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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 9 de Novembro: Os esquecidos (Parte X)


Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre



9
de Novembro
OS
ESQUECIDOS
Como
são esquecidos os mortos!
Santo
Agostinho
 se queixava de que os
mortos são muito esquecidos. Realmente. Vai-se logo a me­mória dos defuntos com
os últimos dobres do sino e as derradeiras flores lançadas sobre a sepultura.
Quando morremos, partimos para aquela região que a Escritura chama
 terra oblivionis — a terra do es­quecimento. Não tenhamos muita
vaidade nem ilu­sões. Seremos esquecidos!

Quem
se lembrará de nós alguns anos após a nos­sa morte? Talvez uma lembrança vaga,
uma evocação de saudade muito apagada. E como somos orgulho­sos hoje! Tanto nos
fere a mágoa um esquecimento mesmo involuntário! Felizes os que se desiludem e
se desapegam das amizades e vanglorias da terra an­tes que chegue a Mestra e
Doutora da Vida — a Morte!
Como
se compadecem todos dos enfermos! Que carinho e solicitude e mil sacrifícios em
torno do lei­to de um pobre doente que geme! Porém, veio a mor­te. Pranto,
homenagens sentidas, flores, túmulos, necrológios, e… esquecimento. Hoje
afastam a idéia da morte como se fôssemos todos imortais. É mis­ter esquecer os
defuntos, deixá-los no túmulo, evitar esta preocupação
 doentia da morte e da
eternidade.
Morreu,
acabou-se! Vamos rir, vamos dançar e cantar. Deixemos que a vida corra alegre e
feliz. Não pensemos mais na morte e muito menos em mor­tos. Não é assim que
fala e age o mundo louco e ma­terialista de hoje?
Ai!
Como são esquecidos os mortos! O materia­lismo estúpido não compreende nem a
beleza, nem a consolação, e o culto da memória dos mortos como o tem a Igreja católica.
Para nós, eles não morreram, mudou-se-lhes a condição da vida:
 Vita mutatur, non
tollitur!
Na
sepultura não se acaba para sempre o ho­mem. Cremos no que dizemos cada dia no
Credo: —
 Eu creio na ressurreição da carne e
creio na vida eterna.
A
piedade para com os mortos é um ato de fé na vida eterna, urna doce certeza de
que nossos mortos queridos não estão perdidos para sempre ao nosso amor.
Havemos de os encontrar um dia no seio de Deus! Como é doce, consolador e belo
crer na imor­talidade e esperar a vida eterna!
Pois
se cremos na vida eterna, cremos no purga­tório. E se cremos no purgatório,
oremos pelos nossos mortos.
Requiem
aeternam dona eis Domine! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!
Não
sabemos então que é nosso próprio interesse orar pelos mortos?
Um
dia também iremos para a eternidade e nas chamas do purgatório acharemos tudo
quanto tiver­mos feito na terra pelos mortos. Vamos, pois, neste mês dos
defuntos: Missas, Rosários, esmolas, peni­tencia, orações fervorosas pelos
nossos mortos queridos!
Como
são esquecidos os mortos! Exclamava
 San­to Agostinho! E, no entanto,
acrescenta
 São Francis­co de Sales, em vida eles nos
amavam tanto e (quem sabe?) estão no purgatório por nossa causa…
Nos
funerais, lágrimas, soluços e flores. Depois, um túmulo e o esquecimento…
 Como são esquecidos
os mortos!
Tende
compaixão de mim!
Tende
compaixão de mim!
Miseremini
mei! Miseremini mei!
Tal
é o gemido do purgatório, o gemido das po­bres almas esquecidas.
A
Igreja, Mãe carinhosa, nunca se esquece dos seus filhos, mesmo depois que
partiram para as re­giões da morte e da eternidade. Todos os dias, no altar,
ela suplica: —
 Memento!
Lembrai-vos,
Senhor, dos vossos servos e servas que nos precederam com o sinal da fé e agora
descan­sam em paz. A estes e a todos os mais que repousam em Cristo, nós vos
pedimos, Senhor, concedei lugar de refrigério, luz e paz.
Que
tocante lembrança da Santa Igreja, nossa Mãe! E em todas as Missas que se
celebram em todo universo!

Porque
são esquecidas
Sufraguemos
nossos mortos. Não os deixemos esquecidos sob qualquer pretexto comodista e de
gen­te sem fé.
O
purgatório é terrível e para algumas almas é bem longo. Devemos ter compaixão e
carinho por nossos entes queridos que a morte arrebatou.

