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Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! — 14 de Novembro: A oração pelos mortos (Parte XV)



Nota do blogue:  Acompanhe esse Especial AQUI.

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 – 243 pags
Casa da U.P.C.
Pouso Alegre




14 de Novembro
A
ORAÇÃO PELOS MORTOS
Saudade
e oração
Não julguemos que lembrar nossos mortos
é ter apenas deles uma saudade que aos poucos vai decres­cendo em intensidade,
à medida que passam os anos. Chorar nossos mortos e perpetuar-lhes a lembrança
no mármore, na tela, no livro é permitido, sim. Po­rém, não fiquemos só nisto.
Juntemos à saudade a oração. Não basta chorar, precisamos orar. E nun­ca se
precisa tanto de oração como depois da morte. No purgatório as pobres almas
estão como o paralítico da piscina que dizia a Jesus: —
 Hominem
non habeo! Senhor, eu não tenho um homem que me lan­ce na piscina para ser
curado.
Dependem aquelas almas santas de nossos
sufrá­gios, de nossas orações e sacrifícios. Deus as entre­gou à nossa
caridade. Sempre é eficaz a nossa oração pelas almas.
“É infinitamente mais útil e eficaz a
oração pela libertação dos defuntos que padecem no purgatório, que a oração
pelos pecadores da terra, cuja perversi­dade e más disposições paralisam os
esforços para os salvar. As santas almas não põem obstáculo algum à eficácia
das orações que por elas fazemos.”
 Tal
é a opinião do piedoso oratoriano
 Pe.
Faber
.
Juntemos à nossa imensa saudade dos
mortos nossos queridos, a oração e sempre a oração.
Escreveu o Pe.
Sertillanges
: “A
lembrança dos mortos sem a oração, é uma lembrança fria, um tris­te pensamento.
É uma exploração do nada. Porém com a oração, é um vento que sopra em direção a
Deus, é uma ascensão nas asas da esperança”.
 (Le
probléme de la prière. Revue de Jeunes — Nov. 1915.)
Oremos pelas almas benditas que padecem
no purgatório! Demos-lhe a esmola de nossas preces fer­vorosas e da riqueza das
indulgencias do tesouro da Igreja.
Dizia São
Francisco de Sales
: “Vós que chorais inconsoláveis a
perda de vossos entes queridos, eu não vos proíbo de chorar, não! Chorai, mas
procurai adoçar vossas lágrimas com o suave bálsamo da ora­ção que muito mais
do que todas as demonstrações exteriores de pesar, pode concorrer para aliviar
as almas que a morte vos arrebatou”.
Esta é também a linguagem da Igreja,
nossa Mãe. Não proíbe nossas lágrimas. É tão humano chorar! Todavia não
fiquemos tão só num pranto estéril e desesperado. Oremos! Juntemos ao pranto
nossas orações. Saudade e oração. Choremos nossos mortos como cristãos
verdadeiros.

Meio
fácil
Sim, é o mais fácil dos meios de
socorrer os mor­tos, a oração. Alguns podem achar difícil o jejum, ou a
mortificação, podem se queixar da pobreza que: não lhes permite dar esmolas,
mas quem pode se excusar e desculpar-se de não poder orar?
A mais curta oração feita com as
devidas dispo­sições é um alívio para os fiéis defuntos. Quem não pode bradar:
 dai-lhes,
Senhor, o descanso eterno!   
Fez Nosso Senhor tantas promessas à
oração!
 “Pedi e recebereis, batei e se vos há de abrir. É
pre­ciso sempre orar”.
 A oração de Marta e Maria leva Jesus a ressuscitar
Lázaro. Nossas preces pelos de­funtos hão de tirar as pobres almas daquele
estado de morte em que se encontram.
As lágrimas, as flores, os mausoléus
pomposos nada aproveitam aos mortos. É melhor rezar por eles. “Poupai vossas
lágrimas, dizia
 São João Cri­sóstomo, pelos defuntos e dai-lhes mais orações”. Es­creve Santo
Ambrosio
 numa das suas cartas a Faustinus, que acabava de perder a irmã: “É preciso
assisti-la com orações mais do que chorá-la, e convém recomendar a sua alma
muito a Deus na oração. Cho­ra menos e reza mais”.

