Torne-se consciente do perigo: o pecado como inimigo do homem — Armando Braio Ara

Torne-se consciente do perigo: o pecado como inimigo do homem — Armando Braio Ara

O pecado é o maior inimigo do homem

Corrói o sentido da vida.

Esvazia o sabor de tudo.

Tudo cai na superficialidade, no non-sense e na sensação de inutilidade.

Quando a pessoa vê o outro nessa perspectiva, tudo decai, torna-se incapaz de qualquer análise mais profunda.

Ora, criado à imagem e semelhança de Deus, o homem é chamado a refletir em profundidade sobre o significado e o fim de sua existência.

Quando foge disso, buscando o devaneio, a dispersão, divagação e a dissipação, destrói as melhores propensões de alma e só encontra a desolação do vácuo e da incoerência de propósitos.

Com o tempo, a busca insaciável e frenética do prazer, depois de provocar uma inquietação lancinante, leva a um tormento sem fim: a procura incessante de algo inatingível — a felicidade completa — leva a pessoa a ficar com os sentimentos mais elevados embotados, jazendo sem vontade própria e sem iniciativa. A existência torna-se, por assim dizer, meramente vegetativa.

Por causa de prazeres terrenos de instantes, sofreremos tormentos eternos sem medida.

Ensina Santo Afonso de Ligório: uma vez condenada, a pessoa que vivia no pecado da carne, por exemplo, terá, em meio ao fogo infernal, a sensação constante da prática do pecado, mas sem o prazer daí advindo. Portanto, será um tormento incalculável, um horror inimaginável.

Na terra, o que se entrega ao vício da impureza, à medida que se habitua a isso, já não vive sem a busca desse falso deleite, mas, aos poucos, deixa de sentir o lado prazeroso, que se atrofia (deixando de causar fruição), pois começa a repetir as ações impuras quase que mecanicamente, à maneira de um robô.

No inferno, o horror do tormento que nunca acaba está na origem do desespero: a pessoa terá o filme de sua vida passada em todos os instantes diante de si.

A todo instante o remorso o queimará a fundo: por que não aproveitei nenhuma das oportunidades que tive para escapar desse pecado?

Esse filme nunca deixará de estar diante de seus olhos.

Rejeitou a Deus e agora sente a rejeição divina.

É uma rejeição eterna, sem volta se sem nenhuma sombra de apoio ou de mitigação.

Um fracasso total; a pena de dano, isto é, a perda eterna, definitiva e inapelável de Deus, para o Qual fora criado, e que somente Ele poderia dar sentido à vida, em vão consumida.

Três pensamentos terríveis assolam o condenado:

a) NUNCA e SEMPRE! Esse tormento não tem pausa nem fim;

b) Deus me criou para dar a Ele todo o bem de que seria capaz: nisso consistia a minha felicidade, pois era o que a minha consciência retamente ordenada, sobretudo em razão da graça batismal, almejava realizar. Joguei fora todas essas oportunidades que, aproveitadas por amor de Deus, me teriam levado ao Céu. Disso tudo o que ficou? Um remorso que me dilacera até as entranhas;

c) Em união com a Paixão do Santíssimo Redentor e pela intercessão da Virgem Maria, teria sido tão fácil, mediante uma vida católica, obter méritos por toda a eternidade. Onde estava a minha cabeça quando desperdicei isso? Por que eu o fiz? A todo instante a alma se remói diante dessa irreparável perda, por exclusiva responsabilidade.

Seguem quatro considerações, segundo as fez São Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, para nos arrependermos bem dos pecados cometidos (“Maná ou alimento da alma devota” — Orações e exercícios piedosos compilados por Frei Ambrósio JOAHANNING, O. F. M., XXIII edição. Vozes, Petrópolis, 1958, p. 104–109).

1- Transporta-te em espírito à beira de um túmulo.

— Imagina uma cova. Que é que lá verias? — Um cadáver apodrecido, roído por milhares de bichos, tão feio, espalhando cheiro tão desagradável, que te custaria suportar tal presença. — Eis aqui o homem — rei da terra, a criatura mais formosa e mais nobre deste mundo; um montão de ossos, uma comida de vermes! E quem veio introduzir a morte neste mundo? — O pecado. — Adão e Eva comeram o fruto proibido: desobedeceram a Deus e foram condenados à morte; e com eles todo o gênero humano. — Eis a consequência dum só pecado mortal! É o pecado que transforma o corpo humano — obra tão esplêndida e artificiosa da onipotência divina — num monturo de podridão. — Foi um único pecado mortal, que, num momento, transformou os anjos mais formosos no estado mais feio e abominável que há; — em demônios, — Que grande mal deve ser, pois, o pecado mortal! Sim, muito mais feio e horrível do que um cadáver reduzido à podridão…