Ao
céu chegam as almas só depois de longas e dolorosas purificações. Não digamos
de cada um que morre: — Está no céu!

Temos
o costume de logo canonizar nossos mor­tos, dizendo:
 — Estão no céu! E nem mais rezamos
por eles, deixando-os esquecidos no purgatório. É uma ingratidão bem comum. No
céu entram as po­bres almas só depois de longas e dolorosas purificações. E
quem sai desta vida tão santo e perfeito que não mereça o purgatório? Nunca
deixemos de orar e muito e por longo tempo pelas almas de nossos mor­tos
queridos.

pobres almas destinadas a um longo sofri­mento nas chamas expiadoras. Só Deus
sabe o que elas padecem, enquanto seus parentes nem rezam, nem mandam oferecer
por elas a santa Missa, e re­petem tranquilos:
 — Está no céu!
Disto
teve receio
 Frederico Ozanam, o piedoso apóstolo
das Conferências Vicentinas. Lemos no seu testamento:
 — “Não vos deixeis
levar por aqueles que disserem: ‘Ele está no céu!’. Rezai sempre por aquele que
muito vos ama, mas que também pecou muito. Ajudado pelas vossas orações,
deixarei a ter­ra com menos receio”.
Não
nos iludamos com o purgatório. Seus sofri­mentos são muito grandes e é mister
uma grande compaixão, uma grande misericórdia para com os mortos. Ai! Esquecer
os mortos sem sufrágios é do­loroso, é de consequências tristes! Oremos pelas
ben­ditas almas.
Vamos
em socorro dos nossos pobres irmãos da Igreja padecente.
Vamos,
levantai-vos, dizia
 São Bernardo, voai em socorro das
almas dos defuntos, implorai a clemência divina pelas vossas lágrimas e
gemidos, intercedei por eles com as vossas preces, satisfazei por elas com o
santo sacrifício da Missa, resgatai-as por vossas esmolas aos pobres, por
vossas boas obras, abri-lhes as portas do paraíso.
Combatamos
estas duas causas do esquecimento dos mortos: —
 a presunção que diz: — Estão no
céu, e comodamente não nos interessamos em sufragá-los mais, e, falta de uma fé
bem viva no que seja o tor­mento do purgatório.
Deveres
sagrados e esquecidos
Sim,
bem sagrados e graves são nossos deveres para com os mortos. Temos obrigação de
justiça e de caridade em sufragar os defuntos. Não bastam lágrimas, flores,
coroas, homenagens póstumas. Tu­do isto é mais consolo para os vivos que alívio
para os mortos, dizia Santo Agostinho.
Devemos,
pois socorrer os defuntos:

— Em razão do parentesco e do sangue.

— Por
 gratidão, aos benfeitores nossos.

— Por
 justiça.

— Por
 caridade.
Próximos
mais
 próximos de nós, dizia São Francisco de Sales,
naturalmente são nossos pais. Não nos esqueçamos da alma de um pai querido, de
uma saudosa mãe. Foram tão carinhosos e se sacrifica­ram por nós! Não estarão
talvez no purgatório? Nos­so amor filial os
 canonizou logo depois da morte
e os colocou no céu! Ah! E talvez gemam e sofram no pur­gatório. Estão salvos,
é verdade, no seio de Deus, entre as santas almas, porém… são terríveis os so­frimentos
do purgatório.
Santa
Monica teve o cuidado de recomendar a Santo Agostinho:
 — Meu filho, não me
esqueças no santo altar!
A
Igreja tem uma oração especial nas missas de defuntos pelo pai e mãe do
sacerdote e que cada fiel pode repetir:
“Ó
Deus, que nos ordenastes que honrássemos o nosso pai e nossa mãe, tende
piedade, pela vossa cle­mência, das almas de meu pai e de minha mãe, e
perdoai-lhes os seus pecados. Permiti também que eu possa um dia tornar a
encontrá-los”.
Que
tocante oração!
Depois
a
 gratidão.

