O caso singular do bispo Robert Grossateste
Por Cristiana de Magistris | Tradução: Fratresin Unum.com * – O nome do bispo
inglês Robert Grossateste (1175-1253) é quase totalmente desconhecido do mundo
italiano. Para os poucos que têm alguma erudição, ele é notável por sua
genialidade no campo científico, onde suas obras são consideradas de valor
inestimável, a ponto de lhe terem merecido o título de “pioneiro” de um
movimento científico e literário, bem como de “primeiro” matemático e físico de
seu tempo.
inglês Robert Grossateste (1175-1253) é quase totalmente desconhecido do mundo
italiano. Para os poucos que têm alguma erudição, ele é notável por sua
genialidade no campo científico, onde suas obras são consideradas de valor
inestimável, a ponto de lhe terem merecido o título de “pioneiro” de um
movimento científico e literário, bem como de “primeiro” matemático e físico de
seu tempo.
Mas Robert
Grossetesta foi acima de tudo um Bispo santo, que se distinguiu por seu zelo em
promover a salus animarum e por seu amor ao papado.
Grossetesta foi acima de tudo um Bispo santo, que se distinguiu por seu zelo em
promover a salus animarum e por seu amor ao papado.
Mente absolutamente prodigiosa e versada não apenas
em estudos científicos, mas também no literário, teológico e bíblico, Robert
Grossateste tornou-se bispo de Lincoln em 1235. “Desde que fui nomeado bispo –
escreveu – considero-me o pastor e guarda das almas que me comprometo a cuidar
com toda a minha força, porque do rebanho que me foi confiado vou prestar
estrita conta no Dia do Juízo” [1]. Seu principal objetivo era de “reformar a
sociedade através da reforma do clero” [2]. A disciplina austera que exigia de
seus sacerdotes era conhecida em toda a Inglaterra: renúncia à recompensa
pecuniária, obrigação de residência, reverência na celebração da Santa Missa,
fidelidade na recitação do Ofício Divino, educação do povo, total
disponibilidade para os doentes e as crianças. Com essas regras, o bispo inglês,
além de elevar o nível das pregações e do ensino do clero, queria melhorar sua
conduta moral.
em estudos científicos, mas também no literário, teológico e bíblico, Robert
Grossateste tornou-se bispo de Lincoln em 1235. “Desde que fui nomeado bispo –
escreveu – considero-me o pastor e guarda das almas que me comprometo a cuidar
com toda a minha força, porque do rebanho que me foi confiado vou prestar
estrita conta no Dia do Juízo” [1]. Seu principal objetivo era de “reformar a
sociedade através da reforma do clero” [2]. A disciplina austera que exigia de
seus sacerdotes era conhecida em toda a Inglaterra: renúncia à recompensa
pecuniária, obrigação de residência, reverência na celebração da Santa Missa,
fidelidade na recitação do Ofício Divino, educação do povo, total
disponibilidade para os doentes e as crianças. Com essas regras, o bispo inglês,
além de elevar o nível das pregações e do ensino do clero, queria melhorar sua
conduta moral.
Mas uma das
características mais originais de Grossateste foi a sua veneração pelo primado
petrino, descrita nestes termos por um de seus biógrafos: “O mais interessante
aspecto da teoria de Grossateste na formação e função da hierarquia
eclesiástica é a exaltação do Papado. Ele foi provavelmente o papista mais
fervoroso e resoluto entre os escritores ingleses medievais.” [3]
características mais originais de Grossateste foi a sua veneração pelo primado
petrino, descrita nestes termos por um de seus biógrafos: “O mais interessante
aspecto da teoria de Grossateste na formação e função da hierarquia
eclesiástica é a exaltação do Papado. Ele foi provavelmente o papista mais
fervoroso e resoluto entre os escritores ingleses medievais.” [3]
Tal veneração pela plenitudo potestatis do
Romano Pontífice assume um significado todo especial e um alcance mais
interessante em relação à sua próxima resistência a Inocêncio IV.