Repitamos também esta recomendação a
tantos que choram seus mortos sem se lembrarem de uma prece, de uma Santa
Missa, de uma obra de cari­dade para sufragar-lhes as pobres almas. Quantas
orações tão belas e eficazes e poderosos para o su­frágio dos nossos mortos! O
Padre Nosso, a Ave Ma­ria, o De Profundis, o Ofício dos mortos. A Igreja, nossa
Mãe, nos dá exemplo de oração pelos defuntos. Termina muitas vezes as suas preces
litúrgicas como as Horas canônicas pela súplica tocante:
 “Fidelium
animas per misericordiam Dei requiescat in pace”. E as almas dos fiéis pela
misericórdia de Deus descansem em paz!
 Desde
os tempos primitivos, e já nas catacumbas, a prece pelos defuntos era conhecida
e praticada na Igreja. Encontram-se nas pedras ins­crições como estas:
 Vitório,
que Deus refrigere o teu espírito! Antonia, doce alma, que Deus te de o
refrigério! Que Cristo te ponha na paz! Que tua alma re­pouse em Deus!
 Sempre
as súplicas a Deus pedindo
 refrigério, luz e paz para os mortos. É
muito agra­dável a Deus a oração pelos mortos.

Um dia, Santa
Gertrudes
 rezava com fervor pe­los defuntos, quando Nosso
Senhor lhe fez ouvir es­tas palavras: “Eu sinto um prazer todo especial pela
oração que me fazem pelos fiéis defuntos, principal­mente quando vejo que à
compaixão natural se junta a boa vontade de a tornar mais meritória. A oração
dos fiéis desce a todo instante sobre as almas do pur­gatório como um orvalho
refrigerante e benéfico, co­mo um bálsamo salutar que adoça e acalma suas do­res
e ainda as livra das suas prisões mais ou menos ràpidamente, conforme o fervor
da devoção com que é feita”. Noutra ocasião, disse Nosso Senhor a sua serva
querida: “Muitíssimo grata me é a oração pe­las almas do purgatório, porque por
ela tenho oca­sião de libertá-las das suas penas e introduzi-las na glória
eterna”.
Eis aí um meio tão poderoso de ajudar
as pobres almas, e tão fácil, tão ao nosso alcance! Oremos e muito pelas pobres
almas!
Oremos
pelos fiéis defuntos!
Sim, já que a oração é tão poderosa
para socor­rer os mortos, aliviar as penas das pobres almas, va­mos em socorro
do purgatório! “A oração da alma fervorosa, diz
 São
Bernardo
, sobe até o céu e de lá não desce sem
ser ouvida. Se pede amor de Deus, vem dele cheia; se pede humildade, esta logo
a vem adornar; si pede a libertação das almas do purgató­rio, tem igualmente
todo poder para alcançá-la”.
São João Damasceno escreve:
“Não vos pode­ria narrar tantos testemunhos encontrados na vida dos santos
pelos quais se provam claramente as van­tagens da oração que se fazem pelos
defuntos! Não é em vão que se reza pelos mortos!”.
Todas as orações são úteis para as
almas, mas algumas mais do que outras. Por exemplo, as orações canônicas do
Breviário ou Divino Ofício são muito mais valiosas e eficazes. Que valor não
terá uma prece oficial da Igreja pelos mortos! Depois, apro­veitemos o tesouro
da Via Sacra, acompanhando os mistérios dolorosos da Paixão do Salvador e ofere­cendo
o Preciosíssimo Sangue para refrigério do pur­gatório. Que dizer do Rosário?
Que tesouro da Igre­ja padecente!
Apliquemos todas as indulgências do
Rosário pe­las almas. Uma jovem libertada do purgatório pelo rosário de São
Domingos, apareceu a este servo da Virgem e lhe disse: “Em nome das almas do
purga­tório eu vos conjuro, pregai por toda parte e fazei conhecer a toda gente
a devoção do Rosário. Que os fiéis apliquem às pobres almas as indulgências e
os outros favores espirituais desta devoção tão santa. A Santíssima Virgem e os
Anjos e Santos se alegram com o Rosário, e as almas libertadas por ele rezam no
céu pelos seus libertadores”.
