,

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 19 de Novembro: Via Sacra e o Rosário (Parte XX)


Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre




19
de Novembro
VIA
SACRA E O ROSÁRIO
Para
alívio das almas do purgatório, temos uma fonte de indulgências e de riquezas
espirituais — é a Via Sacra. Esta meditação da Paixão e morte do nosso divino
Redentor, nos lembra o Sangue Precio­síssimo derramado pela salvação das almas,
e nos faz pedir pelo Sangue de Cristo a libertação do purgatório. Quanto alívio
não trás às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma devoção santificadora
pa­ra nós e um sufrágio precioso para as pobres almas. Dizia São
 Boaventura: “Se quereis crescer
de virtu­de em virtude, atrair para vossa alma graça sobre graça, entregai-vos
muitas vezes ao exercício da Via Sacra”. A Paixão de Jesus Cristo é remédio
para nossa alma pecadora, e este Sangue precioso cairá sobre as almas como doce
refrigério.
Na
Vida da
 V. Maria d’Antigna se conta que esta
serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra pelos
defuntos. Depois, com outras ocupações e devoções, se descuidou des­ta. Um dia,
uma religiosa do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse,
gemendo: “Minha Irmã, porque não faz as estações da Via Sa­cra por mim e pelas
almas como antes?”. Neste mo­mento apareceu-lhe Nosso Senhor: “Filha, disse-lhe
o Salvador, estou muito triste com tua negligência.
É
preciso que saibas que a Via Sacra é muito pro­veitosa para os defuntos, e eis
porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome das outras
almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É preciso tornar este tesouro
mais co­nhecido em favor das almas”.
Desde
esse dia, a serva de Deus se dedicou a es­te exercício e o propagou com muito
zelo. Pelo me­nos às sextas-feiras, se possível, façamos uma Via Sacra pelos
mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um tesouro dos mortos também.
Um
dia, São Domingos pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas
sofredoras. Era nas planícies do
 Languedoc. Um homem incrédulo
zom­bou do Santo. Naquela noite teve uma misteriosa visão. Via as almas se
precipitarem nos abismos do purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro,
as tirava do abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário,
cadeia de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do purgatório as pobres almas
sofredoras.
Quantos
prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte e depois da
morte no pur­gatório! Além do mais, o Rosário é um tesouro de muitas
indulgências que podemos aplicar em sufrá­gio das pobres almas. Vamos rezá-lo
sempre, nas horas vagas, pelas estradas, em toda parte, não per­camos o tempo.
Aproveitemos para rezar muitos rosários pelas pobres almas. Temos tantos
parentes e amigos e tantas almas queridas no purgatório! Va­mos aliviá-las com
nosso rosário bendito!

O De Profundis
Que
é o De Profundis? É o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do
Profeta Davi chegou até nós e parece vir das profundezas do abismo do
purgatório a implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos sete
Salmos penitenciais. O padre ajoelha-se diante do cadáver e reza o De Pro­fundis.
Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepul­tura, de novo reza o Salmo dos
mortos. No cemité­rio e a caminho da sepultura, sem o
 De Profundis. Os fiéis, depois do
Padre Nosso e da Ave Maria, re­zam o De Profundis. Por que esta prece? Por que
se tornou a oração dos defuntos? Porque assim come­ça:
 De profundis… Das
profundezas…
 Não pare­ce um gemido saído do
purgatório? O sentido deste salmo é este: o seu esquema pode ser o seguinte: O
salmista, imerso na profundeza dos pecados, invoca a Deus (vs. 1 a 2). Como
somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus nos pode salvar (3
e 4). Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este perdão (5
e 6). O povo de Israel também alimenta esta mesma espe­rança de perdão e de
redenção copiosa (6 a 8).
Ora,
estes gemidos, estas aspirações de reden­ção e de perdão copioso, este clamor
doloroso coloca­mos em nossos lábios e suplicamos pelas almas que sofrem no
abismo do purgatório. Não é verdadeira­mente próprio e significativo para uma
súplica dos defuntos o
 De Profundis? Eis agora o texto
do Sal­mo na tradução nova do Novo Saltério:
“Das
profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi,
Senhor, a minha voz!
Atendam
os vossos ouvidos
O
brado da minha súplica,
Se conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem,
Senhor, poderá subsistir?
Mas
em Vós está o perdão dos pecados,
Para
que sejais servido com reverência.
No
Senhor ponho a minha esperança,
Espera
minha alma na sua palavra.
Aguarda
minha alma o Senhor, mais do que os vigias da noite a aurora,
Sim,
mais do que os vigias da noite a aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque
no Senhor a misericórdia,
Nele
a redenção abundante.
E
Ele resgatará Israel
De
todas as suas iniquidades”.
Eis
o Salmo na nova tradução. Muita gente nos­sa o recita já de cor e em outras
palavras. Não im­porta. O essencial é que o recitem com piedade e fervor e se
lembrem de que é o Salmo dos defuntos, mui­to alívio pode trazer às benditas
almas do purgatório.
Práticas
devotas