Romano Pontífice assume um significado todo especial e um alcance mais
interessante em relação à sua próxima resistência a Inocêncio IV.
No ano de 1239, em discurso dirigido ao Decano e ao
Capítulo de Lincoln sobre a hierarquia eclesiástica, Grossateste disse: “[…]
seguindo o prefigurado no Antigo Testamento, o Senhor Papa tem o primado do
poder sobre as nações e sobre os reinos, tem o poder de demolir e erradicar,
destruir e dispersar, plantar e construir […] Samuel era entre o povo de
Israel como um sol, assim como na Igreja universal é o Papa e todos os bispos
em suas dioceses”. [4]
Capítulo de Lincoln sobre a hierarquia eclesiástica, Grossateste disse: “[…]
seguindo o prefigurado no Antigo Testamento, o Senhor Papa tem o primado do
poder sobre as nações e sobre os reinos, tem o poder de demolir e erradicar,
destruir e dispersar, plantar e construir […] Samuel era entre o povo de
Israel como um sol, assim como na Igreja universal é o Papa e todos os bispos
em suas dioceses”. [4]
Em 1237, escreveu
ele a um legado pontifício: “Deus não permita que a Santa Sé e os que a
presidem, aos quais normalmente cumpre prestar obediência em tudo quanto
ordenam, tornem-se, pelo contrário, a causa da perda da fé para as pessoas que
comandam, o que é contrário aos preceitos de Cristo e à Sua vontade. Deus não
permita que para qualquer pessoa verdadeiramente unida a Cristo, não querendo
de forma alguma ir contra a Sua Vontade, esta Sé e aqueles que a presidem
possam ser causa da perda da fé ou de aparente cisma, ordenando fazer aquilo
que se opõe à vontade de Cristo.”
ele a um legado pontifício: “Deus não permita que a Santa Sé e os que a
presidem, aos quais normalmente cumpre prestar obediência em tudo quanto
ordenam, tornem-se, pelo contrário, a causa da perda da fé para as pessoas que
comandam, o que é contrário aos preceitos de Cristo e à Sua vontade. Deus não
permita que para qualquer pessoa verdadeiramente unida a Cristo, não querendo
de forma alguma ir contra a Sua Vontade, esta Sé e aqueles que a presidem
possam ser causa da perda da fé ou de aparente cisma, ordenando fazer aquilo
que se opõe à vontade de Cristo.”
O bispo Grossateste
via com horror a simples idéia de desobedecer à autoridade eclesiástica
legalmente constituída, pois considerava a obediência como a única resposta
adequada a tal autoridade que vem de Deus. Mas a autoridade existe dentro de
limites claramente definidos. Não há nenhuma autoridade além desses limites
– ultra vires – e recusar-se a obedecer à autoridade quando
ela ultrapassa esses limites não é um ato de desobediência, mas a afirmação de
que a autoridade está abusando de seu poder. Muitos teólogos, como Suárez,
acreditam que é lícito resistir até ao Papa, “se este faz algo manifestamente
oposto à justiça e ao bem comum” [5].
via com horror a simples idéia de desobedecer à autoridade eclesiástica
legalmente constituída, pois considerava a obediência como a única resposta
adequada a tal autoridade que vem de Deus. Mas a autoridade existe dentro de
limites claramente definidos. Não há nenhuma autoridade além desses limites
– ultra vires – e recusar-se a obedecer à autoridade quando
ela ultrapassa esses limites não é um ato de desobediência, mas a afirmação de
que a autoridade está abusando de seu poder. Muitos teólogos, como Suárez,
acreditam que é lícito resistir até ao Papa, “se este faz algo manifestamente
oposto à justiça e ao bem comum” [5].
