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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 7 de Novembro: Duração do purgatório (Parte VIII)



Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre



7
de Novembro
DURAÇÃO
DO PURGATÓRIO
Quanto
tempo?
Quanto
tempo deve ficar uma alma no purgató­rio? É uma pergunta impossível de
responder. Não temos e não podemos ter nenhum argumento ou de­finição da Igreja
e da teologia que nos possa garan­tir uma resposta certa a esta pergunta.
É
um mistério e depende muito do modo de en­caramos a questão. Bem sabemos que na
eternidade não há mais tempo. Tempus jam non erit amplius.
Como julgar o tempo em relação ã eternidade? E demais, o sofrimento faz maior e
mais difícil de passar o tempo entre nós. Quantas vezes um minuto nos custa
mais a passar que longas horas? Pois o sofri­mento horrível e intenso das
pobres almas faz com que os minutos lhes sejam anos e até séculos. Aqui,
havemos de fazer como todos os autores que tratam do purgatório: recorrer às
revelações particulares. Elas nos esclarecem, e algumas bem provadas e até
sujeitas a processos canônicos rigorosos, como as dos Santos canonizados, nos
dão uma garantia de que não se tratavam de ilusões ou fantasias mórbidas. Quanto
à duração do purgatório, de uma coisa pode­mos ter certeza, diz-nos Santo
Agostinho
: é que as
 penas
expiatórias não irão além do último Juízo no fim do mundo
[1].
No
século XVI, um sábio teólogo dominicano, Domingos Soto, afirmou
erradamente que a pena do purgatório não poderia durar mais de dez anos. É uma
opinião sem fundamento e geralmente rejeitada. A Igreja supõe muitas vezes que
as penas do purga­tório sejam longas, quando permite fundações de Mis­sas e
sufrágios por longos anos, e celebram aniversá­rios de vinte, trinta, cinquenta
e mais anos. Permite fundações perpétuas de Missas. Ninguém sabe, diz Cesário,
quanto tempo, quantos anos deverá ficar no purgatório uma alma. É para nós, diz São
Rober­to Belarmino
, coisa muito incerta. Poderíamos considerar duas
espécies de duração do purgatório — uma positiva e que corresponde à medida do
tempo tal como o contamos neste mundo, e outra fictícia ou imaginária, a que
pensam as almas pelo sofrimen­to que as faz perder toda noção do tempo. Daí o
ver­mos em revelações particulares pobres almas que estavam apenas algumas
horas no purgatório, queixa­rem-se de anos e até séculos de abandono naquelas
chamas.
Eis
alguns exemplos de duração positiva segun­do revelações particulares: Conta-se
na vida de San­to Tomás de Aquino que o mestre seu sucessor na cátedra de
teologia de Paris, depois de morto apare­ceu e disse que havia ficado quinze
dias no purgató­rio para expiar a negligência em executar o testa­mento de um
Bispo. São Vicente Ferrer assegura que há almas que ficaram no
purgatório um ano inteiro por um pecado venial. Segundo o testemunho de Santa
Francisca de Pampeluna
, a maioria das almas do purgatório lá sofrem de
trinta a quarenta anos. E muitos outros exemplos poderia citar de au­tores
muito graves. Muitos Santos viram almas des­tinadas a sofrer no purgatório até
o fim do mundo. Algumas revelações particulares, observa o Padre Faber,
nos levam a crer que a duração do purgatório vai aumentando sempre mais à
medida que a humanidade avança no tempo. Há tanta falta de penitên­cia hoje,
tanto luxo e mundanismo!
Longo e breve purgatório
Segundo
as revelações particulares, há almas destinadas a um longo sofrimento nas
chamas do pur­gatório e outras passam brevemente pela expiação. Citemos
exemplos:
Santa
Verônica Juliani
 fala
de uma Irmã de seu convento que havia se oposto à reforma do mosteiro e deveria
ficar no purgatório tantos anos quantos passou neste mundo. À Santa
Margarida de Cortona
, a grande penitente franciscana, disse Nosso Senhor:
“Alegra-te, minha filha, tua mãe está livre do pur­gatório, onde ficou ela dez
anos”. Como a Santa re­zasse por três defuntos que ela julgava estivessem
salvos, revelou Jesus: “Estão salvos por tuas ora­ções e se livraram do
inferno, mas ficarão vinte anos nas chamas do purgatório”.
Santa
Lutgarda
 fez
penitências por Simão Aba­de, cisterciense muito austero e duro demais para com
seus súditos. Deveria ficar no purgatório quarenta anos. À Madre Francisca da
Mãe de Deus — (1615- 1671) — Nosso Senhor mostrou um dia quatro pa­dres que
estavam há mais de cinquenta anos no pur­gatório porque não administraram bem e
com res­peito e piedade os Sacramentos.
Santa
Lutgarda viu no purgatório um dos Papas
 mais
piedosos e ilustres da Igreja, Inocêncio III. Este Papa apareceu à Santa
dizendo que por algumas fal­tas no governo da Igreja, deveria permanecer no pur­gatório
