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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 27 de Novembro: As aparições de almas do purgatório (Parte XXVIII)


Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre




27 de Novembro
AS APARIÇÕES DE ALMAS
DO PURGATÓRIO
Que são as aparições?
Contam-se fatos
prodigiosos e muitas aparições de almas do purgatório. Isto poderia talvez
impres­sionar a alguns e julgarem que podemos desejar ou procurar, com certa
curiosidade, indagar a sorte dos mortos ou facilmente ter comunicação com as
almas do purgatório. Quanta ilusão perigosa e quanta su­perstição e crendice em
torno disto! É mister discer­nirmos bem as verdadeiras das falsas aparições, e
mostrarmos o pensamento da Igreja e dos Santos Doutores para que se evitem
confusões e ilusões nu­ma matéria tão grave e delicada, porque tão sujeita a
enganos e erros.
Que é uma aparição? É
uma manifestação do outro mundo, de alguém que nos vem dizer o que lá se passa.
Podemos acreditar nas aparições?
Há dois
extremos igualmente prejudiciais. Um dos que facilmente aceitam toda sorte de
aparições sem exame e não têm a prudência de estudar e esperar a opinião de
pessoas criteriosas, teólogos ou autoridades eclesiásticas e superiores, que
possam dis­cernir com segurança a verdade de tais aparições. É uma leviandade.
Assim o diz a Escritura: “Qui
 cito
credit, levis est corde”[1], quem facilmente em tudo crê, é leviano
de coração, é um espírito leviano.
 Todavia,
rejeitar sistematicamente e obstinadamente toda aparição, todos os fatos
sobrenaturais, mesmo que tenham os sinais de verdadeiros, é prova de mui­to
ceticismo, de orgulho, e pode levar à infidelidade a graça, como insinua a
Escritura:
 “Qui
incredulus est infideliter agit”[2], quem é duro em acreditar, procede contra
a piedade.
É
mister um equilíbrio neste caso entre os dois extremos. Uma alma verdadeiramente
humilde e obe­diente nunca poderá se enganar. Outra questão é se as almas do
outro mundo podem se comunicar com os vivos. Podem voltar à terra quando
queiram ou quando desejem os vivos? Respondemos sem hesitar, com a boa doutrina
da Igreja e dos teólogos: — não e não! Isto só se dá por uma especialíssima
permis­são de Deus, raras vezes, e por milagre, para ensina­mento e confirmação
da imortalidade da alma, para lição dos vivos ou para pedir socorro e
sufrágios.
Desde que nossa alma
se separou do corpo pela morte, não tem mais órgãos para se comunicar com os
homens, é puro espírito, e só por milagre se pode tornar sensível. E demais,
quando a alma deixou o corpo, já foi entregue à Divina Justiça, e está no lu­gar
que mereceu: o céu, o inferno ou o purgatório. Não pode, sem milagre, entrar em
comunicação com os homens. Este milagre das aparições nós os encontramos na
Sagrada Escritura.
 Samuel apareceu à Pitonisa de Endor e repreendeu a Saul porque havia perturbado o repouso
dos mortos
.
Mostrou o castigo que lhe estava reservado por esta curiosidade vã. Na morte de
Nosso Senhor, conta
 São Mateus que os túmulos se
abriram e muitos mortos apareceram e foram vistos em Jerusalém. Nas vidas dos
Santos encontramos inúmeras aparições, e a Santa Igreja, ao elevar à honra dos
altares os servos de Deus, sub­mete a um rigoroso processo todos os fatos e
prodí­gios que deles narraram, embora não se pronuncie sobre eles. Portanto, há
verdadeiras aparições.

Verdadeiras e falsas
aparições
Há verdadeiras e
falsas aparições. Estas muito mais frequentes do que aquelas. Como
distingui-las? Há sinais pelos quais facilmente podemos nos livrar de enganos e
afastarmos o perigo da ilusão diabólica. Devemos imitar sempre a reserva
prudente da Santa Igreja nesta matéria. A Igreja não admite revelação alguma se
não for devidamente comprovada, e ainda assim, não obriga os fiéis a nela
acreditar. Ninguém é obrigado a acreditar numa revelação particular por mais
provada que tenha sido. Não obstante, depois de bem provadas, seria temerário
abusar com uma sistemática atitude de ceticismo, diante do que San­tos e homens
doutos e equilibrados aceitaram e pro­varam não haver ilusões.