Contam que na antiguidade um tirano, para atormentar o seu inimigo do modo mais cruel possível, mandou-o ligar vivo a um cadáver. — Que castigo horrível — dia e noite ser amarrado a um cadáver apodrecido! — Muito mais feia, porém, é a alma — manchada com o pecado mortal. — Essa alma, feita à imagem de Deus — outrora tão formosa — mais bela que o mais lindo jardim de flores — agora uma morada — uma escrava do demônio! — E, talvez, já haja muito tempo — que vendeste, que entregaste tua alma ao demônio, dando entrada em teu coração a este teu inimigo capital — pelo pecado grave. — Ah! Como és infeliz agora! — Em lugar de paz e de alegria — agora remorsos horríveis. — Não permitais, meu Deus, que mais uma vez entregue a minha alma imortal ao demônio, dando a meu corpo um prazer proibido, satisfazendo os desejos da carne, que sempre se revolta contra o meu espírito; desta carne que um dia vai ser reduzida a pó e cinza, a uma comida de bichos. — Fazei que vença as minhas más inclinações, principalmente esta [NOMEAR INTERIORMENTE]; a fim de que um dia meu corpo ressuscite glorioso, para participar da glória celeste,

2- Ergue o teu espírito ao céu.

— Imagina a coisa mais bela e mais sublime que há neste mundo — talvez um mimoso jardim no brilho das mais belas flores; — ou uma cidade — segundo a descreve S. João no Apocalipse — uma cidade com ruas de ouro puro — com portas de pérola e brilhantes — com muros de pedras preciosas. — Tudo isso, comparado ao céu, não é nada mais do que a fraca luz de uma pequena lâmpada, em comparação ao sol radioso. Imagina um homem a quem foi dado gozar — talvez um vida inteira — todas as alegrias e prazeres que desde Adão pôde experimentar um pobre mortal; TODOS ESTES GOZOS E DELEITES, COMPARADOS À GLÓRIA DO CÉU, SÃO COMO UMA GOTA DE ÁGUA EM COMPARAÇÃO AO OCEANO IMENSO. — E ESTE LUGAR DE DELÍCIAS ERA DESTINADO PARA TI, MAS, PELO PECADO MORTAL, PERDESTE O DIREITO DE ENTRAR NAQUELA MANSÃO CELESTE. — Um único pecado mortal — e perdido está o céu com suas delícias. — Ó meu Deus, que coisa horrível deve ser o pecado mortal, que nos priva de um bem tão grande e sublime! — E tu o soubeste, minha alma; — e, apesar disto, cometeste o pecado mortal, renunciando à tua eterna salvação, talvez por algum dinheiro, que tiraste, talvez por causa de outras injustiças que cometeste contra o próximo, talvez por um prazer ilícito, por um pecado desonesto! — Ah, que loucura — vencer, perder sua eterna felicidade — por um momento de prazeres proibidos — trocar o céu por algumas moedas — um punhado de bens e riquezas passageiras! Por ventura, queres de novo perder o céu, cometendo um pecado mortal? — Transporta mais uma vez o teu espírito àquela região celeste — e contempla o Senhor do céu sentado no seu trono — cercado de majestade tremenda, de glória indizível. — Imagina os milhares e milhares de espíritos angélicos, trêmulos, prostrados diante do trono de Deus — que, com as faces veladas e cheios de respeito e santa reverência — cantam incessantemente o “Santo, santo, santo”. Eis como o céu e a terra se dobram diante da Majestade divina — e como tudo obedece à santíssima vontade de Deus.

E tu — criatura tão vil e miserável — te atreveste a negar obediência a este Deus tão santo, tão forte, tão poderoso — e, ao mesmo tempo, tão bondoso — calcando aos pés a sua lei, transgredindo os seus mandamentos, provocando e desprezando a sua justa ira, afligindo amargamente o seu Coração paterno, que tanto te ama e te encheu de tantos benefícios. — Prostra-te de joelhos em na santíssima presença de Deus — e, do fundo do teu coração, dize-lhe: “Ò Deus de santidade e de misericórdia infinita — detesto agora sinceramente todos os meus pecados, com que na minha maldade ofendi a vossa divina majestade, desprezando a bondade do melhor dos pais. — Ah, lançai um olhar de compaixão sobre mim, vosso filho ingrato, pois prometo ser agora e sempre um filho obediente — e não tornar a ofender-vos pelo pecado mortal”.