Ninguém na Idade
Média era tão convencido como Grossateste de que o Papa possuía a plenitudo
potestatis. Mas, com os medievais de seu tempo, ele sustentava que tal poder
não é um poder arbitrário, e sim um ofício a ele conferido “para o serviço de
todo o Corpo (de Cristo)”, que é a Igreja. Tal poder é dado ao Papa para a
salvação das almas, para edificar o Corpo de Cristo, e não para destruí-lo. O
Papa – nós não devemos nos esquecer – é o Vigário de Cristo, não o próprio
Cristo, e deve exercer seu poder de acordo com a vontade de Cristo, e não em
manifesto conflito com esta. Deus não permita – dizia Grossateste – que a Santa
Sé se torne a “causa” de um aparente cisma, ordenando aos fieis qualquer coisa
que se opõe à Vontade de Cristo Senhor.
Média era tão convencido como Grossateste de que o Papa possuía a plenitudo
potestatis. Mas, com os medievais de seu tempo, ele sustentava que tal poder
não é um poder arbitrário, e sim um ofício a ele conferido “para o serviço de
todo o Corpo (de Cristo)”, que é a Igreja. Tal poder é dado ao Papa para a
salvação das almas, para edificar o Corpo de Cristo, e não para destruí-lo. O
Papa – nós não devemos nos esquecer – é o Vigário de Cristo, não o próprio
Cristo, e deve exercer seu poder de acordo com a vontade de Cristo, e não em
manifesto conflito com esta. Deus não permita – dizia Grossateste – que a Santa
Sé se torne a “causa” de um aparente cisma, ordenando aos fieis qualquer coisa
que se opõe à Vontade de Cristo Senhor.
A ocasião que provocou a resistência de Grossateste
dizia respeito ao problema dos benefícios eclesiásticos, cuja primeira função
era o cuidado das almas. A complexa relação Igreja-Estado daquele tempo
transtornou essa função, sendo os benefícios muitas vezes largamente concedidos
a clérigos que não teriam podido (ou querido) de nenhum modo cuidar da grei a
eles confiada. Aconteceu de o próprio Papa nomear para [receber] um benefício, uma
prebenda ou um cabido, eclesiásticos que com frequência não residiam no lugar
para o qual haviam sido designados, ou em alguns casos eram incapazes por um
motivo ou por outro de se ocuparem disso. Por sua alta estima ao Papado,
Grossateste se opôs a esta prática, que tinha forte odor de simonia e às vezes
de nepotismo. Ele aceitou plenamente as nomeações do Papa quando os
beneficiários NÃO estavam em condição de cumprir as funções para as quais
recebiam os benefícios. Tanto o poder papal quanto os benefícios tinham de fato
para Grossetesta um único objetivo: a salvação das almas.
dizia respeito ao problema dos benefícios eclesiásticos, cuja primeira função
era o cuidado das almas. A complexa relação Igreja-Estado daquele tempo
transtornou essa função, sendo os benefícios muitas vezes largamente concedidos
a clérigos que não teriam podido (ou querido) de nenhum modo cuidar da grei a
eles confiada. Aconteceu de o próprio Papa nomear para [receber] um benefício, uma
prebenda ou um cabido, eclesiásticos que com frequência não residiam no lugar
para o qual haviam sido designados, ou em alguns casos eram incapazes por um
motivo ou por outro de se ocuparem disso. Por sua alta estima ao Papado,
Grossateste se opôs a esta prática, que tinha forte odor de simonia e às vezes
de nepotismo. Ele aceitou plenamente as nomeações do Papa quando os
beneficiários NÃO estavam em condição de cumprir as funções para as quais
recebiam os benefícios. Tanto o poder papal quanto os benefícios tinham de fato
para Grossetesta um único objetivo: a salvação das almas.