Diz Bento XIV que
podem os fiéis acreditar e podem ser publicadas as revelações particulares para
edificação dos fiéis, contanto que sejam aprovadas pela autoridade
eclesiástica. O Papa Urbano VIII manda que ao serem publicadas, declare o autor
em nada querer se adiantar aos juízos da Igreja, e que tais fatos merecem
apenas
 uma fé humana e não im­portam em
definição da Santa Madre Igreja.

Eis as cautelas com
que a Igreja cerca as apa­rições.
Há também regras
seguras para discernimento das revelações segundo os bons autores de espiritua­lidade
e os melhores teólogos. Umas se referem às pessoas que recebem as revelações, e
outras à ma­téria das revelações e aos efeitos das mesmas. Quan­to às pessoas é
mister indagar dos dotes naturais. É um temperamento equilibrado? Não se trata
de uma
 psico neurose ou de histerismo? Nestes casos, quan­tas
alucinações perigosas e difíceis de serem discer­nidas logo de começo! Quanto
ao estado mental, é pessoa discreta, de juízo reto, ou de imaginação exal­tada
e de sensibilidade excessiva? É instruída ou ig­norante? Onde aprendeu o que
sabe? Não estaria com o espírito debilitado por jejuns ou por alguma enfer­midade?
Quanto a moral, é mister saber se trata-se de pessoa sincera ou acostumada a
exagerar e a mentir. É um temperamento calmo, ou apaixonado e sem equilíbrio? A
resposta a estas perguntas não dará, certamente, uma solução para a prova da
exis­tência ou não de uma revelação verdadeira, mas aju­dará muito a julgar do
valor do testemunho dos videntes.
Quanto à matéria das
aparições é mister muita atenção para julgá-las. Segundo a doutrina unâni­me
dos Doutores, nenhuma revelação pode contradi­zer o dogma e o que foi ensinado
pelo Evangelho. Diz São Paulo: “Ainda que um Anjo do céu vos pregue um
evangelho diferente do que anunciamos, seja aná­tema”[3].
 Deus não se
contradiz. Nas falsas apari­ções há mentiras, erros teológicos graves,
contradições, e muitas vezes coisas contrárias às leis da mo­ral e da decência.
Muitas pessoas de
imaginação muito viva tomam seus próprios pensamentos por visões e locuções in­teriores.
Dizia
 Santa Teresa: “Acontece com certas pessoas de tão
fraca imaginação que se embebem de tal maneira na imaginação, que tudo o que
pensam claramente lhes parece que estão vendo”[4].
Aparições das almas
do purgatório
Depois de termos
mostrado a verdadeira doutri­na da Igreja sobre as revelações ou aparições,
trate­mos das aparições das santas almas. Podem elas aparecer aos homens? Sim,
raramente e por permis­são de Deus. É uma graça para quem recebeu a apa­rição e
uma graça para a pobre alma, sobretudo quan­do Deus permite que ela obtenha
socorros para se livrar das chamas expiadoras. Deus o permite para excitar a
nossa fé na imortalidade da alma e para que compreendamos melhor a sorte das
pobres almas e procuraremos sufragá-las com mais zelo e carida­de. Como
distinguir as verdadeiras das falsas apari­ções de almas do purgatório? Já
demos as principais regras deste discernimento segundo a doutrina da Igreja e a
teologia. Acrescentemos mais algumas. No século XVII o sábio
 Cardeal Bona criticou seve­ramente
a facilidade e leviandade com que acredita­vam muitos em revelações
sobrenaturais e deu algu­mas regras que podem nos esclarecer muitos na ma­téria.
Vamos comentá-las:
“1.º — ‘Toda aparição
desejada ou provocada é suspeita’.
 Ninguém deve desejar
ver nem conver­sar com os mortos, indagar a sorte dos defuntos, mesmo que o
faça por motivo de caridade e para rezar por eles. Não se deve desejar aparição
alguma de alma do purgatório. Seria temeridade e presunção.