3- Desce em espírito ao inferno

— e contempla os tormentos terríveis, que lá sofrem os condenados. — Queimar um pouco já causa uma grande dor — por nada deste mundo, o deixarias, por uma hora inteira, no fogo. — Os condenados, porém, sofrem num fogo — muito mais ardente do que o nosso — tormentos horríveis — no meio das chamas — e nem uma gota de água lhes é concedida para refrescar a sua língua. E há quanto tempo são atormentados os condenados? — Talvez 1 dia, 1 ano, 1 século — Isto não seria nada — Judas já está no inferno há 1900 anos [quase 2000 anos…] — sem um momento de descanso e de descanso. — e ainda que sofra mais 1900 anos — ou até 19.000 ou 19.000.000 de anos — nunca há de conseguir descanso — nunca será um pouco aliviado — mai…

Os condenados são sempre atormentados por estes dois pensamentos — nunca — sempre. Nunca sair — sempre ficar — na companhia das criaturas mais perversas e desgraçadas. — Agora, minha alma, pergunta-se qual a causa de tormentos tão horríveis. — É o pecado — o pecado mortal. — E basta um só pecado mortal para te fazer merecedor de tais castigos da justiça divina. — Se o bom Deus — o Deus de misericórdia — que não quer a morte do pecador — mas sim que se converta e viva — se ele castiga tão severamente o pecado — por acaso não deves estremecer e temer de tornar a ofender — pelo pecado mortal — este Juiz tremendo e severo? — Ah, promete agora emendar-te. — Ainda há tempo. — Sim, meu Deus, antes morrer que vos ofender pelo pecado mortal. — Dai-me força para evitá-lo, principalmente este[NOMEAR INTERIORMENTE O PECADO A QUE TE VÊS MAIS INCLINADO*

*[NOMEAR INTERIORMENTE O PECADO A QUE TE VÊS MAIS INCLINADO]

4- Transporta teu espírito ao Calvário e contempla a Jesus crucificado.

— As dores que teu Salvador sofreu foram tão horríveis — que te deviam mover à compaixão — mesmo se fosse o teu inimigo mortal, que lá padecesse. — Mas é teu Salvador! — Contempla-o: — desde a ponta dos pés à cabeça — não há nenhum ponto do seu corpo que não fosse martirizado; — todo o corpo ferido, todo o corpo uma chaga. — A cabeça é atormentada pela coroa de espinhos agudos; a boca, pela sede ardente; — as mãos e os pés são traspassados por pregos duros; — a alma santíssima é abismada no mais profundo abandono. O verme, quando pisado, pode torcer-se; — Jesus nem sequer pode mover-se na cruz. — E quem é aquele que tão cruelmente é maltratado? — Talvez um malfeitor — Não. -…

Ajoelha-te diante da imagem de teu Jesus crucificado; pede-lhe perdão por tanta ingratidão — e promete nunca mais ofender a teu amável Salvador. — Dize-lhe de coração contrito: “Ah, meu Jesus, pelo amor de vossas cinco chagas — por amor de vosso sangue preciosíssimo — lavai a minha pobre alma de toda mancha do pecado. — Deixai cair sobre a minha alma uma só gota de vosso precioso sangue, tão copiosamente derramado, e minha alma será inteiramente purificada — e poderei chamar-me outra vez vosso filho. — Ó doce Jesus, que tanto me amais: — Fazei com que eu vos ame cada vez mais!”

Vendo excitada diante de ti, por meio destas considerações, uma contrição sincera, convém acrescentar ainda o seguinte:

ATO DE CONTRIÇÃO E BOM PROPÓSITO

Eis-me aqui, meu Deus — cheio de confusão à vista de minhas culpas. — Ah, quantas vezes pequei! Não sou digno de ser chamado vosso filho. — Os anjos que pecaram — logo reprovastes e lançastes no inferno. — Adão e Eva — logo depois de terem comido o fruto proibido — foram expulsos do paraíso! — Mas a mim ainda me suportastes. — Muitos homens lançastes no inferno — ou os condenastes a sofrer as penas terríveis do purgatório — porque vos ofenderam. Mas a mim ainda me poupastes! — Quanta gratidão vos devia por tanta bondade! — e quão ingrato fui para convosco — meu Pai misericordioso! — Esqueci-me de tantos benefícios que me fizestes — Vós me criastes para o céu — mas eu nada fiz para alcançá-lo. — Vosso Filho unigênito me remiu por suan dolorosa paixão e morte na cruz — derramando, por amor de mim, todo o seu sangue. — Mas eu — em vez de mostrar gratidão a tanto amor — renovei a sua paixão com os meus pecados. Ó meu Deus — perdoai-me! — Sei que fiz mal — pesa-me de não vos ter amado — mas sim desprezado e ofendido. — Se,meu Deus — envergonho-me e arrependo-me agora, do fundo do meu coração, de todos os meus pecados — e proponho firmemente não tornar a ofender-vos. Quero agora emendar-me sinceramente — cumprindo fielmente os vossos mandamentos. — Penetrai, Senhor, a minha alma com a graça de uma verdadeira penitência — que me faça mudar de vida e evitar as ocasiões de pecado.

Virgem Santíssima e Mãe de misericórdia, intercedei por mim, para que obtenha o perdão do passado, com as graças necessárias para resistir ao pecado no futuro. Meu bom anjo, zeloso guarda de minha alma, ajudai-me a erguer-me e a evitar todos os pecados. Amém!

(“Maná ou alimento da alma devota” — Orações e exercícios piedosos compilados por Frei Ambrósio JOAHANNING, O. F. M., XXIII edição. Vozes, Petrópolis, 1958, p. 104–109).


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