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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 5 de Novembro: O Purgatório, a razão e o coração (Parte VI)



Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre





5
de Novembro
O
PURGATÓRIO, A RAZÃO E O CORAÇÃO
Razões
do purgatório
Qual
a razão de ser do purgatório? É o pecado. É o obstáculo que impede a alma de
entrar no céu sem estar purificada e digna da visão beatífica. O pecado mortal
leva ao inferno. Separa para sempre a alma de Deus. Entretanto, veio o perdão
pela infi­nita misericórdia e o pecador arrependido muda de vida e não mais
volta aos seus desvarios. Todavia, não fez a devida penitência, não reparou o
seu crime neste mundo por uma penitência. Fica-lhe ainda uma dívida a pagar à
Divina Justiça. O pobre pecador cul­pado de muitas faltas veniais passa desta
para outra vida, vai prestar contas a Deus. Aquele Deus de to­do santidade, o
Santo por excelência, a Justiça mes­ma, não quer condenar a quem já perdoou,
não há de perder quem, embora manchado de leves culpas, de muitas imperfeições,
não é todavia inimigo de Deus. Que há de fazer? Levá-lo para o céu, onde nada
pode entrar manchado? Impossível! Seria ter uma noção errada da santidade e da
infinita pureza de Deus, admitir este absurdo. Condenar às penas eternas quem,
embora tivesse pecado, não chegou à culpa mortal e não se separou do Senhor
porque não per­deu o estado de graça? Então para onde irá a alma assim manchada
e não de todo santa e perfeita para o céu? Eis a razão a nos dizer: há de
existir uma purificação além desta vida entre as duas eternida­des, um
purgatório que nos livre do inferno e que seja o vestíbulo do paraíso, uma
expiação necessária para as almas. Pode-se ir para o purgatório por três
motivos: primeira, pelos pecados veniais não remi­dos ou perdoados neste
mundo; segundo, pelas incli­nações viciosas deixadas em nossa alma
pelo hábito do pecado; terceiro, pela pena temporal devida a todo
pecado mortal ou venial cometido depois do batis­mo e não expiado ou expiado
insuficientemente nes­ta vida.
Depois
da morte não há mais reparação nem pe­nitência nem mérito. Havemos de pagar a
dívida de nossos pecados até o último ceitil, como diz o Evan­gelho.
Ora,
é necessário o purgatório. É um dogma muito conforme à razão e bom senso. A
existência do purgatório, dizia o grande Conde De Maistre, se apoia
na natureza de Deus e na natureza do homem. Digo — na natureza de Deus. Deus é
Santidade, Jus­tiça e Caridade. Como Santo, Deus não pode admitir união entre a
sua pureza infinita e nossas manchas. Como Deus, é bom, não pode deixar perecer
para sem­pre a obra das suas mãos que lhe implora o perdão. Daí a necessidade
de um lugar de expiação. A razão do purgatório também se baseia na natureza do
ho­mem. Está na natureza humana procurar se purifi­car para ter um alívio,
porque a falta coloca o homem em desarmonia com seu fim último. Ora, a alma não
pode se purificar sem sofrimento, sem penas. O purgatório é esta expiação, esta
purificação que a alma procura. Para fazer cessar este desacordo entre ela e
Deus e torná-la apta para gozar da felicidade
 de
Deus sem as manchas de suas faltas. Eis aí como é racional e que harmonia no
dogma do purgatório!
Razões de sentimento
Vemos
tantos entes queridos que deixaram esta vida, é verdade, em boas disposições,
mas como eram culpados de certas faltas e não haviam feito uma pe­nitência
devida, receamos às vezes pela sua salva­ção. Todavia nos diz o coração que não
podiam se perder. Eram bons, tinham qualidades apreciáveis, foram talvez
caridosos e fizeram algum bem nesta vida. Admitir que estejam no céu depois de
tantas faltas e defeitos e ausência de penitência, não o po­demos. Dizer que
estejam condenados, é muito duro, e, apesar de tudo, como poderiam ter se
perdido al­mas tão caridosas e boas e que fizeram algum bem neste mundo? A
idéia do purgatório se impõe neces­sariamente à nossa razão antes de se impor à
nos­sa fé.