2.º — Se a aparição revela
coisas ocultas que se­ria melhor silenciar sobre elas, faltas alheias, ensina
coisas contrárias ao dogma e ao Evangelho, tem hor­ror à água benta, ao
crucifixo etc., está provado que se trata do Demônio.
3.º — As almas do
purgatório aparecem geral­mente para solicitar orações, recomendar
restituições, etc. E feito isto, não voltam mais, a não ser para agradecerem.
 Se uma aparição se
torna importuna dia e noite, ameaça, perturba a paz de um homem ou de uma
família ou comunidade, é sinal certo de demônio.
4.º — Ninguém deve aceitar
serviços prestados pelas almas do purgatório
 que se vem colocar à
nossa disposição, morar conosco, etc. É pura ilusão isto ou coisa diabólica.
5.º — Todos os bons
teólogos místicos ensinam que as aparições verdadeiras logo de princípio per­turbam
e assustam, mas depois lançam a alma numa doce paz, aumenta a humildade, excita
o amor de Deus e do próximo e produzem um grande desejo de per­feição. Quando
alguém começa a se gabar das apa­rições, mostrar-se digno delas, perturbar-se
em vão e encher-se de presunção, irritar quando os superiores não fazem caso
das suas visões e desobedecerem, eis um sinal bem certo de engano.
6.º — É mister que as
aparições sejam expostas singelamente a um bom diretor, sem exageros nem
reticências, nem diminuição da verdade. E depois fi­car pelo que ele decidir e
obedecê-lo cegamente”.
Com estas regras
seguras dos bons teólogos e autores místicos, não haverá perigo de ilusão. Deus
Nosso Senhor na sua misericórdia tem permitido muitas revelações das almas do
purgatório. Parece mesmo que são mais numerosas do que qualquer ou­tras. Quanta
luz sobre o purgatório não nos deram, por exemplo, as revelações de uma Santa
Catarina de Genova! Nesta matéria sejamos muito prudentes e criteriosos e não
nos afastemos do pensamento da Santa Igreja e das normas que acima vão
expostas.
Exemplo
O purgatório nas
visões de uma mística canadense
Em 14 de Março de
1910 faleceu na cidade de
 Pointe Claire, no Canadá, uma mulher
extraordiná­ria, santa mãe de família, um modelo de esposa e cris­tã
verdadeira,
 Madame Brault, Maria Luiza Richard. A publicação da vida
extraordinária e maravilhosa desta grande mística, há bem pouco, causou
sensação em todo mundo, tais os prodígios contados e provados desta mulher que
se pode enfileirar ao lado de
 Ana Taigi e das grandes
místicas da Igreja. Dotada de uma grande simplicidade, espírito bem equilibrado
e sensato, de uma piedade muito provada e sincera, ho­je está perfeitamente averiguado
que não se tratava de nenhum espírito mistificador nem de alguma fal­sa
visionária. Teólogos e prelados ilustres examina­ram fatos, confessores doutos
e esclarecidos depuseram como testemunhas fidedignas no exame dos fa­tos
impressionantes da vida maravilhosa desta gran­de mística de nosso século.
 Madame Brault tinha contato com as
almas do purgatório e como o Santo Cura d’Ars podia dar testemunho da sorte das
pobres almas. Dizia ela chorando, num dia de Finados:
 “Os egoístas da terra
se esquecem dos mortos. Como deve ser cruel para as pobres almas do purgatório
o aban­dono dos homens! Dizem que amam os pais e paren­tes defuntos! Que
mentira! Nós que amamos a Deus devemos amar nossos amigos do purgatório todos
os dias de nossa vida. Eu quisera ser capaz de sofrer sozinha tudo o que
padecem as almas do purgatório para poder libertá-las!”.
Madame Brault teve muitas visões
das almas do purgatório. Elas lhe pediam orações, Missas e sacrifí­cios. As
pessoas que ela via eram desconhecidas às ve­zes e fizeram inquéritos rigorosos
de datas, lugares e circunstâncias, chegando-se à conclusão da impossibili­dade
de qualquer mistificação. Eram impressionantes as revelações desta mística. Em
1905, uma religiosa acompanhada de outra foi visitar
 Madame Brault.
