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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 25 de Novembro: A Missa dos defuntos (Parte XXVI)



Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre




25
de Novembro
A
MISSA DOS DEFUNTOS
As
cerimônias
O
simbolismo tocante e belo das cerimônias da Missa dos defuntos não pode ser
ignorado de quantos querem assistir com proveito ao melhor e o maior dos
sufrágios que se pode oferecer pelos mortos — o San­to Sacrifício dos nossos
Altares.
Esta
Missa é celebrada com o paramento de cor preta, simbolizando o luto. Não tem o
 Glória. É se­melhante às
Missas do tempo da Paixão. Mostra a dignidade do cristão assemelhado a Jesus
Cristo na Paixão. Não tem o Salmo
 Judica me, porque nele se diz: quare tristis est
anima mea et quare conturbas me? Por que perguntar à alma porque esta triste
quando já foi julgada?
O
sinal da cruz que o sacerdote faz sobre si nas outras Missas, aqui é feito
sobre o Missal, para di­zer que tudo é agora para os mortos, os frutos e mé­ritos
da cruz. Nem o padre nem o diácono beijam o Missal, simbolizando que as almas
não receberam o ósculo da paz de Deus no céu.
Escreveu
o piedoso
 Mons. Olier: “Não se beija o
Missal no fim do Evangelho primeiro, porque as al­mas do purgatório morreram em
 sinal da fé — insigno
fidei
 — não têm necessidade de uma profissão
de fé no Evangelho Pelo mesmo motivo a Missa dos defuntos não tem
 Credo, que é a
manifestação públi­ca da nossa fé. No ofertório não há bênção da água que é
posta no cálice com o vinho, porque a água sim­boliza os fiéis, e a Igreja não
tem jurisdição sobre os fiéis defuntos na outra vida, pois estão em Graça com
Deus. No
 Agnus Dei não há paz, a
cerimônia do
 Pax tecum. As almas já estão
na paz de Deus e livres dos perigos do pecado que tira a verdadeira paz. Elas
sofrem muito, mas em doce paz. No
 Agnus Dei não se diz Miserere nobis, mas “dai lhes o descanso”. Im­ploramos o
eterno descanso para as pobres almas so­fredoras e em tormentos do purgatório.
Elas não pre­cisam de paz, mas de um descanso eterno no seio do Deus. Não há
bênção no fim da Missa porque as al­mas não ouviram ainda de Nosso Senhor:
 “Vinde, benditas de
meu Pai, receber a recompensa…”.
Ao
invés do
 Ite, Missa est — “acabou-se a Mis­sa”, a ordem de
dispersar os fiéis e anunciar o fim da Missa, diz o sacerdote:
 Requiescant in pace —
“Descansem em paz”
.
É um convite ao povo, também, para que reze pelos fiéis defuntos e para dizer
que todo aquele Augusto Sacrifício foi oferecido para descan­so dos pobres
irmãos do purgatório. Eis as cerimô­nias especiais e variantes das Missas dos
defuntos. O
 Introito é uma súplica pelo
descanso das almas.
 “Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno e
que lhes res­plandeça a luz perpétua”.
 No gradual, a mesma
sú­plica. No Trato:
 “Livrai, Senhor, as almas dos fiéis
defuntos das cadeias dos seus pecados. E que o so­corro da vossa graça consiga
evitar o Juízo da Vin­gança e gozem a bem-aventurança da luz eterna”.
 Na Communio é ainda o pedido do
eterno descanso:
 “Que a luz eterna lhes resplandeça com
os vossos Santos por todos os séculos, ó Senhor, pois sois tão bom!”.
E
pede de novo:
 “dai-lhes o descanso e a luz perpétua,
pois sois tão bom, Senhor”
.
Que
belas súplicas pelas pobres almas!