O Bispo inglês resistiu a este estado de decadência
com todos os meios possíveis, especialmente através de um uso inteligente e
sábio do direito canônico. Em 1250, já
octogenário, ele foi até Lyon – onde então residia Inocêncio IV – e
confrontou-se com o Papa em pessoa. “Ele simplesmente levantou-se […]. O Papa
Inocêncio sentou-se com os seus cardeais e familiares para ouvir o ataque mais
veemente e completo que um papa jamais ouviu em pleno uso de seu poder” (6).
com todos os meios possíveis, especialmente através de um uso inteligente e
sábio do direito canônico. Em 1250, já
octogenário, ele foi até Lyon – onde então residia Inocêncio IV – e
confrontou-se com o Papa em pessoa. “Ele simplesmente levantou-se […]. O Papa
Inocêncio sentou-se com os seus cardeais e familiares para ouvir o ataque mais
veemente e completo que um papa jamais ouviu em pleno uso de seu poder” (6).
O objeto da acusação era a falta de cuidado
pastoral, que colocava a Igreja em um estado de profundo sofrimento. “O ofício
dos pastores encontra-se em condições miseráveis. E a causa do mal deve ser
encontrada na Cúria papal […] que provê maus pastores para seu rebanho. O que
é um ofício pastoral? Suas funções são variadas, mas, em particular, envolve o
dever de visitas (aos fiéis) … ” [7]. Agora, como poderia um pastor não
residente prover a seu rebanho? A esta questão nem sequer o Papa podia
responder. Grossateste, além disso, ensinava
mais pelo exemplo do que com palavras. Anos antes, em 1232, ele havia desistido
de todos seus benefícios e gratificações, exceto uma prebenda que detinha em
Lincoln, algo que o tinha coberto de ridículo aos olhos dos contemporâneos. Mas
ele respondeu com estas palavras sublimes que revelam a nobreza de sua alma:
“Se forem mais desprezados aos olhos do mundo, então serão mais agradáveis aos cidadãos do céu” [8] .
pastoral, que colocava a Igreja em um estado de profundo sofrimento. “O ofício
dos pastores encontra-se em condições miseráveis. E a causa do mal deve ser
encontrada na Cúria papal […] que provê maus pastores para seu rebanho. O que
é um ofício pastoral? Suas funções são variadas, mas, em particular, envolve o
dever de visitas (aos fiéis) … ” [7]. Agora, como poderia um pastor não
residente prover a seu rebanho? A esta questão nem sequer o Papa podia
responder. Grossateste, além disso, ensinava
mais pelo exemplo do que com palavras. Anos antes, em 1232, ele havia desistido
de todos seus benefícios e gratificações, exceto uma prebenda que detinha em
Lincoln, algo que o tinha coberto de ridículo aos olhos dos contemporâneos. Mas
ele respondeu com estas palavras sublimes que revelam a nobreza de sua alma:
“Se forem mais desprezados aos olhos do mundo, então serão mais agradáveis aos cidadãos do céu” [8] .
A heroica visita do Bispo inglês a Inocêncio IV –
heroica tanto pela ousadia do evento quanto pela idade avançada de Grossateste
– não teve nenhum efeito. O Papa dependia do sistema de comissão para manter a
Cúria e para financiar as guerras intermináveis contra
Frederico II.
heroica tanto pela ousadia do evento quanto pela idade avançada de Grossateste
– não teve nenhum efeito. O Papa dependia do sistema de comissão para manter a
Cúria e para financiar as guerras intermináveis contra
Frederico II.
Em 1253, o Papa deu a seu sobrinho, Frederico de
Lavagna, um canonicato na catedral de Lincoln. Grossateste recebeu a ordem de
colocar em execução a vontade do Pontífice Romano e encontrou-se num terrível
dilema. A ordem do Papa era absolutamente legal, já que ele tinha todo o
direito de atribuir um canonicato e, como tal, era necessário obedecer. Mas,
apesar de ser legal, a ordem era um claro “abuso de poder”, porquanto o
sobrinho do papa nunca pusera os pés na terra dos anglos e, portanto, nunca
exerceu seu ministério em Lincoln, para o qual, no entanto, teria recebido o
benefício.