— “Não quero visitar
esta louca”, disse a Mestra de noviças.
— “Ó, minha Irmã, não
diga assim! Madame é tão equilibrada e santa, tão discreta e humilde!”
Afinal tiveram uma
entrevista com ela. Foi uma pa­lestra amável e singela. Depois de alguns instante,
Madame Brault chamou a Irmã e lhe disse:
— “Minha Irmã, a
senhora não reza mais por seus parentes falecidos?”.
— Meus parentes
morreram há muito tempo e eram muito bons, devem estar no céu.
— Sim, vosso pai e
vossa mãe estão no céu. Um irmão porém morreu repentinamente em tal lugar e em
tal data, e um sobrinho. E a senhora nunca mais rezou por eles. É preciso dizer
ao sobrinho que vai se ordenar, que diga logo algumas missas por seu tio.
A Religiosa pasmou
diante do que ouvira. Era impossível que Madame tivesse tido informações tão
fiéis de seus parentes. Outra Irmã perdera o pai em 31 de Julho de 1903. Madame
Brault lhe disse:
 “Te­nha confiança, Irmã, seu pai está
no céu. Tinha ele uma grande devoção à Santíssima Virgem, gostava de rezar o
rosário e morreu num sábado. Naquele sá­bado mesmo Nossa Senhora o fez entrar
no céu”.
Ela nunca ouvira
falar deste homem, e não lhe era possível conhecer tal pessoa.
“Sejamos libertadores
das almas do purgatório
, repetia ela depois dos êxtases. Nosso Senhor nos deu
as chaves da prisão do purgatório: a oração, o sofri­mento, o sacrifício…”.
No dia 21 de Dezembro
de 1907, na relação que foi obrigada a fazer por escrito ao seu Diretor espi­ritual,
viu ela um Padre no purgatório. Estava re­vestido de ornamentos sacerdotais e
com um cálice todo em fogo. As mãos pareciam roídas e apareciam até os ossos.
Úlceras por todo o corpo e torturas hor­ríveis. À vista deste tormento, Madame
Brault ge­meu: “Ó meu Bem Amado, meu Jesus, quero sofrer por esta alma; por que
não me dais a graça de sofrer mais para aliviá-la? Depois vi Jesus se aproximar
do Padre e derramar sobre aquelas chagas seu precioso Sangue. As chagas se
cicatrizaram e as cadeias do pobre sacerdote caíram. Depois meu Jesus me disse
que libertaria aquela alma pelas minhas orações. A face do padre ficou limpa
das úlceras, uma bela esto­la roxa lhe adornava o pescoço e os paramentos me
pareceram mais brilhantes e belos. Jesus me dis­se que libertaria a alma do
sacerdote”.
No dia de Finados de
1908, foi ao cemitério rezar pelos mortos e viu, Madame Brault, muitos mortos
que lhe apareciam saindo das sepulturas em queixas do­ridas de cortar o
coração:
 Estamos esquecidos de nos­sos parentes!
Não rezam por nós! Nossos amigos nos esqueceram, nos abandonaram!!!
Fez ela uma Via Sacra
pelos defuntos e se reti­rou muito amargurada, pelo esquecimento dos po­bres
mortos.
“Compreendo, dizia
ela ao confessor, o martírio
 das pobres almas nas
chamas do purgatório!”. Viu um padre conhecido no purgatório que lhe disse: “Eu
sofro muito por ter rezado tantas vezes meu breviário quase sem pensar que
falava com Deus e por ro­tina, e também pela minha pouca preparação e ação de
graças muito rápida depois da Santa Missa”.
Enfim, seria longo
narrar as impressionantes vi­sões do purgatório de Madame Brault, a grande mís­tica
de nossos dias. A biografia desta mulher extraor­dinária foi publicada pelo
 Pe. Louis Bouhier, S. S., an­tigo
pároco da vidente. É a obra
 “Une mystique ca­nadienne — Vie
extraordinaire de Madame Brault”
 — Edition Beauchemin,
1941.



[1] Eccl.
XIV — 4.
[2] Isaías
— XXI, 2.
[3] Galatas
— I, 8.
[4] Castillo
— Morados sextas — Cap. IX, 9.