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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 4 de Novembro: O purgatório (Parte V)

Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre



4 de Novembro
  
O PURGATÓRIO
  

A justiça e a
misericórdia

Existe o purgatório,
isto é, um lugar de expia­ção onde se purificam as almas para a visão
beatifica.
Quem é digno de subir
à Montanha Santa?
 Quis ascendit in montem Domini? Quanta santidade e pu­reza
de vida exige o Senhor dos que há de admitir à sua presença, à presença daquele
Deus três vezes santo, ante o qual os serafins cobrem as faces com suas asas e
os céus repetem:
 Sanctus, Sanctus, Sanc­tus — Santo, Santo é o
Senhor Deus dos Exércitos!
A pobre criatura
humana tão miserável nem sempre, ao deixar a terra, é bastante pura e santa e
merece a presença do Senhor, a visão beatífica. E também como há de ser
condenada às chamas eter­nas a alma que, embora não tivesse pago a dívida dos
seus enormes pecados na penitência desta vida, não é todavia merecedora do
castigo eterno? Há de en­trar no céu? Não. Lá só se encontram os santos e os
puros de coração. E que pureza angélica requer a divina Justiça para o céu!
Há de ser condenada
ao inferno? Oh! Não. A misericórdia divina jamais o permitiria. Faltas ve­niais,
imperfeições, falta de penitência dos pecados
graves, tudo isto, é
bem verdade, exige castigo e sem a penitência não se há de entrar no céu.
Porém, a Justiça e a Misericórdia divina se uniram —
 Justitia et pax
osculatae sunt
.
— E inventaram uma obra-prima desta mesma justiça e desta misericórdia in­finitas
do Senhor.
O pecado será
castigado, a dívida exigida pela justiça será paga até o último ceitil, mas a
infinita misericórdia há de salvar a pobre alma culpada, há de lhe abrir um dia
as portas do céu.


Existe um purgatório!
Não é consoladora e
racional a doutrina da Igre­ja neste dogma?

A Sagrada Escritura
A oração pelos mortos
e a existência de um lu­gar de expiação, claramente se encontram afirmadas nos
livros santos. Recordemos o texto do livro se­gundo os Macabeus (12-43-36) e
que serve de epís­tola na missa do aniversário dos defuntos:
“Naqueles dias, o
varão forte chamado Judas, havendo feito um peditório, recolheu a quantia de do­ze
mil dracmas, que enviou para Jerusalém, para ser oferecido um sacrifício pelos
pecados dos mortos; pois ele possuía bons e religiosos sentimentos acerca da
ressurreição (e, com efeito, se ele não esperasse que aqueles que haviam
sucumbido ressuscitassem um dia, teria pensado que era vão e supérfluo orar
pelos mortos). Assim, ele acreditava que uma abun­dante misericórdia estava
reservada para aqueles que morressem piedosamente; pois, na verdade, é um santo
e salutar pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus
pecados”.
Que se conclui do
texto sagrado? Há um lugar de expiação e podemos orar pelos mortos, pois é
santo e salutar este pensamento.
E o Evangelho? Algum
texto deste livro de to­dos o mais sagrado, prova a existência do purga­tório?
Sim, segundo os mais autorizados comenta­dores e Santos Padres, este ponto da
nossa fé não deixou de ser afirmado por Nosso Senhor. (“Aquele que blasfemar contra
o Espírito Santo, diz Jesus, não será perdoado nem neste mundo nem no outro”).
Logo, há pecados que
são perdoados no outro mundo, isto é, são expiados no purgatório.
“Não hesites em fazer
as pazes com teu adver­sário, diz Jesus, enquanto estiveres em caminho com ele,
para que não vá te entregar ao oficial da Justiça e sejas lançado no cárcere.
Em verdade te digo, daí não sairás enquanto não houveres pago o último ceitil”.
Estas palavras nos
indicam a existência na vida futura de um lugar onde se pagam as dívidas
morais, isto é, o purgatório.
O Apóstolo dos
gentios diz que aqueles que misturaram nas obras de Deus as preocupações do
amor próprio, serão salvos, mas passando pelo fogo.
Notai bem: serão
salvos. Portanto, não serão condenados ao inferno, mas passarão pelo fogo, isto
é, hão de sofrer e se purificar. — Eis o purgatório.
Os Santos Padres e os
Concílios
Desde Orígenes e
Tertuliano, encontramos nos Santos Padres a prova de que a crença do purgatório
sempre existiu na Igreja, desde os tempos primitivos. As inscrições das
catacumbas demonstram que ora­vam os primeiros cristãos pelos mortos.
Tertuliano exorta uma viúva cristã a conservar pelo falecido es­poso a mesma
ternura, rezando por ele.

Perguntaram a São
João Crisóstomo o que era preciso fazer pelos defuntos. Respondeu ele: “É pre­ciso
ajudá-los com ardentes súplicas e especialmente com a prece litúrgica por
excelência, o Santo Sacri­fício da Missa”. Santo Ambrosio diz o mesmo, escre­vendo
a Faustino: “Chorai menos e rezai mais. Der­ramais lágrimas, isto é permitido,
mas não deixeis de recomendar ao Senhor a irmã querida que vos deixou”.
Diversos Padres da
Igreja afirmam claramente o que a Escritura e a tradição demonstram: a exis­tência
do purgatório.
Em Cartago, São
Cipriano, no século terceiro, fala do sufrágio dos mortos que ele recebera da
tra­dição dos seus predecessores.
Santo Agostinho louva
a Parchius porque em vez de rosas, lírios e violetas sobre os túmulos, der­rama
o perfume da esmola sobre as cinzas dos mor­tos queridos. E diz mais
claramente, num sermão aos seus diocesanos de Hipona: “Não há dúvida que as
orações da Igreja e o sacrifício salutar e as esmolas dos fiéis ajudam os
defuntos a serem tratados mais docemente do que mereciam os seus pecados”.

