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Santo Afonso Maria de Ligório – O Pecador Abandonado por Deus

DESTAQUE
Pergunta o profeta Jeremias:
Quare via impiorum prosperatur? (5) — “Porque é próspero o caminho dos ímpios?”
E responde: Congregas eos quasi gregem ad victimam — “Ajunta-os como rebanho para
o matadouro”. Não há maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar
pecados sobre pecados. Fora melhor para o desgraçado que o Senhor o tivesse
feito morrer em seguida ao primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá
tantos infernos a padecer, quantos foram os pecados cometidos.

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Santo
Afonso Maria de Ligório – O Pecador Abandonado por Deus








Curavimus Babylonem,
et non est sanata; derelinquamus eam — “Medicamos a Babilônia, e ela não sarou;
deixemo-la” (Jer. 51, 9).

Sumário. Não há maior castigo do que Deus fingir que não vê a iniquidade.
Permite que os pecadores prosperem e amontoem pecados sobre pecados. É sinal de
que Deus os reserva para entrega-los à sua justiça na vida eterna, onde terão
tantos infernos a padecer, quantos foram os pecados cometidos. Desgraçados dos
pecadores que prosperam nesta vida. Tal misericórdia é mais terrível do
qualquer castigo.

I. Deus
espera o pecador, a fim de que se corrija. Quando vê, porém, que o tempo que
lhe é dado para chorar os pecados, só serve para multiplica-los, esse mesmo
tempo será chamado a depor contra ele (1): isso é, o tempo concedido e as
misericórdias recebidas servirão para fazer castigar o pecador com mais rigor e
para entrega-lo mais cedo ao abandono. Curavimus Babyloniam, et non est sanata;
derelinquamus eam — “Medicamos a Babilônia, e ela não sarou; deixemo-la”. — E
como é que Deus o abandona?
Ou lhe envia a morte e o faz
morrer no pecado, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça
suficiente, com que o pecador se poderia salvar, mas não se salvará. O espírito
obcecado, o coração endurecido, o mau hábito contraído, tornar-lhe-ão a
salvação moralmente impossível, e assim ficará, senão absolutamente, ao menos
moralmente abandonado.



Auferam sepem eius, et erit in direptionem (2) — “Arrancar-lhe-ei a sebe e ficará
exposta a ser roubada”. Que castigo! Quando o dono de uma vinha arranca a sebe
e deixa entrar nela todos os homens e animais, que significa isto? Significa
que a abandona. Pois, é o que faz Deus quando abandona uma alma: tira-lhe a
sebe do temor de Deus, dos remorsos da consciência e deixa-a nas trevas. Então
entram na alma todos os monstros dos vícios. E o pecador, entregue a esta
escuridão, desprezará tudo, graça de Deus, paraíso, exortações, censuras, e até
escarnecerá da sua própria condenação. Impius, cum in
profundum venerit peccatorum, contemnet (3) — “O ímpio, depois de haver chegado
ao profundo dos pecados, desprezará tudo”.

Numa palavra, Deus deixá-lo-á nesta vida sem
castigo; mas esta condescendência será para ele o maior dos castigos:
Misereamur impio, et non discet iustitiam (4) — “Compadeçamo-nos do ímpio, e ele
não aprenderá a justiça”.

Ah! Senhor (assim Vos direi com
São Bernardo), não quero semelhante misericórdia, porque é mais terrível do que
qualquer castigo.



II. Desgraçados dos pecadores que prosperam nesta vida! É sinal de que Deus os
reserva para entrega-los como vítimas à sua justiça na vida eterna.
Pergunta o profeta Jeremias: Quare via impiorum prosperatur? (5) —
“Porque é próspero o caminho dos ímpios?” E responde: Congregas eos quasi gregem
ad victimam — “Ajunta-os como rebanho para o matadouro”. Não há maior castigo
do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados. Fora melhor para
o desgraçado que o Senhor o tivesse feito morrer em seguida ao primeiro pecado;
porque, morrendo mais tarde, terá tantos infernos a padecer, quantos foram os
pecados cometidos.

Meu Deus, no miserável estado em que me acho, reconheço que mereci ser privado
da vossa graça e da vossa luz; mas vendo as luzes que agora me concedeis e
ouvindo que me chamais à penitência, estou certo que não me abandonastes ainda.
Já que não me haveis abandonado, Senhor, multiplicai as vossas misericórdias
sobre a minha alma, aumentai a luz e aumentai em mim o desejo de Vos servir e
amar. Transformai-me, ó Deus onipotente, e de traidor e rebelde, como tenho
sido, fazei de mim um verdadeiro amante da vossa bondade, a fim de que chegue
um dia ao céu a louvar eternamente as vossas misericórdias. Vós quereis
perdoar-me e eu nada mais desejo senão o perdão e o vosso amor.

Arrependo-me, ó Bondade infinita, de Vos ter causado tantos desgostos. Amo-Vos,
soberano Bem, porque mo ordenais; amo-Vos, porque sois digno de todo o amor.
Suplico-Vos, meu Redentor, pelos méritos do vosso Sangue, que Vos façais amar
por um pecador, que tanto tendes amado e que tantos anos sofrestes com
paciência. Tudo espero da vossa misericórdia. Espero amar-vos sempre no futuro,
até à morte e por toda a eternidade: Misericordias Domini in aeternum cantabo
(6). Eternamente louvarei a vossa bondade, ó Jesus meu. Eternamente louvarei
também a vossa misericórdia, ó Maria, que tantas graças me haveis alcançado;
reconheço que as devo todas à vossa intercessão. Continuai a assistir-me, ó
Senhora minha, e obtende-me a santa perseverança. (II 78.)


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1. Thren.
1, 15.
2. Is. 5, 5.
3. Prov. 18, 3.
4. Is. 26, 10.
5. Ier. 12, 1.
6. Ps. 88, 2.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano:
Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive.
Friburgo: Herder& Cia, 1921, p. 216-218.)