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Livrarias não vendem cultura


Tempos atrás liguei para um livreiro oferecendo um
livro independente que havia acabado de produzir. Ele disse: claro, com prazer!
Trabalhamos com 
50%. 

E, para quem gosta de livros, bacanas
são as pequenas livrarias e, em especial, os sebos, aqueles onde o dono te
atende e fala dos livros que vende, porque os leu, conhece autores, conhece o
vendedor da editora, sabe de edições anteriores, vai direto com a mão no
exemplar que você pediu porque 
sabe onde está.


*** * ***


Causou [SIC!] espanto a muita gente as recentes demissões na livraria
cultura e fico me perguntando o porquê disso.

Livrarias vendem livros como farmácias vendem analgésicos e [preservativos],
[assim] como padarias vendem pães e cigarros.

Livrarias tratam os livros como produtos e não estão erradas nisso [SIC! SIC! SIC!]. Estão erradas em
tentar 
convencer seus clientes
que estão só preocupadas com o saber ou com a informação.

Nas vitrines, os mais vendidos, os mais bem relacionados na lista da VEJA, ou ainda os de futebol, na época
de copa; os fofinhos para o dia das mães, meiguinhos para o dia dos namorados.
e muito de auto-ajuda, claro!

O livro é um 
produto e como tal é
tratado.

Tempos atrás liguei para um livreiro oferecendo um livro independente
que havia acabado de produzir. Ele disse: claro, com prazer! 
Trabalhamos
com 
50%.

Seco assim, sem beijinho, abraço, ou ver do que se tratava.
[Valor de] 50% é o [com] quanto ele fica do preço de capa.

Se eu ou a editora pagamos pela produção, pela impressão, pela entrega na loja,
[nada disso] importa. O fato de ele colocar meu livro em algum lugar perdido,
em suas prateleiras, já vale os 50tinhas.

Se você quiser seu livro na vitrine, num totem, num destaque qualquer o que
acontece?

Claro, você
paga.

E livraria não compra: recebe tudo em consignação, vende e acerta depois. N
egocião!


Livrarias, as grandes livrarias, foram
para os shoppings, servem café e pãozinho de queijo; têm espaços para pequenas
palestras, lançamentos e para crianças folhearem livros espreguiçados, em
almofadas coloridas, nos 
sábados de manhã, quando pais não sabem o que fazer
com elas.

Espaços assim, [como] o macdonalds, também têm mais livrarias… Atraem
pessoas que acreditam ainda no poder das palavras escritas umas atrás das
outras. acreditam que livros podem fazer a diferença e têm uma fé cega neles
como os hipocondríacos que visitam farmácias numa crença quase religiosa. [SIC! SIC! SIC!]

Posso estar sendo um pouco injusto. Eu
mesmo adoro livrarias e frequento esses
carrefours dos livros
onde você encontra de tudo; às vezes, compro. Às vezes, anoto os nomes,
editoras e encomendo pela 
amazon pela metade
do preço. Tem que esperar um pouco, mas nem tudo é como a gente quer…

E pra quem gosta de livros, bacanas são
as pequenas livrarias e, em especial, os sebos, aqueles onde o dono te atende e
fala dos livros que vende porque os leu, conhece autores, conhece o vendedor da
editora, sabe de edições anteriores, vai direto com a mão no exemplar que você pediu,
porque 
sabe onde está.

Continua sendo livro, [continua] sendo produto [SIC! SIC! SIC!], continua sendo negócio, mas é como bolo de [a]vó,
cheio de um carinho que você merece.