Façamos novenas e orações em comum
pelos mor­tos, principalmente logo depois que deixaram eles este mundo. Há o
piedoso costume de se fazer uma novena pelo falecido, começando logo no dia
seguinte ao da morte ou do enterro. Durante nove dias se reúne a família em
torno de um altarzinho para im­plorar a misericórdia do Senhor pelo defunto.
Mul­tipliquemos fervorosas preces pelos nossos mortos queridos e pelas almas
mais abandonadas. “Minha filha, dizia certa vez Nosso Senhor a Santa Lutgarda,
não posso resistir às tuas súplicas. A alma pela qual pedes logo estará livre
dos seus sofrimentos”. Ó, não será esta a resposta que nos dará Nosso Se­nhor
também, si orarmos com todo fervor de nossa alma, com toda caridade pelos
defuntos?
Um santo bispo, conta Rossingnolli em suas Ma­ravilhas
do purgatório
, um santo bispo teve um so­nho. Viu
uma criança que com um anzol de ouro e uma linha de prata retirava uma mulher
de um pro­fundo poço. Acordou, abriu a janela e viu no cemi­tério, que lhe
estava no fundo da casa e vizinho, um menino tal como o que viu em sonho,
ajoelhado junto a um túmulo, em oração.
— Que faz aí, menino? pergunta-lhe o
bispo.
— Eu rezo um Padre
Nosso
 e um De
Profundis
 pela alma de minha mãe, que aqui está sepultada.
Entendeu logo o santo prelado que a
oração sin­gela do pequenino era o anzol de ouro e o
 Padre
Nos­so
 e o De Profundis o
fio misterioso que vira em so­nho. Tal é a nossa oração pelos mortos.
Exemplo
Santa
Margarida de Cortona e as almas do purgatório
A grande pecadora que foi Margarida de
Cortona e que convertida veio a ser a Madalena dos últimos tempos, pela
admirável penitência e a grande santi­dade a que chegou, era uma grande devota
das santas almas do purgatório. Desde que se converteu dedi­cou-se, cheia de
caridade, a socorrer as almas sofredoras. Nosso Senhor lhe permitiu ver muitas
vezes a triste condição destas almas para lhe excitar a com­paixão e interceder
por elas. Dois negociantes foram assassinados, e por misericórdia de Maria
Santíssima, da qual eram fervorosos devotos, alcançaram uma contrição perfeita
na hora derradeira e se sal­varam. Apareceram à Santa e lhe disseram:
— “Escapamos da eterna condenação pela
especial proteção de Maria Santíssima, mas teremos que padecer um horrível
purgatório para expiar nossas injustiças e mentiras e pecados, ó Serva de Deus,
nós vos pedimos que mandeis avisar nossos amigos e pa­rentes que façam
restituições de nossos maus negó­cios e dêem muitas esmolas aos pobres em paga
de nossas injustiças. Ajudai-nos, Margarida, com vos­sos sufrágios”.
A Santa se empenhou muito com orações e
peni­tências em socorrer estas pobres almas. E assim fa­zia sempre que Nosso
Senhor lhe revelava a necessi­dade e as aflições de algumas almas do
purgatório. Quando faleceu o pai da Santa penitente, ofereceu ela por aquela
alma querida muitas orações e toda sorte de sufrágios, penitências e santas
Comunhões.
Deus Nosso Senhor lhe fez conhecer que
as suas orações aliviaram as almas do seu pai e da mãe, e que tiveram muito
abreviados dias de purgatório.
Também ao saber da morte de uma criada, Gillia, que durante muito tempo ficou com ela, Margari­da
não cessou de recomendar esta alma da pobrezi­nha a Nosso Senhor. Foi-lhe
revelado que a criada ficaria no purgatório apenas até a festa da Purifi­cação
de Nossa Senhora e logo seria levada ao céu pelos Anjos.

Na hora da morte, Santa Margarida de
Cortona viu uma multidão de almas com esplendor da glória do céu que vinham ao
encontro da sua benfeitora, cheias de gratidão. Era a recompensa da sua dedi­cação
e devoção às almas do purgatório.