O Dies Irae


0 Dies Irae é uma Sequencia da
Missa dos de­funtos, atribuída ao franciscano Celano, que a teria escrito no
ano de 1260. É uma descrição impressio­nante do Juízo final. Uma meditação das
mais vivas daquele dia tremendo em que todo o Universo há de prestar conta ao
Juiz dos vivos e dos mortos. Reza-se o
 Dies Irae nas Missas de Requiem. Comentá-lo seria
prolixo e exigiria um volume. Vamos meditá-la tra­duzida, embora não sem a
beleza e a expressão do latim e da forma poética. Servirá muito para nossa
meditação. Ei-la:
“Dia
de ira aquele em que o Universo terá re­duzido a cinzas, segundo as predições
de Davi a Sybila. — Qual não será o terror dos homens quando o Soberano Juiz
vier perscrutar todas as suas ações com rigor! — O som estridente da trombeta
acorda­rá os mortos nas profundezas das sepulturas, reu­nindo-os todos diante
do trono do Senhor. A morte e a natureza ficarão estupefatas quando a criatura
comparecer para ser julgada pelo Juiz. — Um Livro aparecerá onde está escrito
tudo sobre o que há de versar o julgamento. — Quando o Juiz se assentar no
Tribunal, tudo o que estiver oculto ficara desco­berto e nenhum crime ficará
impune. Infeliz de mim! Que poderei dizer então? Que protetor procurarei quando
somente o Juiz estará tranquilo?! — Ó Rei, cuja Majestade é tremenda, mas que
salvais gratui­tamente os escolhidos, salvai-me, ó Fonte de piedade! —
Recordai-vos, ó piíssimo Jesus, de que viestes ao mundo por minha causa; não me
condeneis nesse dia. — Ó Vós, que vos fatigastes em minha procura e que para me
resgatardes morrestes numa cruz, não queirais que fiquem infrutíferos tantos
esforços! Ó Justo Juiz, que castigais com justiça, concedei-me o perdão das
minhas faltas antes do dia do julgamen­to. — Eu choro como réu, as minhas
culpas envergonham-me. Ó Deus, que as minhas súplicas me al­cancem o perdão! Ó
Vós, que absolvestes a Maria e ouvistes o ladrão, concedei-me também a
esperança! Bem sei que as minhas preces não são dignas, mas vós, que sois bom,
não consintais que eu arda no fogo eterno. Colocai-me entre os cordeiros, à vossa
direi­ta, e separai-me dos pecadores. Livrai-me da con­fusão e do suplício dos
malditos condenados, e introduzi-me junto dos benditos de Vosso Pai.
Suplicante, prostrado ante vós e com o coração esmagado, como reduzido a
cinzas, eu Vos imploro, ó Senhor, que te­nhais piedade de mim no momento da
morte. Dia de lágrimas aquele em que o homem pecador renasça das suas cinzas
para ser julgado! Tende pois piedade dele, ó meu Deus! Ó piíssimo Jesus ! Ó
Senhor, concedei-lhe o repouso eterno!”.
Não
é verdadeiramente impressionante, nela, es­ta Sequência da Missa dos defuntos?