Lavagna, um canonicato na catedral de Lincoln. Grossateste recebeu a ordem de
colocar em execução a vontade do Pontífice Romano e encontrou-se num terrível
dilema. A ordem do Papa era absolutamente legal, já que ele tinha todo o
direito de atribuir um canonicato e, como tal, era necessário obedecer. Mas,
apesar de ser legal, a ordem era um claro “abuso de poder”, porquanto o
sobrinho do papa nunca pusera os pés na terra dos anglos e, portanto, nunca
exerceu seu ministério em Lincoln, para o qual, no entanto, teria recebido o
benefício.
Neste caso, o Papa
usou de seu cargo de Vigário de Cristo em sentido oposto àquele para o qual ele
estava revestido. A resposta de Grossateste foi recusar obedecer a uma ordem
que era um claro abuso de poder. O Papa naquele momento estava agindo ultra
vires, ou seja, além dos limites de sua autoridade. A resistência de
Grossetesta não foi pelo fato de ele desconhecer a autoridade do Papa, mas pela
imensa estima e respeito que tinha por esta.
usou de seu cargo de Vigário de Cristo em sentido oposto àquele para o qual ele
estava revestido. A resposta de Grossateste foi recusar obedecer a uma ordem
que era um claro abuso de poder. O Papa naquele momento estava agindo ultra
vires, ou seja, além dos limites de sua autoridade. A resistência de
Grossetesta não foi pelo fato de ele desconhecer a autoridade do Papa, mas pela
imensa estima e respeito que tinha por esta.
O bispo Grossateste se recusou a dar ao sobrinho do
Papa o canonicato da Catedral de Lincoln e escreveu uma carta de reclamação e
recusa, não para o Papa em pessoa, mas a um comissário, Mestre Inocêncio,
através do qual ele recebera a ordem.
Papa o canonicato da Catedral de Lincoln e escreveu uma carta de reclamação e
recusa, não para o Papa em pessoa, mas a um comissário, Mestre Inocêncio,
através do qual ele recebera a ordem.
Eis o que ele
afirma: “Nenhum fiel sujeito à Santa Sé, nenhum homem que não está excluído
pelo cisma do Corpo de Cristo e da Sé Apostólica, pode obedecer a
determinações, regras ou outras ordens desse tipo, mesmo que elas viessem do mais
alto coro de Anjos. Ele deve rejeitá-las e rejeitá-las com toda a sua força.
Pela obediência que me liga e pelo amor que tenho à Santa Sé no Corpo de
Cristo, como filho obediente eu desobedeço, contradigo e rebelo-me.
Não se pode fazer nada contra mim, porque cada palavra minha e cada ação minha
não é uma rebelião, mas um ato de honra filial devido ao pai e à mãe por meio
do mandamento de Deus. Como eu disse, a Sé Apostólica em sua santidade não pode
destruir, mas somente construir. Esta é a plenitudo potestatis:
deve fazer tudo para a edificação. Agora, essas chamadas “comissões” não
constroem, mas destroem. Elas não podem ser obra da Sé Apostólica, porquanto
são ditadas “pela carne e pelo sangue”, que não possuem o reino de Deus, e nem
do Pai que está nos céus ” [9].
afirma: “Nenhum fiel sujeito à Santa Sé, nenhum homem que não está excluído
pelo cisma do Corpo de Cristo e da Sé Apostólica, pode obedecer a
determinações, regras ou outras ordens desse tipo, mesmo que elas viessem do mais
alto coro de Anjos. Ele deve rejeitá-las e rejeitá-las com toda a sua força.
Pela obediência que me liga e pelo amor que tenho à Santa Sé no Corpo de
Cristo, como filho obediente eu desobedeço, contradigo e rebelo-me.
Não se pode fazer nada contra mim, porque cada palavra minha e cada ação minha
não é uma rebelião, mas um ato de honra filial devido ao pai e à mãe por meio
do mandamento de Deus. Como eu disse, a Sé Apostólica em sua santidade não pode
destruir, mas somente construir. Esta é a plenitudo potestatis:
deve fazer tudo para a edificação. Agora, essas chamadas “comissões” não
constroem, mas destroem. Elas não podem ser obra da Sé Apostólica, porquanto
são ditadas “pela carne e pelo sangue”, que não possuem o reino de Deus, e nem
do Pai que está nos céus ” [9].
