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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 20 de Novembro: As almas mais abandonadas (Parte XXI)



Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre




20
de Novembro
AS
ALMAS MAIS ABANDONADAS
Os
esquecidos…
Como
já dissemos, os mortos são muito esque­cidos. Os vivos os choram pouco tempo e
depois os abandonam para sempre ao esquecimento das sepul­turas, e o que é mais
doloroso, ao abandono e esqueci­mento no purgatório. Há no purgatório as almas
que chamamos
 as mais abandonadas. Devem ser inume­ráveis.
Por elas nem uma Santa Missa, nem uma ora­ção, nem um sufrágio sequer dos que
elas amaram tanto neste mundo, e, quem sabe, encheram de be­nefícios e talvez
estejam aproveitando o que deixa­ram aqui em herança e patrimônios. Que dura in­gratidão!
Como sofrem estas pobres almas! O es­quecimento dói muito neste mundo. Que
diremos no outro, no purgatório! Então, aquelas pobres al­mas parecem gemer,
como o profeta Jó:
 Miseremini mei saltem vos amici mei,
quia manus Domini teti­git me! Tende compaixão de mim, tende compaixão de mim,
pelo menos vós, meus amigos, porque a mão de Deus me feriu!
Que
gemido angustioso! Sim, a mão da Justiça de Deus fere as pobres almas para
santificá-las e pu­rificá-las, e elas só dependem de nós. E quando se veem
abandonadas dos seus, clamam:
 pelo menos vós, meus
filhos, meus parentes, meus amigos, meus be­neficiados, vós que me amastes na
terra!
Em
vão clamam tantas vezes! Não são ouvidas, porque seus amigos e parentes,
preocupados com os prazeres, as honras, o dinheiro, as vaidades, nem querem
pensar nos mortos, e nem se lembram num ato de fé, que podem seus parentes e
seres muito caros estarem nas chamas expiatórias, a sofrer!
Daí
o abandono das pobres almas. Há outras po­brezinhas que neste mundo nem
deixaram amigos ou parentes. Não têm mesmo quem reze por elas. Po­bres
criaturas que deixaram esta vida ignoradas. Quem se lembrará delas?
É
verdade que nos desígnios misericordiosos de Deus, muitos sufrágios dos ricos
Nosso Senhor apli­ca aos pobrezinhos, segundo dizia a
 Beata Ana Taigi, que numa revelação
viu a alma de um cardeal sem receber no purgatório sufrágios de muitas Missas,
porque Nosso Senhor as aplicava pelas almas dos po­brezinhos que morreram e
ficaram abandonados. To­davia, não deixa de haver no purgatório almas
abandonadas.
Em Fátima, Nossa Senhora pedia
orações pelas almas abandonadas. Os pastorinhos rezavam:
 Meu Jesus,
perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, li­vrai as almas do purgatório,
especialmente as mais abandonadas.
É,
sem dúvida, uma grande obra de caridade. Quantas graças não podemos alcançar
por este ato de caridade tão agradável a Nosso Senhor!
Vamos,
pois, tenhamos caridade, tenhamos pie­dade das pobres almas sofredoras. Deus
não permi­tirá que sofra muito no purgatório quem neste mun­do socorreu os
mortos. Portanto, é de nosso inte­resse sufragar os mortos. A devoção às almas
é muito necessária! Milhões de fiéis devem sofrer no
 purgatório!
Se ao invés de flores e túmulos pomposos e gastos inúteis, orassem e fizessem
boas obras e oferecessem muitos a santa Missa pelos seus mortos, não haveria
tantas pobres almas abandonadas!
Se
ao invés de andarem à procura de centros de espiritismo para uma absurda
comunicação com os mortos, tantos se lembrassem de que se iludem ou falam com o
demônio iludidos e deixam seus parentes e amigos em maiores penas, ai, as
pobres almas do purgatório não seriam
 almas abandonadas


Por
que ficam abandonadas?

