,

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 8 de Novembro: As alegrias e consolações do purgatório (Parte IX)



Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre







8
de Novembro
AS
ALEGRIAS E CONSOLAÇÕES DO PURGATÓRIO
Tormento
e felicidade
Então
há no purgatório alegrias e consolações? É possível que em meio de tanta dor,
de tão horríveis suplícios como os da pena do dano e do fogo, haja ainda um
raio de luz, uma alegria, uma consolação para as pobres almas?
Sim,
porque o purgatório é a pátria da justiça rigorosa, mas o é também da infinita
misericórdia de Deus. Já não é uma grande misericórdia Deus nos reservar um
lugar de expiação além-túmulo? Purifi­car-nos misericordiosamente para nos
tornarmos dig­nos de sua eterna Presença? Ó, sim, o purgatório é uma
misericórdia de Nosso Senhor. E como todas as obras da divina misericórdia, há
de ter a unção e a doçura da Eterna Bondade. Quanto nos apavora a Justiça
divina naquelas chamas expiadoras e que terror para nossa alma saber o que nos
espera depois desta vida! Todavia, console-nos a idéia de que há no purgatório
consolações que excedem a todas que pos­samos ter nesta vida. É um tormento e
uma felici­dade sem par. Um mistério que nos será desvenda­do mais tarde.
Alguns autores insistem muito no sofrimento do purgatório e nada falam das
alegrias e consolações. É mister guardar um justo equilíbrio.
Nem
transformar o purgatório num verdadeiro in­ferno, nem fazer dele o paraíso. É
um lugar de expia­ção e de tormentos horríveis, não há dúvida, mas há nele a
doce esperança da salvação, esperança acom­panhada da certeza absoluta de um
dia chegar à pos­se de Deus na Bem-aventurança. E isto não é uma felicidade sem
par? Quando São Francisco de Assis soube que era um
predestinado e viu garantida por revelação do céu a sua glória, teve uma
alegria tão grande, que nenhuma linguagem humana o poderia traduzir. Que não
será a alegria das pobres almas na certeza de serem predestinadas?
São
Francisco de Sales
,
cuja doutrina é um bál­samo suavizante das almas, fala das alegrias e con­solações
do purgatório. Escreve o melífluo Doutor: “A maioria dos que temem o purgatório
é muito mais por interesse e amor de si mesmos do que pelo inte­resse de Deus.
E daí vem que falam ordinariamente só das penas daquele lugar e nunca falam da
felici­dade e da paz que desfrutam as almas que lá estão. É verdade que os
tormentos são extremos, e as maio­res e mais terríveis dores desta vida não se
podem comparar a eles, mas também as satisfações interio­res são tais e tantas,
que nenhuma prosperidade nem alegria da terra existe que a elas se possam
igualar. Si é uma espécie de inferno quanto à dor, é um pa­raíso quanto à
doçura que a caridade difunde no co­ração. Caridade mais forte do que a morte e
mais poderosa do que o inferno. Feliz estado mais dese­jável que temível, pois
suas chamas são chamas de amor e de caridade. Terríveis penas, sim, pois elas
retardam a hora da visão de Deus, e de amar a Deus e louvá-lo e glorificá-lo
por toda eternidade”[1].
Eis
aí o tormento e a alegria das almas do pur­gatório.
São
Francisco de Sales e o purgatório
Continuemos
a doutrina consoladora do grande Doutor da Igreja sobre as alegrias do
purgatório. Não quer ele que se insista apenas no tormento da­quele lugar de
expiação, mas que se procure dar às almas uma idéia também consoladora do
purgatório.
Do
que lemos nas obras do Santo podemos coligir dez pontos principais:
“1.°
— As almas do purgatório estão numa con­tínua união com Deus e perfeitamente
submissas à vontade de Deus. Não podem deixar esta união divi­na e nunca podem
contradizer a divina vontade, como nós neste mundo.
2.°
— Elas se purificam com muito amor e com toda boa vontade, porque sabem que é
isto da vonta­de de Deus. Sofrer para fazer a vontade de Deus é uma alegria
para elas.