Comentando essas
palavras, W. A. Pantin, em seu estudo sobre a relação entre o bispo Grossateste
e o Papado, escreve: “Parece haver duas linhas de pensamento aqui. A primeira,
de acordo com a qual aplenitudo potestatis existe para edificação e
não para destruição, todo ato tendente à destruição ou à ruína das almas não
pode ser considerado um verdadeiro exercício da plenitudo potestatis…
A segunda, conforme a qual, se o Papa ou qualquer outra pessoa ordenasse algo
contrário à lei de Deus, então seria errado obedecer, e, finalmente, ao se
afirmar a própria fidelidade, deve-se recusar a obedecer. O problema básico é
que, enquanto a doutrina da Igreja é sobrenaturalmente garantida contra o erro,
os ministros da Igreja, do Papa para baixo, não são impecáveis e podem formular julgamentos e emitir ordens
erradas”[10].
palavras, W. A. Pantin, em seu estudo sobre a relação entre o bispo Grossateste
e o Papado, escreve: “Parece haver duas linhas de pensamento aqui. A primeira,
de acordo com a qual aplenitudo potestatis existe para edificação e
não para destruição, todo ato tendente à destruição ou à ruína das almas não
pode ser considerado um verdadeiro exercício da plenitudo potestatis…
A segunda, conforme a qual, se o Papa ou qualquer outra pessoa ordenasse algo
contrário à lei de Deus, então seria errado obedecer, e, finalmente, ao se
afirmar a própria fidelidade, deve-se recusar a obedecer. O problema básico é
que, enquanto a doutrina da Igreja é sobrenaturalmente garantida contra o erro,
os ministros da Igreja, do Papa para baixo, não são impecáveis e podem formular julgamentos e emitir ordens
erradas”[10].
“Não se pode fazer nada contra mim”, protestou
Grossateste, e os acontecimentos deram razão a ele. Quando Inocêncio IV leu a
carta, irritado além da medida, queria pedir sua prisão, mas os cardeais o
dissuadiram. “Sua Santidade – disseram – não tem nada que fazer. Não podemos
condená-lo. Ele é um homem católico e santo, o melhor homem que temos, sem
igual entre os outros prelados. O clero francês e inglês sabe disso e nossa
intervenção não teria nenhuma vantagem. A verdade contida nesta carta, que é
provavelmente conhecida de muitos, poderia empurrar os outros a agir contra
nós. Grossetesta é estimado como um grande filósofo, conhecedor da literatura
latina e grega, zeloso pela justiça, teólogo, pregador e inimigo de abuso.”
[11]
Grossateste, e os acontecimentos deram razão a ele. Quando Inocêncio IV leu a
carta, irritado além da medida, queria pedir sua prisão, mas os cardeais o
dissuadiram. “Sua Santidade – disseram – não tem nada que fazer. Não podemos
condená-lo. Ele é um homem católico e santo, o melhor homem que temos, sem
igual entre os outros prelados. O clero francês e inglês sabe disso e nossa
intervenção não teria nenhuma vantagem. A verdade contida nesta carta, que é
provavelmente conhecida de muitos, poderia empurrar os outros a agir contra
nós. Grossetesta é estimado como um grande filósofo, conhecedor da literatura
latina e grega, zeloso pela justiça, teólogo, pregador e inimigo de abuso.”
