Qual deve ser o estado de espírito de um contra-revolucionário durante a Quaresma?

Qual deve ser o estado de espírito de um contra-revolucionário durante a Quaresma? — Armando Braio Ara

Um exemplo histórico pode exprimir de forma mais clara como devemos proceder.

Trata-se de um comentário sobre Santa Maria Egipcíaca.

O texto é extraído da “Legende Dorée” [Legenda Aurea]. Será cada pormenor inteiramente fidedigno? Cumpre notar: o mundo necessita da existência de coisas dessas, as quais realmente alimentam a alma, sem que tenhamos sempre e continuamente uma excessiva preocupação com minudentes indagações históricas ou pesquisas similares, cabendo-nos saber apreciar a beleza intrínseca que comportam tais relatos. Com um conhecido provérbio, os italianos costumam sintetizar essa aguda e sutil percepção dos horizontes mais altos da fé: “Si non è vero, è bene trovato” [“Se não é verdadeiro, foi bem achado, bem apanhado”]. É com esse fundo de quadro que devemos ler o que segue.

Santa Maria Egipcíaca, também chamada a Pecadora, durante 47 anos levou no deserto uma vida de arrependimento e privações. Sua história foi por ela mesma contada ao Abade Zózimo, que certo dia a encontrou.

Ao pedir o religioso que lhe dissesse quem era e de onde vinha, aquela estranha figura de mulher, negra e curtida pelo sol, respondeu:

“Pai, perdoai-me, mas se vos revelar quem sou, fugireis como à vista de uma serpente e vossos ouvidos serão manchados por minhas palavras e vós sereis empestado por minha impureza. Eu me chamo Maria e nasci no Egito. Vim para Alexandria com 12 anos de idade, e durante 17 anos aí levei má vida. Mas um dia, como alguns habitantes dessa cidade fariam uma peregrinação para adorar a Santa Cruz, em Jerusalém, pedi aos marinheiros que me deixassem embarcar também.

“E assim se fez a viagem. Mas eis que em Jerusalém, como eu me apresentasse com os outros peregrinos na porta da igreja, senti-me repelida por uma força invisível que não me permitiu entrar no templo. Vinte vezes aproximei-me das portas e vinte vezes essa força invisível me reteve, enquanto que todos os outros entravam livremente, sem que nada os impedisse. De tal sorte que, voltando ao albergue, compreendi que aquilo era uma consequência da minha vida criminosa. Então comecei a ferir-me, a verter lágrimas amargas, a suspirar do mais profundo do meu coração.

Depois, vendo na parede uma imagem da Bem-aventurada Virgem Maria, supliquei-Lhe que me obtivesse o perdão dos pecados e a permissão de entrar na igreja para adorar a Santa Cruz. Em troca, prometi renunciar ao mundo e viver na castidade.

“Essa oração me deu confiança e de novo me apresentei às portas da igreja; então pude entrar sem nenhum impedimento. E enquanto adorava piedosamente a Santa Cruz, um desconhecido deu-me três moedas, com as quais comprei três pães. E ouvi uma voz que dizia para atravessar o Jordão e vir para este deserto, onde vivo há 46 anos, sem jamais ter visto figura humana, alimentando-me dos três pães que trouxe comigo, os quais, tendo-se tornado duros como pedra, ainda são suficientes para minha alimentação. Quanto aos meus vestidos, há muito que se fizeram em pedaços, e durante os primeiros 17 anos de minha permanência no deserto fui atormentada por tentações. Mas no momento, pela graça de Deus, eu as venci inteiramente. Eis minha história. Eu a contei para que peçais a Deus por mim”.

Então, o ancião, prostrando-se em terra, bendisse ao Senhor na pessoa de sua serva. E esta lhe disse: “Ouvi o que vou pedir-vos: no dia da Páscoa, atravessai novamente o Jordão, trazendo convosco uma hóstia consagrada. Eu esperarei na margem e receberei de vossas mãos o Corpo do Senhor, porque não mais comunguei, desde que aqui cheguei”.

O ancião voltou ao seu mosteiro e no ano seguinte, estando próxima a festa da Páscoa, voltou ao Jordão levando consigo uma hóstia consagrada. Eis que percebeu a mulher, de pé, na outra margem e, tendo feito o sinal da Cruz sobre as águas, ela andou sobre as mesmas e assim chegou até o ancião. Este, maravilhado, quis se prostrar humildemente a seus pés, mas ela lhe disse: “Meu pai, guardai-vos de vos prosternar diante de mim, sobretudo agora que trazeis o Corpo de Cristo. Mas dignai-vos voltar ainda o ano que vem”.