muitos meios de sufragar os mortos. Esco­lhamos a segunda feira consagrada pela
tradicional piedade do povo a devoção do purgatório. Há o pie­doso costume de
se fazer tudo quanto possível na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos
pobres, visitar os doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se
pudermos comungar, assistir a San­ta Missa nesse dia, enfim, fazermos por
juntar mui­tos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Do­mingo, dia do
Senhor, a terça, consagrada aos San­tos Anjos, a quarta a São José, a quinta ao
Santíssi­mo Sacramento, a sexta ao Coração de Jesus e à Paixão, o sábado a
Nossa Senhora. Seja a segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio,
da nossa caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em
algumas paróquias e comu­nidades religiosas há piedosos exercícios neste dia.
Por que não havemos de concorrer para que sejam
 eles
frequentados os estabelecidos onde não se fa­zem? Muitas pessoas entre nós têm
um costume que às vezes toma um cunho supersticioso: o de acender velas em
portas de cemitérios e em cruzes da estra­da, ou pelos campos pelas almas do
purgatório. Não poderia ser reprovado se não tivesse às vezes um cunho muito
supersticioso. Velas acesas sem ora­ções pouco adiantam para os mortos. A vela
é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo de cera, e ben­ta, é um
sacramental.
Por
que não acender então velas bentas? E re­zar mais ao invés de queimar tanta
vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?
Nosso
povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas desejaríamos
que hou­vesse mais compreensão da necessidade da oração pelos mortos. A vela
simboliza a Luz que os defun­tos esperam no céu. Diz tantas vezes a Liturgia:
 Que a luz perpétua
resplandeça para eles
.
Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este pedido de luz, é que o
povo tomando num sentido muito mate­rial o belo simbolismo da vela, gosta de
acendê-la em profusão. Não deixa de ser edificante e impressio­nante a multidão
de velas acesas nas sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim
repro­var tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu
simbolismo e preferiria ver ace­sas velas bentas nas sepulturas e nos
cemitérios.
Nosso
povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos nossos sertões os
grupos de suplicantes de orações pelas almas, que muitas ve­zes degeneraram em
abusos. Estão abolindo um cos­tume piedoso e tocante. Quando morre alguém numa
família, durante nove dias, a contar do dia da mor­te, todas as noites se
reúnem os parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena das
Almas em sufrágio do morto. Por que não conser­var esta bela tradição?
Enfim,
já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil a devoção às
santas almas do purgatório. Façamos tudo por elas, pobrezinhas, que só tudo
esperam de nós. Sejamos dedicados apóstolos do purgatório!
Exemplo
Proteção
das santas almas
Mons.
Louvet
,
na sua obra
 “Le purgatoire d’ápres les revélations
des Saints”,
 narra um fato pro­digioso
da proteção das almas aos que a elas socor­rem com sufrágios.
Um
padre italiano,
 Luiz Monaci, religioso dos
Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das al­mas. Em toda parte e em todas
as ocasiões procura­va meios de ajudar as benditas almas sofredoras. Em uma
noite teve de viajar e atravessar sozinho uma planície deserta e perigosa,
porque, infestada de bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita
gente para roubar. Pelo caminho, o bom pa­dre não perdia tempo: ia recitando
piedosamente o rosário de Maria pelas almas do purgatório. Ao avis­tar de longe
o pobre sacerdote sozinho e desprovido de armas, um grupo de bandidos se
preparou para o assaltar e puseram-se de emboscada. Qual não foi o espanto de
todos quando ouviram o soar de trombetas e um grupo de soldados que marchava
armado aos lados do padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram
em soldados que os vinham prender. Viam, entretanto o padre muito tranquilo a
caminhar, recitando o rosário. Entrou este numa
 hospedaria
próxima. Enquanto o padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e perguntaram
curiosos:
 


— Que padre é este que anda acompanha­do pelas estradas de soldados que o
protegem?

Aqui não chegou soldado algum e este padre nunca andou assim em viagem…
Os
bandidos, furiosos, procuraram entrar em pa­lestra com o sacerdote e
perguntaram-lhe do bata­lhão que o escoltava.

Meus filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o meu
rosário, que recito sempre pelas santas almas do purgatório para que elas me
protejam.

Pois bem, meu padre, confessa um bandido, estas almas vos salvaram. Somos
bandidos e estávamos na estrada prontos para vos despojar e matar. E só não o
fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e, aterrorizados, fugimos e
viemos aqui curiosos saber do que se trata. Cremos que as almas das quais sois
tão devoto vos salvaram da morte.
Os
bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão dos pecados e
confessaram-se humildemente.
O Pe. Rossignoli e outros autores
contam inú­meros casos de proteção das santas almas em favor dos seus
benfeitores.
Na
verdade, mesmo nas coisas temporais os de­votos caridosos que nunca se esquecem
de socorrer as benditas almas do purgatório, podem contar com uma proteção
segura da divina Providência em to­das as circunstâncias difíceis, porque Deus
sempre recompensa esta grande caridade.