até o fim do mundo. 
São Roberto Belarmino examinou com muito
cuidado as circunstâncias e a autenticidade desta visão, e fala dela nas suas
obras. Todavia, si há longas expiações, outras pela miseri­córdia divina são
muito breves. Talvez tenham sido mais intensas. 
Santa Teresa, na
sua Vida ou autobiografia, fala-nos numa Carmelita fervorosa que só passou dois
dias no purgatório. Uma outra, muito paciente na doença, ficou apenas quatro
horas na expiação. Um Irmão coadjutor da Companhia de Je­sus morreu à noite e
ficou no purgatório apenas até à Missa do dia seguinte
[2].
Santa
Margarida Maria Alacoque, a vidente do Sagrado Coração de Jesus, viu o seu
Diretor espi­ritual, o Beato Padre La Colombière, passar algumas horas nas
chamas expiatórias por ligeiras faltas. E se trata de um Santo!
O
Santo Cura d’Ars, segundo Mons. Trochu[3] nos
diz, teve muitas vezes intuições admiráveis do tempo que muitas almas deveriam
ficar no purga­tório. Perguntaram ao Santo si uma doente se havia de curar.
Quem perguntou ignorava que a enferma tivesse morrido. O Santo, que o sabia por
inspira­ção do céu, respondeu logo: “Ela já recebeu a recompensa”.
As
almas simples e humildes, e sobretudo as que muito sofreram neste mundo com
paciência e se confortaram perfeitamente com a vontade de Deus, po­dem ter um
purgatório muitíssimo abreviado, às vezes
 de
horas. É o que nos dizem inúmeras revela­ções particulares. Até Santos passaram
ligeiramen­te pelo purgatório. Tal se conta de 
São Severino, Ar­cebispo
de Colônia. Era um grande servo de Deus, admirável pelas suas virtudes e até
pelos milagres que fez. Depois da morte, apareceu a um Cônego da sua catedral
para lhe pedir orações. Estava no pur­gatório por instantes, por ter rezado com
alguma precipitação.
Conclusões
Que
havemos de concluir, quando meditamos na duração do purgatório? Primeiramente,
procurarmos ter mais zelo pela causa das almas sofredoras que tan­to padecem
pelo nosso esquecimento. Somos muito fáceis em canonizar logo os mortos e
comodamente já não rezamos mais por eles sob a desculpa de que “já estão no
céu”
. Ai! Não sabemos o que é a Justiça de Deus e até os mais santos
têm contas severas a dar ao Senhor depois desta vida.
São
Francisco de Sales
 tinha
muito medo destas canonizações rápidas dos admiradores. Estas boas almas, dizia
ele, com seus elogios, imaginando que depois da minha morte fui logo direito
para o céu me farão sofrer no purgatório. Eis o que me aproveitará a boa
reputação de santo…
Santa
Teresa
 escreve
no Prefácio do Livros das Fundações: “Pelo amor de Deus, eu peço a
cada pes­soa que ler este meu livro, uma Ave Maria, a fim de que me ajude a
sair do purgatório e apresse a hora em que hei de gozar a vista de Nosso Senhor
Jesus Cristo”. Assim falaram Santos hoje canonizados e cuja morte por tantos
prodígios nos deixaram a cer­teza de que foram diretamente para o céu.
Por
que termos e presunção de terem ido diretamente para o céu nossos entes
queridos, embora vir­tuosos, e deixarmos de orar por eles? O piedoso e
admirável fundador das Conferências de São Vicen­te de Paulo, Frederico
Ozanam
, deixou no seu testa­mento estas linhas: “Não vos deixeis levar por
aque­les que vos disserem: ele está no céu! Rezai sempre, por aquele que muito
vos ama, mas que muito pecou. Com o auxílio de vossas orações eu deixarei a
terra com menos temor”.
Santo Agostinho pede orações por
alma de Mônica, sua mãe, e de Patrício, seu pai, a todos os lei­tores das
suas Confissões. O ilustrado e piedoso Pa­dre Perreyve deixa
esta recomendação: “Peço aos meus amigos que rezem por mim muito tempo depois
da minha morte. Que eles não digam como se costuma dizer muitas vezes
e com muita pressa: está no céu! Que rezem muito por mim, sim, eu lhes peço
encarecidamente”.
Não
canonizemos tão depressa os nossos mortos e mesmo aqueles que vimos ter a morte
dos justos; rezemos muito por eles. Nunca nos descuidemos do sufrágio dos
mortos, porque já fizemos muito duran­te algum tempo, já mandamos celebrar umas
poucas Missas e rezamos umas tantas orações e os julgamos já no paraíso com
isto. Ignoramos o rigor da Justiça de Deus. E demais, si nossas Santas Missas
manda­das celebrar, nossas orações e penitências não servi­rem mais para as
almas pelas quais rezamos, não irão ajudar tantas almas sofredoras?
Outra
conclusão que havemos de tirar de nossas reflexões sobre a duração das penas do
purgatório é a de cuidarmos mais da nossa perfeição e não sermos tão
presunçosos julgando-nos capazes de entrar logo no céu. Cuidado com esta
presunção, que nos pode acarretar um longo e doloroso purgatório!