No ano seguinte, Zózimo não a encontrou na margem. Ele atravessou o rio e se dirigiu ao local onde a vira pela primeira vez. E lá a encontrou morta, estendida sobre a areia. Então, ele chorou amargamente e não ousava tocar seus restos. E, enquanto pensava como enterrá-la, leu uma inscrição sobre a areia: “Zózimo, enterrai meu corpo, dê minhas cinzas à terra e pedi por mim ao Senhor, pois fui liberta do mundo no segundo dia de abril”. Assim, o ancião abriu-lhe uma cova, sendo para isso milagrosamente auxiliado por um leão, que aí apareceu. E o ancião voltou ao mosteiro glorificando a Deus.

Vemos aí a beleza da contrição, a respeito da qual nossa época faz uma ideia completamente falseada, julgando que a contrição nos vem exclusivamente do temor de Deus, o qual nos afasta do seu amor; de onde a contrição é, debaixo de certo ponto de vista, o contrário do amor de Deus.

Nada mais mal pensado do que isso. Em primeiro lugar, porque o autêntico temor de Deus é um dom do Espírito Santo. E o que procede do Espírito Santo não pode nos afastar do amor de Deus; pelo contrário, só nos une a Ele. Quem tem, portanto, verdadeiramente a graça de um saliente temor de Deus encontra nele um meio para subir ao amor. E notamos pela narração como, pelo arrependimento de seu pecado, Santa Maria Egipcíaca chegou até o auge do amor.

Além disso, precisamos considerar que a atrição é provocada pelo temor, o qual é, aliás, um sentimento salutar. Mas é o amor de Deus que provoca a contrição. E uma pessoa pode passar a vida inteira contrita pelo pecado que cometeu, até crescendo em contrição e, ao mesmo tempo, em amor e em sagrada intimidade com Deus, Nosso Senhor.

Por exemplo, São Pedro. Diz-se que até velho ainda chorava o pecado cometido ao negar Nosso Senhor, e que lágrimas percorriam sua face de maneira a abrir nela dois sulcos. Por quê? Com certeza, porque o olhar de Jesus permaneceu diante de seus olhos a vida inteira. E ele foi crescendo no amor a Nosso Senhor, na consideração daquele olhar, até extremos inimagináveis. Era a contrição que aumentava o amor, e o amor que aumentava a contrição e a intimidade com o Redentor.

Quer dizer, essas coisas se entrelaçam. E a vida de Santa Maria Egipcíaca não nos deve causar terror, mas enlevo pela figura patriarcal e primitiva dessa grande penitente. A Igreja é mais ou menos como um dia luminoso: o sol tem seu colorido da aurora e de todas as horas do dia. E todas essas cores são bonitas. A Esposa de Cristo possui um colorido para cada era de sua vida. E aqui é o colorido da Igreja primitiva: das grandes mortificações, das grandes penitências, dos grandes pecados, das grandes contrições, das inocências virginais, da austeridade requintada. É o velho som de um sino que nos vem do passado, lembrando-nos exatamente aquela velha gravidade, aquela seriedade da Igreja primitiva, tão capaz de empolgar as almas que verdadeiramente procuram amar a Nossa Senhora.

Assim, pensar em Santa Maria Egipcíaca é um refrigério para nós. E devemos pedir a ela que nos dê uma contrição verdadeira de nossos pecados, mas uma contrição na paz, sem escrúpulos; uma contrição verdadeiramente santa, que aproxime nossas almas de Nossa Senhora.

Qual a importância de se ler e analisar uma descrição desse gênero?

Tudo que admiramos penetra em nossas almas. Por isso, na medida em que nos enlevarmos por narrações dessa sublimidade, tanto mais nossas almas ficarão sedentas das culminâncias da Fé.

Grande paradoxo: Santa Maria Egipcíaca, quando buscava a felicidade no gozo ilícito, era infeliz; quando ela aceitou o convite de Deus para sair desse estado, recobrou a paz de alma, passou a suportar toda e qualquer dor e se tornou forte como o aço. Pergunta-se, então: qual o papel da dor na vida humana? Será sempre infeliz quem sofre e felizardo o que goza e passa a existência quase sem dor?