Escreve
Pe. Faber: “O purgatório explica os enigmas deste mundo. Dá
solução a uma multidão de dificuldades. Em face deste sistema, que podería­mos
chamar o oitavo e terrível Sacramento do fogo que atinge as almas, às quais os
sete sacramentos não deram uma pureza perfeita. O purgatório é uma invenção de
Deus para multiplicar os frutos da Pai­xão de nosso Salvador e que Ele
estabeleceu preven­do a grande multidão de homens que deveriam mor­rer no amor
de Deus, mas num amor imperfeito. Não é uma continuação além-túmulo das
misericór­dias prodigalizadas no leito de morte? Isto nos es­clarece tanto e
nos faz supor que muitos católicos se salvam, principalmente os que viveram
neste mun­do na pobreza, no sofrimento e nas provações”.
O
dogma do purgatório também encontra fun­damentos e raízes no coração humano,
escreveu Mons. Bougaud. É um intermediário entre a Justiça e a Mi­sericórdia,
como o divino auxiliar do amor. Tirai o purgatório, e a justiça seria terrível.
Seria inexo­rável. Felizmente, esta aí o purgatório. O Amor in­finito o criou.
O purgatório não serve apenas para temperar e satisfazer a justiça. Serve
também para dilatar a misericórdia. Serve para explicar a mise­ricórdia de Deus
que se contenta, na hora da morte, com um pouco de arrependimento do pecador.
Não
é pois consolador pensar na existência do purgatório, pelo qual se poderão
salvar tantas almas? A impiedade e a heresia, negando o dogma da expiação
além-túmulo, se põem contra a razão. O purgató­rio, diz ainda o célebre Mons.
Tiamer Toth
, é a melhor resposta aos erros da reencarnação. Há um so­frimento
purificador depois desta vida. O cristia­nismo ensinou isto muito antes que as
filosofias ne­bulosas do Oriente semeassem na alma do homem moderno o erro da
reencarnação, que não tem a seu favor argumento de espécie alguma. Também nós
pregamos que há purificação além-túmulo! Esta pu­rificação se faz na justiça de
Deus e com o fim de salvar uma alma por toda eternidade e torná-la dig­na da
Pureza Infinita, que é Deus. O purgatório é um combate aos erros do
espiritismo, porque nos manda orar e sufragar os mortos sem se preocupar em
conversar com eles, na certeza de que estão nas Mãos da Divina Justiça e já não
podem se comu­nicar com os vivos. Que dogma racional e de quantos erros e
superstições nos livra!
Nossos
mortos
Havemos
de chorar nossos mortos e a religião não nos pode proibir as lágrimas tão
justas, quando sentimos nosso coração ferido pelo golpe duro da sau­dade.
Todavia, havemos de chorar cristãmente nos­sos defuntos queridos. É mister
lembrar-se deles mais com orações e sufrágios do que com lágrimas esté­reis. O
pensamento do purgatório é um consolo. Sa­bemos que podemos ainda auxiliar,
valer e socorrer nossos entes queridos. É bem possível que padeçam no
purgatório.
A
religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não proíbe que choremos os nossos mortos
queridos. Pode­mos, pois, render a estes o tributo de nossas lágri­mas e de
nossas saudades. Com esta pobre natureza, como ficarmos insensíveis ante a
morte de um ente estremecido? Como nos custa ver arrebatados pela morte os
entes com quem convivemos, nosso pai, nos­sa mãe, nosso filho, nosso irmão,
nosso amigo!… A religião, se bem que nos ensine a ser fortes na dor e a
meditar na Paixão de Jesus Cristo, não nos veda aquelas lágrimas e saudades.
Ela não tem o estoicis­mo pagão, estúpido e antinatural. Pois Jesus não
chorou na sepultura de Lázaro? Não choraram, na Paixão, Maria e Madalena e
as Santas Mulheres? A religião nos permite chorar do mesmo modo os
nos­sos mortos. Quer apenas que o façamos, não como os pagãos, desesperados e
desiludidos, mas como quem tem esperança na vida eterna e crê na imortalidade.