o dissemos: por indiferença dos vivos e fal­ta de uma fé mais viva no dogma do
purgatório. De­pois, temos o costume de canonizar muito depressa os nossos
defuntos. Morreu? Só nos lembramos das virtudes e do bem feito pelo falecido. É
uma carida­de, não há dúvida.
 Parce sepultis! Perdoemos aos mortos
e veneremos a sua memória. Dos mortos, ou falar bem ou calar-se. Não recordemos
suas misé­rias e pecados. Pobrezinhos, já deram contas a Nos­so Senhor e estão
entregues à Divina Justiça. Repi­to, é muito edificante nunca censurar os
mortos e ter deles boa memória. Todavia, saibamos que a Jus­tiça, a Santidade
de Deus, costuma ver defeitos até nos Anjos, e, para entrar no céu, é mister
uma gran­de santidade. Dizemos: era um santo, era uma san­ta, e… os vamos
deixando sofrer no purgatório! Disto é que tinha medo São Francisco de Sales,
quan­do recomendava muito que orassem por sua alma depois da morte.
Frederico
Ozanam
 recomendava, também, que não o
deixassem no purgatório, esquecido, sob o pre­texto de que era um santo e tinha
ido direito para o céu! Eis um dos motivos também do abandono de algumas almas.
Cuidado, pois; não canonizemos tão depressa nossos mortos, ainda que nesta vida
tenham dado provas de grande virtude. Desconhecemos os rigores da Divina
Justiça!
Depois,
há o contrário: o julgarmos que a pobre alma, tendo deixado este mundo sem
sinais de arre­pendimento e talvez em lamentáveis condições de pecado e de
escândalo, e talvez tenha se condenado e esteja no inferno. A Igreja nunca
permitiu que se dissesse que alguém está certamente no inferno. É verdade que
muitos se condenam, mas não podemos afirmar sem temeridade que alguém esteja
conde­nado. Ignoramos os segredos da divina Misericórdia e o que se passa com
uma alma na hora derradeira entre o último suspiro e a eternidade.
Não
abandonemos uma só alma, por mais que pareça ter sido condenada. A Igreja
proíbe, é verda­de, os sufrágios públicos pelos suicidas, pelos hereges, pelos
pecadores públicos escandalosos, mas per­mite os sufrágios em particular e não
reprova que se reze por estes infelizes, em particular. Ninguém conhece os
segredos da Justiça e da Misericórdia Di­vinas! Eis porque ficam muitas almas
abandonadas. Rezemos por elas. Talvez estejam no purgatório, e que purgatório
horroroso não há de ser o dos que es­caparam da eterna condenação por um
milagre da Divina Misericórdia!
Oremos
pelas almas dos infelizes que deixaram esta vida talvez em péssimas condições,
sem Sacra­mentos, em mortes repentinas. Só Deus sabe o des­tino destes
infelizes! Pelo menos em particular, em segredo, entre nós e Deus, podemos
sufragar estas pobres almas. Daí a necessidade da devoção às al­mas mais
abandonadas. Ó, que para a nossa carida­de, para a nossa fé, não haja almas
abandonadas!
Lembremo-nos
de todas, socorramos esta classe das pobrezinhas que padecem no purgatório!