[11]
Inocêncio IV percebeu que a melhor coisa a fazer
era abster-se de qualquer intervenção. E assim foi. Nesse mesmo ano de 1253, o
Grossateste morreu. Em seu túmulo aconteceram muitos milagres e logo se tornou
um local de culto e devoção, nem faltaram tentativas para dar início à sua
causa de canonização. [12] A Inglaterra possui apenas um outro santo bispo,
John Fisher, cujo amor e lealdade para com a Santa Sé não excedia o de
Grossateste. Certamente, se este tivesse vivido nos dias de John Fisher, não
teria hesitado em dar, como ele, a vida pela Sé Apostólica. Mas também é certo
que, se John Fisher tivesse vivido no século XIII, sob o pontificado de
Inocêncio IV, teria resistido aos abusos do poder papal.
era abster-se de qualquer intervenção. E assim foi. Nesse mesmo ano de 1253, o
Grossateste morreu. Em seu túmulo aconteceram muitos milagres e logo se tornou
um local de culto e devoção, nem faltaram tentativas para dar início à sua
causa de canonização. [12] A Inglaterra possui apenas um outro santo bispo,
John Fisher, cujo amor e lealdade para com a Santa Sé não excedia o de
Grossateste. Certamente, se este tivesse vivido nos dias de John Fisher, não
teria hesitado em dar, como ele, a vida pela Sé Apostólica. Mas também é certo
que, se John Fisher tivesse vivido no século XIII, sob o pontificado de
Inocêncio IV, teria resistido aos abusos do poder papal.
O caso do bispo
Grossateste reveste-se de particular importância, pois sua resistência não é
motivada por heresia, em cujo caso é opinião comum que não é necessário
obedecer. Ele não defendeu a ortodoxia católica, mas se recusou a colocar em
prática uma diretiva do Papa que ele considerava prejudicial para asalus
animarum.
Grossateste reveste-se de particular importância, pois sua resistência não é
motivada por heresia, em cujo caso é opinião comum que não é necessário
obedecer. Ele não defendeu a ortodoxia católica, mas se recusou a colocar em
prática uma diretiva do Papa que ele considerava prejudicial para asalus
animarum.
O “caso
Grossateste” fez história. Sylvester Prierias, insigne dominicano e estrênuo
defensor da autoridade papal, em seu Dialogus de Potestate Papae (1517),
citando as palavras e o exemplo de Grossateste, afirmou que o Sumo Pontífice
pode abusar de seu poder: “Se o Papa quisesse desperdiçar os bens da Igreja ou
distribuí-los aos seus familiares, se quisesse destruir a Igreja ou praticar
qualquer ato dessa magnitude, então seria um dever impedi-lo e uma obrigação
opor-se a ele e resistir-lhe. A razão é que ele não possui o poder de destruir.
Disto se segue que, se ele agisse assim, seria legítimo resistir-lhe”.
Grossateste” fez história. Sylvester Prierias, insigne dominicano e estrênuo
defensor da autoridade papal, em seu Dialogus de Potestate Papae (1517),
citando as palavras e o exemplo de Grossateste, afirmou que o Sumo Pontífice
pode abusar de seu poder: “Se o Papa quisesse desperdiçar os bens da Igreja ou
distribuí-los aos seus familiares, se quisesse destruir a Igreja ou praticar
qualquer ato dessa magnitude, então seria um dever impedi-lo e uma obrigação
opor-se a ele e resistir-lhe. A razão é que ele não possui o poder de destruir.
Disto se segue que, se ele agisse assim, seria legítimo resistir-lhe”.
Durante o Concílio
Vaticano I, o caso Grossateste foi mencionado várias vezes, não para condenar a
resistência do bispo Inglês, mas para mostrar que a plenitudo
potestatis do Romano Pontífice – não obstante a infalibilidade papal
que aquele Concílio estava para definir – tem limites bem definidos, não sendo
nem absoluta nem arbitrária.
Vaticano I, o caso Grossateste foi mencionado várias vezes, não para condenar a
resistência do bispo Inglês, mas para mostrar que a plenitudo
potestatis do Romano Pontífice – não obstante a infalibilidade papal
que aquele Concílio estava para definir – tem limites bem definidos, não sendo
nem absoluta nem arbitrária.