Choremos a separação dolorosa, mas com a doce es­perança de que, um dia, numa
pátria melhor, onde não haverá nem luto, nem dor ou sofrimento de qual­quer
espécie, nem separação, tornaremos a ver todos aqueles que amamos aqui na
terra. Como essa esperança consola! O cristão não deve dizer com desespero,
ante o cadáver gelado de um ente querido: — “Nunca mais te verei! Adeus
para sempre!”
. Não! Embora em pranto, suas palavras devem ser estas:
— “Até
ao céu! Lá nos tornaremos a ver c seremos para sempre felizes!”
.
O
dogma do purgatório, tão em harmonia com nosso coração, nos diz que podemos
ainda ajudar nos­sos mortos queridos para podermos dizer-lhes: até o
céu!
Exemplo
A
Bem-aventurada Ana Taigi e o purgatório
Deus
lhe revelou muitas vezes a sorte das almas do purgatório. Ela pedia
continuamente pelas pobres almas, num misterioso sol que sempre lhe aparecia,
foi uma grande mística do século XIX.
Em
30 de Maio de 1920, S.S. Bento XV decla­rava Bem-aventurada a
humilde e pobre mãe de fa­mília, que durante tanto tempo chamou a admiração de
Roma e do mundo com tantos prodígios sobrena­turais. A Beata Ana Taigi,
romana de nascimento, via todos os acontecimentos futuros e a sorte dos mortos.
Um
homem, conhecido de Ana, morreu, e ela o viu nas chamas do purgatório, salvo do
inferno pela Divina Misericórdia, porque socorreu um pobre que o importunava
muito pedindo esmola. Viu um conde cuja vida se passou em delícias e
divertimentos, mas que na hora da morte teve um grande arrependimen­to e se
salvou, mas deveria sofrer no purgatório tor­mentos incríveis tanto tempo
quanto passou neste mundo sem se preocupar com a penitência e com a salvação
eterna.
Viu
homens de grande virtude sofrendo porque se deixaram levar pela vaidade e amor
próprio, mui­to apegados aos elogios e à amizade dos grandes da terra.
Um
dia Nosso Senhor lhe disse: levanta-te e reza, meu Vigário na terra está na
hora de vir me prestar contas. Ana sufragou a alma do Papa e depois o viu como
um rubi ainda não de todo brilhante, pois lhe faltava se purificar mais.
Faleceu
em Roma o Cardeal Dória, que deixou grande fortuna, e naturalmente
celebraram-se por sua alma centenas de Missas. Foi revelado à Beata Ana
Taigi 
que as Missas celebradas por alma do Car­deal eram aproveitadas
para as almas dos pobrezinhos abandonados e que não tinham quem mandasse
celebrar por eles.
Via-se
assim a Divina Justiça que não olha a ri­queza nem as possibilidades dos ricos
em arranjar sufrágios, com descuido às vezes neste mundo da ver­dadeira
penitência.
Viu
Ana no purgatório um sacerdote muito esti­mado por suas virtudes e sobretudo
pelas brilhantes pregações que fazia e o tornavam admirados de todos. Sofria
muito este pobre padre. Foi revelado à Beata que expiava a falta de procurar
com muito empenho a fama de bom pregador e um pouco de vaidade ao pregar a
palavra de Deus, sobretudo nas complacências com os elogios.
Viu
dois religiosos muito santos no purgatório, em sofrimentos duros. Um deles
expiava o seu apego ao próprio juízo e pouca submissão ao modo de ver de
outros, e outro a dissipação, a falta de recolhi­mento e piedade no exercício
do ministério sacerdotal.
Enfim,
a Beata Ana trouxe com a sua bela e im­pressionante mensagem do sobrenatural no
século XIX, muitas luzes sobre o purgatório e impressio­nantes lições da Justiça
de Deus, e também não há dúvida, da Infinita Misericórdia que salva tantas al­mas
pelas chamas expiadoras do purgatório.