O que aprendemos de
nossos pais, diz o Santo Doutor, e o que a Igreja Universal observa, é fazer
memória no sacrifício dos que morreram na Comu­nhão do Corpo e do Sangue de
Cristo, e rezar e ofe­recer por eles o Sacrifício. Pede orações no santo al­tar
pela alma de Monica, sua mãe.
Recomendemos a Deus,
diz São Gregório Nazianzeno, as almas dos fiéis que chegaram antes de nós ao
lugar do repouso.
São Cirilo escreve:
“Não é por lágrimas que se socorre um defunto, mas pelas orações e as esmolas.
Não deixeis de assistir os mortos, rezando por eles”.
E muitos outros
Padres da Igreja afirmaram claramente a existência do purgatório e a eficácia
dos nossos sufrágios. Agora, vejamos a autoridade dos Concílios.
Inúmeras assembléias
provinciais e ecumênicas afirmaram o dogma do purgatório e recomendaram os
sufrágios e orações pelas almas. Assim os Concílios provinciais de Cartago —
ano 312 — Canon 29 — o de Orleans em 533 — Canon 14 — o de Praga em 563 — Canon
34 — Chalons sur Saône cm 580 e os Concílios ecumênicos de Latrão, Florença e
sobre­tudo o Concilio de Trento não definiu a natureza ape­nas do purgatório,
mas afirmou os pontos essenciais do dogma da seguinte forma: Como a Igreja
católica de conformidade com a Sagrada Escritura e a anti­ga tradição dos
Padres ensinou nos Concílios anterio­res e no presente sínodo universal que
existe um lu­gar de expiação, e que as almas ali encerradas po­dem ser
aliviadas pelos sufrágios dos fiéis e princi­palmente pelo Sacrifício do Altar,
o Santo Concílio or­dena aos bispos que tomem cuidado para que uma pura
doutrina no que respeita ao purgatório, con­forme a tradição dos Santos Padres
e dos Concílios, seja acreditada e sustentada por todos os que per­tencem à
Igreja e seja ensinada e pregada em toda parte. As questões difíceis e árduas
neste ponto que não poderiam servir para a edificação e nem favore­cer a
piedade, devem ser evitadas nas exortações ao povo. É mister também evitar a
exposição de opi­niões incertas e com aparência de erro. E definindo, conclui:
se alguém disser que a graça da Justifica­ção, a culpa e a pena eternas são de
tal modo perdoa­das ao penitente, que não resta pena temporal a sofrer neste
mundo e no outro no purgatório antes de entrar no reino do céu, seja anátema.

E outro Canon: “Se
alguém disser que o Santo Sacrifício da Missa não deve ser oferecido pelos
vivos e os mortos, pelos pecados e penas, as satisfa­ções e outras necessidade,
seja anátema”.
Eis aí toda a
doutrina da Igreja sobre o purga­tório. Que se conclui então? Há só dois
pontos, per­feita e claramente definidos, e que somos obrigados a crer: 1) —
Existe um lugar de purificação tempo­rária para as almas justificadas que saem
desta vida sem completa penitência dos seus pecados. 2) — Os sufrágios dos fiéis
e especialmente o Santo Sacrifí­cio da Missa são úteis às almas.
Eis aí, em síntese, a
consoladora doutrina da Igreja sobre o dogma do purgatório.
Exemplo
Santa Perpétua e o
purgatório
Já nos primeiros
séculos, segundo o testemunho de Tertuliano e dos Santos Padres e os
monumentos, os cristãos sufragavam os mortos com orações, e pelo Santo
Sacrifício da Missa celebrado sobre as sepulturas. Nas inscrições e, nos
epitáfios se encontram nas catacumbas belas preces pelos mortos. No século IV
em 302, Santa Perpétua nos conta uma visão do purgatório. Diz ela:
“Estávamos em oração
na prisão, depois da sen­tença que nos condenava a sermos expostas às fe­ras, e
de repente chamei por
 Denócrato. Era um meu irmão
segundo a carne. Morrera com um câncer na face. A lembrança da sua triste sorte
me afligia. Fi­quei admirada de me ter vindo à lembrança este ­irmão e me pus a
rezar por ele com todo fervor, ge­mendo diante de Deus. Na noite seguinte, tive
uma visão na qual vi
 Denócrato sair de um lugar
tenebro­so no qual se acham muitas pessoas. Estava abatido e pálido, com a
úlcera que o levou à sepultura. Tinha uma grande sede. Junto de mim estava uma
bacia com água, mas ele em vão tentava beber e não con­seguia. Conheci que meu
irmão estava sofrendo e era preciso rezar por ele. Pedi por ele dia e noite com
muitas lágrimas, para que fosse libertado. Alguns dias depois tive outra visão,
na qual Denócrato me apareceu todo brando, brilhante e belo, e se inclinou e
bebeu à vontade a água que antes não pude tirar. Conheci por isto que estava
livre do suplício”.
Eis um belo trecho
que vem provar a antiguida­de da crença do purgatório.
Santo Agostinho
reconhece a autenticidade das Atas de Santa Perpétua e nota que o irmãozinho da
Santa deveria ter cometido alguma falta depois do batismo.