Os
Santos e as almas abandonadas
Muitos
Santos tiveram esta devoção.
 Santa Ca­tarina de Genova, Santa
Catarina de Sena, Santo Afonso de Ligório, São Francisco de Sales
 e princi­palmente o
grande apóstolo da caridade,
 São Vicente de Paulo. Este grande
coração, cuja vida se passou a ajudar os abandonados e infelizes da terra, por
este mesmo instinto divino de caridade se voltava para as almas abandonadas e
sofredoras do purgatório. Era a sua grande devoção socorrer as almas mais
abandonadas.
Uma
piedosa serva de Deus,
 Irmã Maria Denise da Visitação, e que no século se
chamava
 Mme. Martignat, pertencente a
família da nobreza, ao invés de encomendar a Nosso Senhor a alma dos pobrezi­nhos,
recomendava a alma dos ricos e dos grandes da terra. Estranharam isto e ela
dava as razões: “São às vezes as almas mais abandonadas e as que tem mais
necessidade de sufrágios. Passaram uma vida folgada, não fizeram muita
penitência e sabe Deus que terrível purgatório não lhes está reserva­do, se
conseguiram se salvar pela Divina Misericór­dia”. E tinha razão. Além do mais,
depois das pom­pas fúnebres nas quais entra muita vaidade da fa­mília, às vezes
segue-se um esquecimento e abando­no completo do pobre morto. Oremos muito
pelas almas abandonadas, porque elas não deixarão de pe­dir por nós quando
libertadas por nossos sufrágios. Para a Igreja nunca seremos almas abandonadas,
é verdade.
A
Igreja, nossa Mãe, só ela nunca esquece e cada
 dia
sem cessar, em milhares de altares em toda ter­ra, lembra, ante a Hóstia
divina, os mortos.
 — Me­mento! Memento! Lembrai-vos,
Senhor, daqueles que nos precederam com o sinal da fé e agora descansam no sono
da paz. Nós Vos suplicamos, Senhor, dignai- vos concedê-la a estes e a todos
que descansam em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Que
tocante oração! Só para a Igreja os mortos não são esquecidos.
Tanta
lágrima, tantas flores, tantos suspiros em alguns dias e meses. Depois… o
frio e duro esqueci­mento. Dura lei! É verdade, não havemos de chorar a vida
toda os nossos mortos, e a esperança cristã nos diz, no Prefácio da Missa, dos
defuntos que
 a vida para eles não se acaba, muda-se
— Vita mutatur, non tollitur.
 Eles, os nossos
mortos, vivem no seio de Deus. E a maioria deles expia nas chamas do
purgatório. É uma verdade terrível e consoladora. E por isto nosso esquecimento
é grave e cruel.
Que
para nós não haja
 almas abandonadas! Es­tejam todas em
nossa lembrança e em nossos sufrá­gios. Depois da morte veremos quanto nos foi
pro­veitosa esta bela devoção e este ato generoso de caridade.
Imitemos
os Santos, que acudiam generosamente as almas mais abandonadas.
Exemplo
Uma
alma abandonada e salva por Maria
Conta
Santo Afonso nas suas
 “Glórias de Ma­ria”, este exemplo que é
a um tempo uma glorifica­ção da misericórdia da Mãe de Deus e uma prova do
abandono em que pode ficar uma alma no purgatório.
Lê-se
na vida de soror Catarina de Santo Agos­tinho, que havia no lugar em que morava
esta serva de Deus uma mulher chamada Maria. A infeliz le­vara urna vida de
pecados durante a mocidade. E já envelhecida, de tal forma se obstinara na sua
perversidade, que fora expulsa pelos habitantes da cida­de e obrigada a viver
numa gruta abandonada. Ai morreu, finalmente, sem os sacramentos e sem a as­sistência
de ninguém. Sepultaram-na no campo, como um bruto qualquer. Soror Catarina
costumava reco­mendar a Deus com grande devoção as almas de to­dos os
falecidos. Mas, ao saber da terrível morte da pobre velha, não cuidou de rezar
por ela, pensando, como todos os outros, que já estivesse condenada. Eis que, passados
quatro anos, em certo dia se lhe apresentou diante uma alma do purgatório, que
lhe dizia:
 Soror Catarina, que
triste sorte é a minha! Tu encomendas a Deus as almas de todos os que mor­rem e
só da minha alma não tens tido compaixão?
 Mas, quem és tu? Disse a serva de
Deus.

Eu sou, respondeu ela, aquela pobre Maria, que morreu na gruta.

E como te salvaste? Replicou soror Ca­tarina.

Sim, eu me salvei por misericórdia da Vir­gem Maria.


E como?


Quando eu me vi próxima à morte, vendo-me juntamente tão cheia de pecados e
desamparada de todos, me voltei para a Mãe de Deus e lhe disse: Senhora, vós
sois o refúgio dos de­samparados. Aqui estou neste estado, abandonada por
todos. Vós sois a minha única esperança, só vós me podeis valer; tende piedade
de mim. Então a SS. Virgem obteve-me a graça de eu poder fazer um ato de
contrição; depois morri e fui salva. Além disso, esta minha Rainha alcançou-me
a graça de ser abre­viada minha pena por sofrimentos mais intensos, po­rém
menos demorados. Só necessito de algumas Mis­sas para me livrar mais depressa
do purgatório. Ro­go-te que as faças celebrar. Em troca, prometo-te pedir
sempre a Deus e à SS. Virgem por ti.
Soror
Catarina logo fez celebrar as missas. De­pois de poucos dias, lhe tornou a
aparecer aquela al­ma mais resplandecente do que o sol e lhe disse: Ago­ra vou
para o paraíso, cantar as misericórdias do Se­nhor e rogar por ti.