mas uma forma em­belezada, enobrecida, elevada até o apogeu da
glória. A alma santificada elevará este corpo a um grau de glória e o fará
entrar no céu e lhe comunicará os dons da imortalidade e da glória”.
Tudo
isto aprende e medita o cristão num cemi­tério quando o visita com fé e vive o
espírito da Igre­ja que santifica e abençoa o Campo Santo.
Visitas
ao cemitério
Quanto
mais os cristãos tíbios e os pagãos mo­dernos têm horror e fogem dos
cemitérios, tanto mais nós, os que cremos na imortalidade de nossa alma e
esperamos a ressurreição da carne, devemos visitar e amar o campo santo.
Visitemos os cemitérios. Serão nossos mestres, e neles nos lembraremos das
pobres almas do purgatório.
São
Camilo de Lellis
 e muitos outros santos ti­nham o
piedoso costume de visitar os mortos e me­ditar sobre as sepulturas. Quantas
vezes o Santo dos enfermos não se aprofundava numa meditação ante as
sepulturas, dizendo a si mesmo:
 medita na sorte destes que já estão na
eternidade.
  Ó, se muitos
des­tes mortos pudessem voltar à terra, como fariam pe­nitência e haviam de
trabalhar para sua salvação! Agora sabem eles o que é um Deus e uma eternida­de,
e o que valem as vaidades deste mundo!”.
Aconselha-se
a visita aos cemitérios para medi­tação nossa e para o proveito dos fiéis
defuntos. Con­vém recolher-se um pouco ao passar diante de um campo santo.
Rezar, refletir um instante! Não seja­mos indiferentes e frios como os que não
têm fé e não esperam a ressurreição da carne.
A
Santa Igreja, para nos estimular, concede-nos várias e ricas indulgências pela
visita ao cemitério. Durante o oitavário dos mortos, isto é, de 2 a 9 de
Novembro, os fiéis que visitarem o cemitério e reza­rem pelos defuntos, podem
lucrar as seguintes indul­gências: “Uma indulgência plenária cada dia aplicada
só aos defuntos. E a todos que visitam o cemitério e oram pelas almas, uma
indulgência de sete anos aplicável só aos defuntos — P. P. P. — 446).
Por
que estas indulgências? Naturalmente para nos estimular a orar pelos mortos no
lugar dos mor­tos, e assim embalsamarmos com a oração a sepul­tura sagrada dos
que dormem à espera do acordar do Juízo no último dia.
Nas
visitas pastorais o Bispo reserva um dia pa­ra os mortos. São também dignos
merecedores da visita do Pastor. É o exame do Pastor vigilante não só por
motivos canônicos e litúrgicos; tem o fim estimular os fiéis a rezarem pelos
fiéis defuntos, incentivar a devoção do sufrágio, recordar as gran­des verdades
de nossos novíssimos.
Por
tudo isto, que havemos de concluir?
A
Igreja quer que visitemos os cemitérios, que não nos esqueçamos desta obra de
caridade. Não basta aquela visita, quanta vez por vaidade e osten­tação, no dia
de Finados, umas coroas depositadas nos túmulos, umas lágrimas que logo se
enxugam e as flores que logo se murcham. Não é disto que pre­cisam os mortos.
As flores provam amizade, não as reprovamos. São elas uma manifestação delica­da
de amor. As lágrimas não as condenamos. Jesus não chorou ante o sepulcro de
Lázaro? Ficaremos to­davia só em lágrimas de sentimentalismo? É preci­so
sufragar as almas de nossos defuntos queridos. Vamos aos cemitérios para os
socorrer e não apenas para nos consolar e cumprir uma formalidade social.
Enfim, visitemos os cemitérios como cristãos, como os que acreditam na
ressurreição da carne.
Exemplo
O
príncipe polonês convertido
O
grande pregador
 Pe. Lacordaire numa das suas
conferências aos alunos do Colégio de
 Sorreze, conta o seguinte
fato ao tratar da imortalidade da alma:
Um
príncipe polonês, incrédulo e muito conhe­cido pelo seu materialismo, havia
escrito um livro contra a imortalidade da alma. Estava já pronto o livro e
prestes a entrar no prelo, quando ao passear pelo jardim veio-lhe ao encontro
uma pobre mulher e banhada em lágrimas lançou-se aos seus pés, dizen­do:

“Meu caro senhor, meu marido morreu. A sua alma deve estar no purgatório e há
de sofrer muito. Eu sou muito pobre, não tenho dinheiro para a es­pórtula de
uma Missa por sua alma. Tenha a carida­de de me dar uma esmola para mandar
celebrar uma Santa Missa pela alma de meu marido”.
O
incrédulo príncipe teve pena da pobre mulher, e embora não acreditasse na
imortalidade da alma e combatesse toda crença, levou a mão ao bolso e en­controu
uma moeda de ouro. Deu-a logo à mulher. A pobrezinha, radiante de alegria, foi
logo à primeira igreja e encomendou diversas Missas pela alma do sau­doso
esposo. Cinco dias depois, o príncipe relia os manuscritos do seu livro já em
vésperas de ser pu­blicado — o terrível livro contra a imortalidade da alma. —
De repente, levantando a cabeça, deu com os olhos num homem misterioso que lhe
parou em frente à mesa de trabalho do escritório. Era um camponês.

Príncipe, diz o desconhecido, venho agra­decer-lhe. Sou o marido daquela pobre
senhora que há poucos dias pediu a Vossa Alteza uma esmola para mandar celebrar
Missas pela alma do esposo falecido, pela minha alma. A caridade de Vossa
Alteza foi tão bem aceita de Deus, que me foi permitido vir agra­decer tão
grande benefício.
Diante
disto o príncipe, comovido, se converteu, rasgou os originais do livro ímpio
que havia escrito, lançou-os ao fogo e tornou-se bom cristão até a morte.