Exemplo
Minutos
que parecem séculos
São
tão dolorosas as penas do purgatório, que lá os minutos parecem séculos. Há nas
revelações par­ticulares tantos fatos impressionantes que compro­vam isto. E
demais, que é a eternidade? Já não exis­te o tempo. Os minutos além desta vida
são séculos para os que padecem naquelas chamas expiatórias.
Conta Santo
Antonino
 que um enfermo, vítima de dores atrozes, pedia sempre a
morte. Julgava os seus sofrimentos terríveis e acima de toda força hu­mana. Um
Anjo lhe apareceu e disse: Deus me man­dou para te dizer que podes escolher um
ano de do­res na terra, ou um só dia no purgatório. O enfermo escolheu um dia
no purgatório. Foi para o purga­tório. O Anjo o foi consolar e ouviu este
gemido de dor: “Anjo ingrato, dissestes que ficaria no purga­tório um só dia e
sinto que estou já aqui há longos vinte anos pelo menos… Meu Deus, como
sofro!”. O Anjo responde: Como te enganas! Teu corpo está ainda na terra sem
ter baixado à sepultura. A miseri­córdia de Deus te concede ainda voltar para
um ano de doença na terra. Queres?

Mil vezes, sofrimentos maiores ainda na mi­nha doença.
Ressuscitou
e durante um ano sofreu horrorosa­mente, mas com uma paciência heroica até à
morte.
Este
fato foi contado por Santo Antonino de Florença, o
prodigioso taumaturgo.

Deu-se
também um impressionante fato com São Paulo da Cruz. O Santo estava
em oração na cela, quando sentiu que lhe batiam com muita força na porta. Não
quis atender, pensando ser o diabo que às vezes lhe perturbava a oração: — Em
nome de Deus retira-te, Satanás! Grita São Paulo, mas o ba­tido continua: — Que
queres de mim? Pergunta.

Quanto sofro! Quanto sofro, meu Deus! Sou a alma daquele padre falecido. Há
tanto tempo estou num oceano de fogo, há quanto tempo!… Parecem mil anos!
São
Paulo da Cruz o reconheceu logo e respondeu, admirado: “O que me diz?!… Meu
padre, faz um quarto de hora apenas que faleceu e já me fala em mil anos!
O
pobre sacerdote do purgatório pediu sufrágios e orações, e desapareceu. São
Paulo da Cruz, como­vido e banhado em lágrimas, tomou a disciplina e se bateu,
até banhar-se em sangue. No dia seguinte, logo pela manhã, celebrou pelo
defunto e viu-o entrar triunfante no céu, na hora da Comunhão.



[1] De civitate Dei — Lib. XXI, caps. XIII e XVI.
[2] M. Jugie — Le Purgatoire.
[3] Intuitions du Curé d’Ars.