Ecoando as palavras de Grossateste – “a Sé
Apostólica em sua santidade não pode destruir, mas apenas construir” – o bispo
D’Avanzo disse no Concílio: “Pedro tem tanto poder quanto quis dar-lhe Nosso
Senhor, não para a destruição, mas para a edificação do Corpo de Cristo que é a
Igreja.” [13]
Apostólica em sua santidade não pode destruir, mas apenas construir” – o bispo
D’Avanzo disse no Concílio: “Pedro tem tanto poder quanto quis dar-lhe Nosso
Senhor, não para a destruição, mas para a edificação do Corpo de Cristo que é a
Igreja.” [13]
E assim, depois de seis séculos, a resistência do
maior “papista” dos bispos ingleses do século XIII contribuiu para a definição
da infalibilidade pontifícia. Esta é a ironia de Deus, pela qual os Anjos e
Santos – e também Grossateste! – se alegram no céu.
maior “papista” dos bispos ingleses do século XIII contribuiu para a definição
da infalibilidade pontifícia. Esta é a ironia de Deus, pela qual os Anjos e
Santos – e também Grossateste! – se alegram no céu.
*
Nosso agradecimento a um caro amigo pela tradução fornecida.
Nosso agradecimento a um caro amigo pela tradução fornecida.
*** * ***
[1] D. A. Callus, Robert
Grosseteste, Oxford 1955, p .150.
Grosseteste, Oxford 1955, p .150.
[2] Ivi,
p. 85.
p. 85.
[3] Ivi,
p. 183.
p. 183.
[4] Ivi,
p. 185.
p. 185.
[5] “Se il
papa comanda qualcosa che sia contrario alla morale non bisogna obbedirgli. Se
prova a fare qualcosa che sia contrario alla giustizia e al bene comune, è
lecito resistergli. Se egli attacca con la forza, può essere respinto con la
forza, con la moderazione propria di una giusta difesa”: De fide,
disp. X, sect. VI, n. 16.
papa comanda qualcosa che sia contrario alla morale non bisogna obbedirgli. Se
prova a fare qualcosa che sia contrario alla giustizia e al bene comune, è
lecito resistergli. Se egli attacca con la forza, può essere respinto con la
forza, con la moderazione propria di una giusta difesa”: De fide,
disp. X, sect. VI, n. 16.
[6] M. Powicke,
“Robert Grossateste, Bishop of Lincoln”, Bullettin of the John Rylands
Library, Manchester, vol. 35, n. 2, march 1953, p. 504.
“Robert Grossateste, Bishop of Lincoln”, Bullettin of the John Rylands
Library, Manchester, vol. 35, n. 2, march 1953, p. 504.
[7] M. Powicke, King
Henry III and the Lord Edward , Oxford 1959, p. 284.
Henry III and the Lord Edward , Oxford 1959, p. 284.
[8] D.
A. Callus, cit., XIX.
A. Callus, cit., XIX.
[9] M. Powicke, King
Henry III and the Lord Edward , cit., p. 286.
Henry III and the Lord Edward , cit., p. 286.
[10] W.
A. Pantin, “Grosseteste’s relations with the papacy and the crown”, in D. A.
Callus, cit., pp. 190-191.
A. Pantin, “Grosseteste’s relations with the papacy and the crown”, in D. A.
Callus, cit., pp. 190-191.
[11] M. Powicke, King
Henry III and the Lord Edward , cit., p. 287.
Henry III and the Lord Edward , cit., p. 287.
[12] Cf
E. W. Kemp, “The attempted canonization of Robert Grossateste”, in D. A.
Callus, cit., pp. 241-246.
E. W. Kemp, “The attempted canonization of Robert Grossateste”, in D. A.
Callus, cit., pp. 241-246.
[13] J. D.
Mansi, Sacrorum Conciliorum nova et amplissa collectio, Parigi
1857-1927, LII, p. 715
Mansi, Sacrorum Conciliorum nova et amplissa collectio, Parigi
1857-1927, LII, p. 715
