O VERDADEIRO CATÓLICO DEVE SER ALEGRE OU TRISTE? — Armando Braio Ara

Uma pessoa é desculpável de nem sempre ser alegre, pois não é dono da alegria para tê-la quando quiser; mas não é desculpável de não ser sempre bondosa, manejável e condescendente, pois isto está sempre no poder da nossa vontade, e para isso não é preciso senão resolver-se a superar o humor e inclinação contrária.
Quanto à tristeza, como pode ela ser útil à santa caridade, já que entre os frutos do espírito santo a alegria é colocada junto à caridade? Não obstante, o grande apóstolo assim diz: a tristeza que é segundo deus opera a penitência estável em salvação, mas a tristeza do mundo opera a morte (gal 3, 22; 2 cor 7, 10).
Há, pois, uma tristeza deste mundo que provém igualmente de três causas:
Porquanto, 1º, provém às vezes do inimigo infernal, que, por mil sugestões tristes, melancólicas e molestas obscurece o entendimento, debilita a vontade e conturba toda a alma. E, assim como um nevoeiro espesso enche de catarro a cabeça e o peito, e por esse meio torna a respiração difícil, e põe em perplexidade o viajor, assim também o maligno, enchendo o espírito humano de pensamentos tristes, tira-lhe a facilidade de aspirar a deus, e dá-lhe um aborrecimento e desânimo extremo, a fim que desesperá-lo e de perdê-lo.
2º a tristeza procede também, outras vezes, da condição natural, quando o temperamento melancólico domina em nós, e este não é verdadeiramente vicioso em si mesmo, mas, no entanto, nosso inimigo serve-se dele grandemente para urdir e tramar mil tentações em nossas almas; porquanto, assim como as aranhas quase nunca fazem suas teias senão quando o tempo está encoberto e o céu nublado, assim também esse espírito maligno nunca tem tanta facilidade para armar as ciladas das suas sugestões nos espíritos doces, benignos e alegres, como nos espíritos sombrios, tristes e melancólicos; pois os agita facilmente com mágoas, suspeitas, ódios, murmurações, censuras, invejas, preguiça e entorpecimento espiritual.
3º Finalmente, há uma tristeza que a variedade dos acidentes humanos nos acarreta. Que alegria posso eu ter, dizia Tobias, não podendo ver a luz do céu? (Tob 5, 12).
Assim Jacob ficou triste com a notícia da morte de seu José, e David com a do seu Absalão. Ora, essa tristeza é comum aos bons e aos maus, porém nos bons é moderada pela aquiescência e resignação à vontade de Deus; como se viu em Tobias, que, de todas as adversidades de que foi tocado, deu graças à divina majestade, e em Job, que por elas bendisse o nome do Senhor; e em Daniel, que converteu suas dores em cânticos. Pelo contrário, quanto aos mundanos, essa tristeza lhes é ordinária, e converte-se em pesares, desespero e atordoamentos de espíritos; pois eles são semelhantes às macacas e marmotas, que estão sempre sorumbáticas, tristes e zangadas por falta da lua, mas, ao contrário, à renovação desta, saltam, dançam e fazem as suas momices. O mundano é ronhento, intratável, acre e melancólico na falta das prosperidades terrenas, e na afluência destas é quase sempre fanfarrão, divertido e insolente.
De certo, a tristeza da verdadeira penitência não deve tanto ser chamada tristeza como desprazer, ou sentimento e detestação do mal, tristeza que nunca é nem aborrecida nem mal humorada, tristeza que não entorpece o espírito, mas que o torna ativo, pronto e diligente; tristeza que não abate o coração, mas o eleva pela oração e pela esperança, e o leva a fazer os rasgos do fervor de devoção; tristeza que no forte das suas amarguras produz sempre a doçura de uma consolação incomparável, consoante o preceito do grande santo agostinho:
Entristeça-se o penitente sempre, mas sempre se alegre com a sua tristeza. Diz Cassiano que a tristeza que opera a sólida penitência e o agradável arrependimento, da qual a gente nunca se arrepende, é obediente, afável, humilde, bondosa, suave, paciente, como sendo saída e descendente da caridade. De tal sorte que, estendendo-se a toda dor de corpo e contrição de espírito, de certo modo é alegre, animada e revigorada pela esperança do seu proveito, e retém toda a suavidade da afabilidade e longanimidade, tendo em si mesma os frutos do Espírito Santo que o santo Apóstolo narra. Ora, os frutos do Espírito Santo são: caridade, alegria, paz, longanimidade, bondade, benignidade, fé, mansidão, continência (Gal 4, 22).
Tal é a verdadeira, e tal a boa tristeza, que por certo não é propriamente triste nem melancólica, mas somente atenta e afeiçoada a detestar, rejeitar e impedir o mal do pecado quanto ao passado e quanto ao futuro. Nós vemos também múltiplas vezes penitências muito apressadas, perturbadas, impacientes, chorosas, amargas, suspirantes, inquietas, grandemente ásperas e melancólicas, as quais enfim se mostram infrutíferas e sem consequência de qualquer verdadeira emenda, porque não procedem dos verdadeiros motivos da virtude de penitência, e sim do amor-próprio e natural.
Uma pessoa é desculpável de nem sempre ser alegre, pois não é dono da alegria para tê-la quando quiser; mas não é desculpável de não ser sempre bondosa, manejável e condescendente, pois isto está sempre no poder da nossa vontade, e para isso não é preciso senão resolver-se a superar o humor e inclinação contrária.
[“Tratado do amor de Deus”, São Francisco de Sales, Livro décimo primeiro, capítulo XXI]
OUTRAS CITAÇÕES:
“Se nos aplicarmos a uma vida piedosa e santa, nada haverá que nos possa entristecer” (São João Crisóstomo)
“A alegria, que procuramos, não na criatura, mas em Deus, é alegria verdadeira, que não tem semelhante entre as alegrias do mundo” (São Bernardo)
“Quem é virtuoso, não precisa estar triste”. Esse era o lema de Santo Honorato, sucessor de Santo Hilário como bispo de Arles; fundara antes um convento na inóspita ilha Lerin, outrora habitada apenas por animais bravios; por causa de Honorato, Lerin ficou sendo chamada “a [cidade] feliz” {Idem, p. 42]
[“Na Luz Perpetua” -Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do anno, apresentadas ao povo christão, João Baptista LEHMAN, Sacerdote da Congr. Do Verbo Divino, Volume I, Segunda edição revista e augmentada, Typ. Do “Lar Catholico”, Juiz de Fora, Estado de Minas, p. 41]
