Astrologia à luz do Catolicismo: uma investigação sobre a incompatibilidade entre ambas as visões

Parte I: O Ensinamento dos santos doutores
Santo Tomás, logo no início de sua epístola sobre o tema, afirma que não procurará escrever senão sobre aquilo que ensinaram os santos doutores (ea quae a sacris doctoribus traduntur). Com efeito, a oposição às adivinhações astrológicas e outras supertições não é uma peculiaridade do Aquinate — ao contrário, é ela quase tão antiga quanto a própria Igreja. Façamos um breve retrospecto e ouçamos a voz da Igreja.
Talvez a primeira coisa que se deva dizer acerca da consulta aos astros é que ela está formalmente condenada desde os primeiros séculos da Igreja, como se vê no Denziger:
Dz 35 Se alguém pensa que se deve crer na astrologia, seja anátema. Concílio de Toledo, ano 400.
E, novamente, pelo Papa João III, no século VI:
Dz 239 Se alguém crê que as almas humanas estão ligadas a um signo fatal, como disseram os pagãos e Prisciano, seja anátema.
Estas definições, suficientes para todo católico que não tem nem quer ter espírito de revolta, foi ainda repetida por inúmeros Santos, Doutores e Teólogos. Mesmos em tempos mais recentes, não deixou o Magistério de condená-la, como se vê em trechos do Catecismo de S. Pio X.
As condenações à astrologia são antiquissimas. Se tentássemos fazer uma história destas condenações, começaríamos com as próprias Sagradas Escrituras: Dt. 4:19, 17:3, 2 Rs. 17:16, 21:3 Jr. 8:2.
Passaríamos, em seguida, ao Catecismo dos Apóstolos, chamado Didaqué:
“… Também não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre essas coisas, pois de todas essas coisas provém a idolatria.” Didaqué, ed. Paulus, 1989, pp. 12–13
Mais um passo, e encontraríamos as objeções dos Padres da Igreja. Citemos alguns autores:
— Tertuliano: “Observamos entre as artes algumas acusáveis de idolatria. Dos astrólogos, nem deveríamos falar; mas como nesses dias um deles nos desafiou, defendendo em proveito próprio a perseverança nesta profissão, direi algumas palavras. Alego não que ele honre ídolos, cujo nome escreveu nos céus, para quem atribui todo o poder de Deus… Proponho o que segue: aqueles anjos, os desertores de Deus demônios… eram muito provavelmente os descobridores dessa curiosa arte a astrologia por isso mesmo condenada também por Deus” (Idolatria 9 211 D.C ).
— Hipólito: “Quão impotente é o sistema astrológico para comparar as formas de disposições dos homens com os nomes das estrelas!” (Refutação de Todas Heresias 4:37 228 D.C.).
— Taciano o Sírio: “Sob a influência de demônios os homens formam o material de sua apostasia. Tendo a eles mostrando o plano da posição das estrelas, como jogadores de dados, introduzem o Destino, uma injustiça patente. O julgamento e o julgado são feitos pelo Destino, os assassinos e os assassinados, os afluentes e os necessitados — todos são o produto do mesmo Destino” (Discurso Aos Gregos 8 D.C. 170)
Escutemos agora os Doutores da Igreja:
— Sto. Atanásio: “Donde ser verdade que os autores de tais livros os astrólogos acarretaram a si próprios uma dupla reprovação, pois aprofundaram-se em uma desprezível e mentirosa ciência”. (Carta de Páscoa 39:1 D.C. 367)
— Sto. Basílio Magno: “Aqueles que ultrapassam os limites, fazendo das palavras da Escritura sua apologética para a arte de calcular temas de genitura horóscopos, pretendem que nossa vida dependa da moção dos corpos celestes, e assim os Caldeus leem nos planetas o que nos ocorrerá”. (Os 6 dias da Criação 6:5 D.C. 370)
— Sto. João Crisóstomo: “(…) E de fato uma treva profunda oprime o mundo. É ela que devemos fazer dissipar e dissolver. E tal treva não se encontra somente entre os heréticos e os gregos, mas também na multidão do nosso lado, no que diz respeito às doutrinas da vida. Pois muitos os Católicos descrêem inteiramente na ressurreição; muitas fortificam-se com o horóscopo; muitos aderem a práticas supersticiosas, augúrios e presságios”. (Homilias sobre Coríntios I, 4:11 D.C. 392)”.
— Sto. Agostinho: “O bom cristão deve precaver-se de astrólogos e outros adivinhadores ímpios” (cit. na Suma Teológica de Sto. Tomás, IIa IIae., q.95, art.5).
Para não nos alongarmos demasiadamente em citações, mencione-se apenas que também condenaram a astrologia Sto. Isidoro de Sevilha, na sua obra Etimologias, Sto. Boaventura, no Hexaemeron (onde qualifica a astrologia de “abuso da razão”), Sto. Afonso Maria de Ligório, doutor em teologia moral, para quem praticar astrologia é incorrer em pecado mortal (Comentário aos Dez Mandamentos).