O Dies Irae é um grito de temor e
de esperança. Fala-nos do tremendo Juízo e aponta-nos a doce esperança na
Misericórdia do Salvador. Termina:
 Pie Jesu dona eis
requiem. — Piedosíssimo Jesus, dai-lhes o descanso eterno!
Lembra
o Juízo para nosso temor e para que an­demos vigilantes e preparados, e
recorda-nos a Divi­na Misericórdia, para que nunca desesperemos. Im­plora
misericórdia e descanso para os que já passa­ram pelo tremendo julgamento e
sofrem no purga­tório.
Prefacio
da Missa dos defuntos
Outra
jóia da Liturgia é o prefácio dos defun­tos. Uma lição, uma lembrança de nossa
imortali­dade e ressurreição futura. Não é muito antigo. Va­mos meditá-lo:
“Verdadeiramente
é digno e justo, racional e sa­lutar que sempre e em todos os lugares vos demos
graças, Senhor, Santo Pai Onipotente, Eterno Deus, por meio de Nosso Senhor
Jesus Cristo, em quem nos concedestes a esperança da feliz ressurreição; de
sorte que, conquanto a condição certa da nossa morte nos entristeça, fiquemos
consolados com a esperança da imortalidade futura. Pois para vossos fiéis, Se­nhor,
a vida muda-se, não se acaba, e desfeita esta morada terrena, adquire-se a
habitação eterna nos céus. E por isso, com os Anjos e Arcanjos, com os Tronos e
as Dominações, e com a Milícia celeste, can­tamos o hino da vossa glória,
dizendo sem cessar: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos. O céu e
a terra estão cheios da vossa glória. Hosana no alto dos céus”.
Eis
o belo Prefácio dos defuntos. Fala-nos da esperança da ressurreição futura.
Estamos tristes neste mundo porque nossa condição de pobres mor­tais, sujeitos
a deixar esta vida pela morte. Todavia, temos a promessa da imortalidade. Não
morreremos de todo. A morte para o cristão é vida. Nas cata­cumbas escreviam
nas lages sepulcrais às vezes uma palavra só:
 — Vixit! Viveu! É a idéia do
Prefácio. A vida do cristão é a mesma. Aqui a vida na graça, e depois a vida na
glória. Muda-se apenas a condição da mesma vida.
 Vita mutatur, non
tollitur
,
diz o Pre­facio —
 a vida se muda, mas não se acaba.
Que
lição confortadora!
Diz
o Apóstolo que não temos neste mundo mo­rada permanente.
 Non habemus hic
manentem civi­tatem.
 — Não pertencemos a este mundo. A
Igreja nos chama
 viatores, caminhantes. Vamos para a casa
de nossa eternidade. É o que nos recorda o Prefácio dos defuntos. Desfaz-se
nossa morada terrena, pobre e miserável, e adquirimos uma eterna morada no céu!
A
Liturgia dos mortos é pois uma continua lem­brança aos vivos da morte e do
Juízo, um despertar da nossa fé na imortalidade da alma e na vida fu­tura, um
brado para que estejamos vigilantes, por­que na hora que menos pensarmos,
 virá o Filho do Homem. É, principalmente,
um incentivo para que não nos esqueçamos de nossos mortos queridos.
Procuremos
assistir a Santa Missa dos defuntos com muita devoção e acompanhá-la no Missal
ou no folheto litúrgico. Ela é verdadeiramente impressio­nante e nos leva a uma
meditação muito séria da morte e do Juízo.
Ainda
há pouco o Santo Padre Pio XII, na opor­tuna Encíclica
 Mediator Dei, condenava o erro
dos que desejariam suprimir as Missas dos defuntos de nossa Liturgia e condenam
o paramento de cor preta, sob pretextos sutis de que prejudicam o chamado
 Movimento restaurador
da Liturgia
.
A Igreja, que vela pelo esplendor das solenidades litúrgicas, nem sempre
permite a Missa dos defuntos em grandes festas, mas como é generosa e permite
com frequên­cia estas Missas para ensinamento dos fiéis e alivio das pobres
almas!
Exemplo
Santa
Isabel, Rainha de Portugal, e sua filha Constância

A
grande Santa da caridade tinha uma fulha que muito amava, chamada Constância.
Esta princesa havia se casado há pouco tempo com o rei de Castela, quando uma
morte repentina veio arrebatá-la à afei­ção dos seus. A rainha, ao ter a
infausta notícia, juntamente com o rei se pôs a caminho de Santarém, quando um
eremita se aproxima do cortejo real e quer falar à rainha. Os fidalgos disseram
logo: é um importuno, um doido. Não lhe demos importância! Santa Isabel
percebeu tudo e mandou chamar o pobre monge, perguntando-lhe o que desejava.

Senhora, a vossa filha Constância me apare­ceu diversas vezes e foi condenada a
um longo e rigo­roso purgatório, mas será libertada no prazo de um ano se
celebrarem durante um ano todo, todos os dias, uma Santa Missa por ela.
Os
do cortejo real puseram-se a rir do monge: é um doido, diziam. É um intrigante
e quer arranjar alguma coisa, repetiam outros. A rainha, entretan­to, levou o
caso muito a sério. Pediu ao esposo que mandasse celebrar as Santas Missas.
Dizia: Afinal, o que se poderia sair perdendo com isto?
 Não é bom mandar
celebrar Missas pelos nossos mortos? Quanto não há de lucrar com isto a nossa
filha, ainda que não fosse real a aparição do pobre monge!
No
dia seguinte encarregou a um sacerdote de celebrar durante o ano todo por alma
da filha. Exa­tamente quando completou um ano, Constância
 apareceu
à sua santa mãe vestida de branco, toda lumi­nosa e de uma beleza incomparável.

Hoje, minha querida mãe, graças às vossas orações e às Santas Missas que
mandastes celebrar, estou livre dos meus tormentos e subo para o céu.
A
Santa, toda radiante de felicidade, foi pro­curar o Pe. Mendez, sacerdote
encarregado da cele­bração das Santas Missas, e este já vinha ao encon­tro da
rainha para lhe dizer que, na véspera, havia celebrado a última das 365 Missas
encomendadas por alma de Constância.