‘Se as Missas fossem celebradas no modo tradicional, as igrejas estariam cheias’ – diz Pe. Laguérie

‘O Papa nota que, quando se suprimiu a missa
tradicional, acreditava-se que as pessoas que seguiam ligadas a ela eram
velhos, nostálgicos. Mas o que se vê é justamente o contrário: há uma
preponderância de jovens pedindo a volta da missa antiga…’


Entrevista com Pe. Laguérie, superior
geral do Instituto do Bom Pastor (IBP).

“Se as Missas fossem celebradas no modo tradicional, as igrejas estariam
cheias. Toda vez que a liturgia é deteriorada, as igrejas se esvaziam”, diz Pe.
Laguérie, fundador e superior geral do Instituto Bom Pastor.

Leia a seguir entrevista com o padre Philippe Laguérie.

FOLHA – A retomada da missa tradicional causou grande repercussão
devido a um trecho em que cita os judeus. Como avalia a polêmica?

PE. LAGUÉRIE – Na missa propriamente dita, essa que é celebrada
todos os dias, não há nada, nenhuma referência aos judeus. Existia uma
referência aos judeus na liturgia da Sexta-feira Santa, que não é uma missa.
Reclamava-se de um texto que falava dos “pérfidos judeus”, mas ele foi
suprimido pelo papa João XXIII, justamente a missa que o papa Bento XVI ressuscitou.
Então, essa é uma falsa questão.

FOLHA – Mas a liturgia da Sexta-feira Santa ainda mantém a
afirmação de que os judeus necessitam ser esclarecidos sobre Jesus Cristo
[“Oremos pelos judeus, para que Deus retire o véu que cobre seus corações e
lhes faça conhecer nosso Senhor Jesus Cristo”].

PE. LAGUÉRIE – Certamente, eles têm de ser esclarecidos sobre a
divindade de Jesus Cristo. Pede-se que os judeus, os muçulmanos, os infiéis de
maneira geral sejam esclarecidos sobre Jesus Cristo.
Fala-se de 15 categorias de pessoas – os catecúmenos, os hereges, os
cismáticos, os pagãos -, pede-se a todos que conheçam a luz de Cristo.
Pede-se até que sejam esclarecidos o Papa, os Bispos e todo o Clero a respeito
da divindade de Cristo, que conheçam a luz de Cristo. Então, não há nenhuma
referência especial aos judeus.

FOLHA – O Vaticano publicou outro documento, que traz a idéia de
superioridade da Igreja Católica sobre as demais igrejas cristãs, ao afirmar
que a igreja de Cristo é a Igreja Católica. O sr. pode esclarecer esse ponto?

PE. LAGUÉRIE – O que o Papa diz no documento é que a afirmação do
Concílio de que “a Igreja Católica subsiste na Igreja de Cristo” significa “a
Igreja Católica é a Igreja de Cristo” ainda com mais força. Não só diz que a
Igreja Católica é a Igreja de Cristo atualmente, mas que sempre o foi, desde o
início. Além disso, o Papa define quem a Igreja Católica reconhece como Igreja.
Ele admite que se chamem de Igrejas as
ortodoxas, porque elas conservaram o sacerdócio, a sucessão apostólica e a missa
católica.
Embora possam ser chamadas de Igreja, não são Igrejas de Cristo, porque não têm
a comunhão com Roma, condição essencial para ser Igreja de Cristo.
Porém o papa não reconhece o nome de
Igreja a todos os movimentos surgidos da reforma protestante, porque eles não
têm a doutrina católica.
Não é o objetivo do documento
estabelecer um “hit parade” das igrejas, dizer qual é a melhor, mas definir
quem é Igreja ou não segundo o Vaticano.

FOLHA – Quais as principais diferenças entre a missa tradicional e
a missa rezada hoje?

PE. LAGUÉRIE – Há muita, muita, muita diferença. Em primeiro lugar,
na missa antiga, todos rezam voltados para Deus e voltados para o Oriente, onde
nasce o sol, que simboliza a luz de Cristo e o surgimento da verdade. Somente
na explicação do Evangelho, nas leituras e no sermão, o padre se volta para o
povo, pois está se dirigindo a ele. Na missa nova, o padre reza sempre voltado
para o povo.
A segunda diferença é a língua sagrada,
o latim. Nós não nos dirigimos a Deus na mesma língua que usamos nas compras,
nos negócios, no dia-a-dia.
Sempre houve na Igreja, mesmo no
Oriente, uma língua sagrada para falar com Deus. Na Síria, rezava-se a missa em
aramaico; na Judéia, rezava-se a missa em siríaco. Em terceiro lugar, os
próprios textos da missa são diferentes: na missa nova não se fala mais do
sacrifício, nem do pecado, nem da vida eterna, nem da redenção.

FOLHA – Essa volta à missa antiga pode ser vista como exemplo de um
retorno da Igreja Católica, sob Bento XVI, ao conservadorismo?


PE. LAGUÉRIE – A nova missa corresponde à teologia dos anos 1960. A
missa antiga, a uma teologia que foi eterna na Igreja Católica.

FOLHA – Existe alguma estimativa do número de católicos adeptos
desse rito antigo?

PE. LAGUÉRIE – Duas pesquisas feitas na França em maio, por
institutos não-católicos, constataram que 68% dos franceses, mesmo
não-católicos, se diziam adeptos da missa tradicional.

FOLHA –
 A idéia que se tem é justamente a
inversa: que a missa rezada em latim pode afastar os fiéis. Como o sr. explica
isso?

PE. LAGUÉRIE – O Papa disse que, de fato, recuou muito o
conhecimento do latim e que isso pode diminuir a demanda pela missa
tradicional. Mas não é preciso conhecer latim para apreciar a missa antiga.
Além disso, o Papa nota que, quando se suprimiu a missa
tradicional, acreditava-se que as pessoas que seguiam ligadas a ela eram
velhos, nostálgicos. Mas o que se vê é justamente o contrário: há uma
preponderância de jovens pedindo a volta da missa antiga.

Fonte: Folha


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