de ser penoso e horrendo o
 esquecimento dos nossos nas chamas
do purgatório!
Não
sejamos ingratos. Oremos por todos quan­tos nos fizeram algum benefício na
terra. A grati­dão não pode morrer à beira da sepultura de nosso benfeitor. Vai
além, corre em auxílio das almas do purgatório!
E,
finalmente, deveres de
 justiça e de caridade. De justiça porque
somos obrigados a orar por aque­les aos quais estamos ligados por laços de
parentes­co e de gratidão. E… caridade.
 “Não há, diz São Francisco de Sales, maior ato de caridade que orar pelos
mortos. É um resumo de todas as obras de ca­ridade”.
Lembremo-nos
das pobres almas sofredoras do purgatório. Não temos criaturas que tanto amamos
na terra e que hoje nos ferem o coração por uma sau­dade amarga?
Ah!
Não bastam as lágrimas e as flores da se­pultura. Isto é mais consolo para os
vivos. O que aproveita aos mortos é o sufrágio. Santifiquemos nossa saudade
pela caridade. Lembremo-nos que tal­vez gemam no purgatório os que tanto
amamos! Por eles mandemos celebrar o santo sacrifício da Missa, façamos algum
ato de caridade aos pobres, uma Co­munhão, um Rosário de Maria!
Exemplo
O
Santo Cura d’Ars e o purgatório
O
Santo Cura d’Ars,
 São João Batista Vianney, era um devoto
fervoroso das santas almas do purgatório… Pedira a Deus a graça de sofrer
muito. Os sofrimentos do dia, oferecia-os pela conversão dos pe­cadores, e os
da noite, pelas almas do purgatório.
E
como sofreu! Que noites terríveis de agonias e aflições e tentações espantosas
do diabo não passa­ra o Santo durante os longos anos da paróquia de Ars!
A
um padre que lhe perguntara a opinião sobre o poder das almas do purgatório em
nosso favor, res­pondeu:

“Si soubéssemos como é grande o poder das boas almas do purgatório sobre o
Coração de Jesus e si soubéssemos também quantas graças poderíamos ob­ter por
intercessão delas, é certo, não seriam tão es­quecidas”.
Nos
seus catecismos célebres o Santo narrava tocantes e belos exemplos sobre a
eficácia e o poder da devoção às santas almas do purgatório. Nosso Se­nhor lhe
concedeu extraordinárias graças para conhe­cer muitas vezes os mistérios do
purgatório.
No
processo da Canonização atestaram os que o conheceram:

A devoção às almas do purgatório foi uma das suas mais fervorosas. Se havia
duas Missas a ce­lebrar, uma pelos doentes, outra pelas almas, prefe­ria a das
almas.
Muitas
vezes lhe pediam orações por uma ou ou­tra alma e o santo respondia:

Sim, rezarei por ela. Está no purgatório por um tempo indeterminado…
Ou
então: —
 Ela já foi para o céu! Não tem ne­cessidade
mais de sufrágio.
Diz
o ilustrado
 Mons. Trochu, autor de “Les in­tuitions
du Curé d’Ars
, que “o purgatório é um lugar onde o Cura d’Ars sabia o
que se passava. Conhecia ele a sorte dos defuntos, teve intuições muito grandes
do que se passa além-túmulo”.
Uma
senhora foi se confessar ao Santo, em Ars. Depois da confissão, disse-lhe ele:
 — “Minha filha,
agradeça à prima que a trouxe ao confessionário, por­que sem isto a senhora
estaria no inferno”.
 E depois de lhe indicar as causas do
perigo da condenação, lhe disse muito grave:
 e depois, minha
filha, que ingra­tidão! Há dez anos que seu pobre pai está sofrendo no
purgatório e não mandaram dizer uma só Missa para o libertar!”.
Uma
senhora piedosa tinha um esposo indife­rente em religião, mas não obstante
homem bom e honesto. Um dia, vítima de um colapso cardíaco, veio a falecer se
nenhum sinal de arrependimento. A po­bre esposa, desolada, não tinha consolo.
Julgava per­dida a alma do esposo. Assim ficou num horrível martírio e sem
consolo durante meses. Foi até Ars. O Santo, ao vê-la, foi logo dizendo:
 — “Minha se­nhora, já
se esqueceu dos ramalhetes de flores que ofereciam à Santíssima Virgem?” A
pobre senhora lembrou-se de que realmente ela o e esposo durante muito tempo
sempre ofereciam a uma imagem da Vir­gem uns ramalhetes de flores.

Minha filha, Deus teve piedade daquele que honrava tanto a sua Mãe. No momento
da morte seu marido teve um grande arrependimento. Sua alma está no purgatório.
Com orações e boas obras poderá libertá-lo.
Foi
um alívio para o coração da pobre viúva, que melhorou de saúde e adquiriu a paz
da alma.