Na mesma linha, há os que erroneamente julgam assim: se eu renunciar a uma vida de fruição e deleites, perderei as ocasiões que me poderiam fazer feliz; ou seja, se eu coibir meus impulsos desordenados, ficarei privado de tudo que é “gostoso” e, portanto, deixarei de tirar proveito da existência. Verdade ou mentira?

A fórmula mais exata e perfeita para ser infeliz está precisamente contido nesta fórmula: “quero gozar e não aceito sofrer”. Eis o percurso fatal para a desgraça.

O espírito humano não pode furtar-se à indagação premente: por que se esvai continuamente a felicidade? Por que a dor jamais finda? Mortificar-se, penitenciar-se, será que isso diminui em nós o fluxo vital, ou será que nos prepara para tirarmos o melhor de nosso íntimo?

Repito: por que se esvai continuamente a felicidade? Por que a dor (entendida como manifestação de algo que nos contraria, desconforta e incomoda) jamais finda?

É para que nos aperfeiçoemos, para que nos cinzele [modele] o lento e delicado trabalho do buril [ferramenta de aço com ponta cortante em V, usado na gravação em metal ou madeira para abrir traços finos].

A uns são aplicados esses grandes golpes da dor. semelhantes às possantes marteladas com que Michelangelo tirou do bloco de mármore a estátua de Moisés. Outros só têm esse contato contínuo, minucioso, penetrante e delicado do torno, que dá a um diamante a sua beleza, o seu brilho e o seu fogo. Mas, tanto em um quanto nos outros, em todas as almas, a mesma operação inteligente da dor as auxilia na aspiração da beleza perfeita.

À dor cabe, portanto, uma pesada e incessante tarefa; não nos surpreendamos, pois, com a sua frequência. Ela se aplica com insistência nos pontos frágeis de cada um de nós. Digamos que eu seja fraco; cumpre que ela me torne forte; digamos que eu seja [falsamente] forte; cumpre que ela dobre a minha cerviz e submeta o meu orgulho. Eis, por exemplo, uma pessoa cujo coração é afetuoso; a dor vem feri-la, para proporcionar-lhe no sacrifício e no esquecimento de si um amor que não seja muito humano, porém, nobre, elevado, altivo e perseverante. Eis outra cujo caráter é firme e generoso, mas cuja personalidade se expande exageradamente; também aí a dor acode em seu auxílio. Cumpre que o sofrimento da alma venha vivificar essa sensibilidade que se extingue ou esse amor que se dissipa. Almas tão altivas, tão voltadas para si, que se deleitam na contemplação do próprio “eu”, também a dor lhes espreita; ela forçará a pessoa a amar, isto é, a dar, dar de si e dar tudo. Quanto aos espíritos dadivosos e prestativos, importa que também esperem o seu quinhão de dores. O sofrimento permitirá que a sua sensibilidade se torne generosidade e virtude.

Toda a existência começa pela felicidade e acaba pela tristeza.

Dizem os franceses: “”On entre, on crie, C’est la vie. On crie, on sort, C’est la mort”. [Dá-se um grito, é a nossa entrada na vida; dá-se outro grito, é a nossa retirada para a morte]. Por sua vez, de Talleyrand conhecemos outro dito similar: “On passe sa vie à dire adieu à ceux qui partent, jusqu’au jour où l’on dit adieu à ceux qui restent”. [Passa-se a vida dizendo adeus aos que partem, até chegar o momento em que se dirá adeux aos que ficam].

Que é a saúde, em última análise? La santé est un état précaire qui ne laisse présager rien de bon [A saúde é um estado precário que sempre acaba mal]. A frase de Jules Romains resume bem tudo.

A ventura se nos apresenta com a aurora da vida e com ela se dissipa; vem depois a tristeza que não mais acaba. Por quê? Parece que a realidade devia ser precisamente o contrário. No começo da vida, quando ainda nada fiz nem mereci, por que tenho eu todos os dons e todos os júbilos? No fim, depois de ter conhecido o trabalho, a oração, todas as vicissitudes possíveis, por que advêm todos os abandonos?

Podemos rezar: Ó meu Deus, dizei-me, a fim de que não me invada a tristeza nos meus derradeiros dias, e que o meu coração não se dilacere numa lúgubre velhice, sem consolação e sem esperança, porque seria sem luz.

Como vimos, somos destinados a nos criar, trabalhando, para a beleza da nossa alma. Ora, essa beleza nunca é terminada neste mundo. É preciso que ela sempre aumente. “Sede perfeitos como meu Pai celeste é perfeito”. Cumpre que caminhemos de luz em luz, de virtude em virtude; não nos devemos deter. Na felicidade, entretanto, o homem forçosamente interrompe a sua marcha; ele se deleita na ventura e nela quer permanecer.