— Elas querem ficar na maneira que Deus quer e quanto tempo Ele quiser.

— São impecáveis e não podem experimentar nem o mais leve movimento de
impaciência nem co­meter uma imperfeição sequer.

— Amam a Deus mais do que a si próprias, e mais do que todas as coisas, e com
um amor muito puro e desinteressado.

— São consoladas pelos Anjos.

— Estão seguras da sua salvação e com uma segurança que não pode ser
confundida.

— As amarguras que experimentam são mui­to grandes, mas numa paz profunda e
perfeita.

— Si pelo que padecem estão como numa espécie de inferno, quando a dor, é um
paraíso de doçura quanto a caridade mais forte do que a morte.
10°
— Feliz estado, mais desejável que temí­vel, pois estas chamas do purgatório
são chamas do Amor!”.
Quem
pode entender e penetrar este mistério de dor e de alegria, que é o purgatório?
Os Santos nos poderiam dar uma idéia do que sofrem e do que go­zam as almas do
purgatório, quando Deus os faz ex­perimentar aqui neste mundo tanto martírio
nas pro­vações daquelas noites de que nos fala São João da Cruz,
nas quais o Senhor prova, aniquila os seus elei­tos na terra, e ao mesmo tempo
os enche de uma paz inalterável e de consolações inefáveis em meio de tre­vas e
de angústias. Mistério profundo, só os que experimentaram este doloroso e feliz
estado de alma neste mundo podem dizer algo do que se passa no purgatório! Que
alegria não experimenta o pobre náu­frago quando depois de se debater entre as
ondas se vê de repente salvo e livre de todo perigo! É a felicidade, a alegria
das santas almas quando, após esta vida e depois de haverem passado o tremendo
Juízo, vêem que estão salvas da condenação eterna, embo­ra tenham de padecer muito
naquelas chamas, naque­le martírio, por mais prolongado que seja. Estão sal­vas!
Ó! Como cantam elas um hino de ação de graças à infinita misericórdia!
As
consolações do purgatório
Recorramos
ainda ao testemunho da teóloga do purgatório, como foi chamada Santa
Catarina de Ge­nova
. A doutrina desta Santa, ou melhor, as suas re­velações
no Tratado do purgatório, escreveu o Car­deal Perraud,
são de uma psicologia sobrenatural tão alta o tão forte, que unem as mais altas
considerações
 da
filosofia e da teologia, aos pensamentos mais próprios para fortificar e
consolar os que choram os seus entes queridos. Eu não creio, escreve a Santa,
que depois da soberana felicidade que gozam na gló­ria os Santos, haja uma
felicidade igual à que go­zam as almas do purgatório. O que é notável é que
esta felicidade vai crescendo cada vez mais à medida que desaparecem as manchas
do pecado. E faz esta comparação: “Quando um corpo está escondido ao sol porque
um outro corpo intercepta a luz solar, não pode receber a luz e permanece nas
trevas. Todavia, si este corpo que impede a passagem dos raios sola­res for se
consumindo e desaparecendo, o sol logo há de banhar de luz todo o corpo que
estava antes nas trevas. Este corpo que impede a luz do sol é a man­cha do
pecado, o resto que fica a pagar à divina Jus­tiça na outra vida e que impede a
alma de receber a luz da glória, a Luz divina. As chamas do purga­tório vão
destruindo este corpo que impede a luz até que desapareça e brilhe a Luz
eterna. Assim a ale­gria das almas vai crescendo à medida que as man­chas que
ficaram vão desaparecendo. E elas se sen­tem muito felizes em sofrer para se
purificarem. Es­tas almas tem uma perfeita resignação à vontade de Deus. As
almas do purgatório jamais haviam de que­rer a presença de Deus, quando ainda
não purifica­das. Elas prefereriam sofrer dez purgatórios a se apresentarem
manchadas diante do Senhor. Eis por­que se purificam e sofrem com alegria
[2].
Padre
Faber
 diz com razão: “Se o sofrimento suportado com doçura e
resignação é um espetáculo tão venerável na terra, que não há de ser naquela
região da Igreja o purgatório? Ó, que pureza se encontra neste culto, na
Liturgia do sofrimento santi­ficado! Ó mundo! lugar de tanto barulho, de tédio
e de pecado, quem não desejaria escapar de tuas peri­gosas fatigas e de tua
perigosa e triste peregrinação para voar alegremente para a mais humilde
região, tão pura, tão santa e tão garantida, onde reinam o so­frimento e o amor
sem mancha, o purgatório?”[3].
Apesar
disto, não deixemos de temer o purga­tório e procuremos evitá-lo por uma boa
penitência e por toda espécie de boas obras. Os sofrimentos não deixam de ser
terríveis!
Beato
Henrique Suzo
, abrasado no amor de Deus, começou a não temer o purgatório e
a não dar importância aos seus sofrimentos e penas. Nosso Se­nhor lhe apareceu
e admoestou, dizendo que isto lhe desagradava porque era não temer nem dar
impor­tância aos juízos de Deus! Devemos não nos deses­perar nem aterrorizarmos
nossa alma com o purgató­rio, mas havemos de imaginar que si há muitas con­solações,
é terrível também este purgatório.
Exemplo
Santa
Gertrudes e as santas almas
Santa
Gertrudes
 foi
favorecida por Nosso Se­nhor com inúmeras aparições e êxtases, e tocava de
perto o sobrenatural. Tinha a Santa uma grande es­tima por uma religiosa muito
santa e que edificava pelas suas virtudes.
Morreu
esta e a Santa a recomendava a Nosso Senhor com muito empenho. Fora arrebatada
em êxtase e vira diante do trono de Deus a alma da Irmã querida vestida de
trajes reais, belamente adornada, mas tinha os olhos baixos, como que
envergonhada. Gertrudes ficou admirada e lhe disse:

Como? Minha filha, não se lança nos braços do divino Esposo? Por que fica
assim?

Ó, minha mãe, eu não sou digna ainda do abraço do Cordeiro sem mancha. É
preciso muita pu­reza, ser pura como um raio de sol para se unir a Deus. Tenho
ainda manchas terrestres de algumas imperfeições.
Santa
Gertrudes teve outra visão semelhante. Uma Irmã muito virtuosa lhe apareceu
depois de morta. Estava de joelhos diante de Deus como imer­sa numa grande
tristeza. Gertrudes pediu a Nosso Senhor que usasse misericórdia para com ela.
Respondeu Nosso Senhor que si não viessem sufrágios ela teria de pagar toda a
dívida à Justiça divina.
Esta
alma disse a Gertrudes: “A devoção que tive ao Santíssimo Sacramento me
fez colher frutos especiais da divina Hóstia. Eis porque eu entrarei mais
depressa e logo no céu”.
Santa
Teresa
 conta
na sua Vida ou autobiogra­fia, ter visto saírem do purgatório
almas muito vir­tuosas que ela conheceu neste mundo e que julgava estarem no
céu e no entanto haviam sofrido nas cha­mas expiadoras. No capítulo XXXVIII a
Santa nar­ra vários casos, entre eles o do Provincial dos Car­melitas, homem
muito virtuoso. Na ocasião da sua morte, disse a Santa, fiquei muito perturbada
e temi pela sua salvação, porque foi prelado vinte anos, o que sempre me
inspirava temor por me parecer mui­to perigoso ter encargo de almas. Com grande
afli­ção entrei no oratório. Dei-lhe todo bem que tinha feito em minha vida,
que bem pouco seria, e disse ao Senhor que suprisse com seus méritos o que
faltava àquela alma para sair do purgatório. Estando a pedir a Nosso Senhor do
melhor modo que podia, pareceu-me vê-lo sair das profundezas da terra a meu
lado direito, e o vi subir ao céu com grande alegria. Pos­to que fosse velho,
apareceu-me como tendo apenas trinta anos e até menos, e o rosto
resplandecente. Foi rápida esta visão, mas me deixou extremamente consolada.



[1] Esprit de Saint François de Salles — I, cap. LXXIV.
[2] Trat. Purgat. — Cap. II.
[3] Faber — Purgatório, §3.