Eis porque começamos pela felicidade; eis porque ela é passageira. Deus nos expele daí. “Egredere, egredere”. Caminhai, avançai, evitai o que vos detém; não descanseis [preguiçosamente]m em meio da viagem. Devemos sempre prosseguir; e isto de tal modo nos foi ordenado por Deus, diz Bossuet, que Ele não nos permitiu sequer que parássemos no infinito.

E por isso, quando queremos repousar na felicidade [passageira], Deus faz um aceno, e a chama da dor [contrariedades e dissabores de toda espécie] arde sob os nossos pés e nos obriga a partir.

Eis a história da humanidade e a de cada uma das almas.

Qual a relação de tais comentários especificamente com a Quaresma?

“Quaresma” provém do latim “quadragesima” — a subentender “dies”= dia quadragesimo — , época de quarenta dias, sem contar os domingos, consagrados à penitência, os quais, como preparação próxima, precedem a festa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde o fim do século IV era costume dos cristãos prepararem-se para o grande dia da Páscoa com jejum de 40 dias [NOTA: ALGO QUE HOJE SERIA TOTALMENTE IMPRATICÁVEL]. A partir de fins do século VI, o jejum inicia-se na quarta-feira, mas ainda não universalmente. Somente no século IX a praxe era geral no Rito romano (cf. “Diccionario Liturgico Para uso do Revmo. Clero e dos fieis”, Frei Basilio ROWER, O. F. M., 2a edição, Vozes, Petrópolis, Rio, 1936–1a edição, 1928, p. 204).

Foi Jesus Cristo quem nos ordenou fazer penitência, ao dizer-nos: “Se não fizerdes penitência, perecereis todos” (São Lucas, XIII,3).

Daí, a Santa Igreja, como mãe extremosa, que só busca amorosamente o nosso bem, ter determinado os dias de penitência, que Ela sabiamente regula, no decorrer da história, mais ou menos suavemente, conforme as forças espirituais de seu rebanho, o quanto se deve fazer, no mínimo, de penitência.

Hoje, o jejum e a abstinência de carne são obrigatórios apenas na Quarta Feira de Cinzas e na Sexta Feira Santa.

Entretanto, Nos dias atuais, fala-se exaustivamente de misericórdia. Entretanto, não se pode ter uma visão equivocada, considerando Deus de modo unilateral, pois Ele é infinitamente misericordioso, mas também infinitamente justo.

Em nosso Divino Criador, evidentemente, não há contradição. Ele deseja a salvação de todos e, para isso, nos oferece misericordiosamente o Céu por toda a eternidade. Porém, condena o pecador impenitente; aquele que, recusando toda a bondade divina, se aferra ao pecado mortal. Este, se não se arrepender, permanecendo obstinado no pecado grave, será atingido pela divina justiça.

Pecou gravemente e não deseja ser condenado? — Não se desespere, pois há remédio. Com o coração contrito e humilhado e sinceramente arrependido, faça uma boa confissão com o firme propósito de não mais pecar. Nesse perdão — a absolvição dos pecados concedida pelo sacerdote — vemos o que realmente é misericórdia. Patenteia-se a beleza da clemência de Deus para com seus filhos e o extremo desejo que Ele tem em salvá-los.

Por isso, não há razão para desespero, porque mesmo temendo a justa punição por nossos pecados, devemos confiar e esperar a misericórdia do Divino Redentor, reservada especialmente àqueles que O temem. “Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum” (A sua misericórdia se entende de geração em geração sobre aqueles que o temem), como está expresso na oração da Santíssima Virgem — o Magnificat — registrada por São Lucas (Cfr. Lc 1, 39–56). Aliás, Ela é o sublime canal que nos leva ao mar de misericórdia que é o Sagrado Coração de Jesus.

É nesse equilíbrio entre a confiança na misericórdia e o temor do castigo que a alma progride na virtude. São as duas “asas” de que a alma necessita para progredir, análogas às de um pássaro que precisa das suas para voar. Apenas confiar na misericórdia sem o temor de Deus seria abuso da divina misericórdia. Nesse sentido, prescreve o Livro do Eclesiástico “Não digas: A misericórdia do Senhor é grande, ele terá piedade da multidão dos meus pecados, pois piedade e cólera são nele igualmente rápidas, e o seu furor visa aos pecadores” (Ecl. 5, 6–7).


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