O Juramento Antimodernista


PROPOSIÇÃO IMPUGNADA:
O Vaticano II não está de acordo com esse ‘juramento antimodernista’, como se
depreende dos próprios documentos emanados pelo sobredito Concílio. Logo, tendo
sido superado pelo tempo, já não pode ser levado em consideração. A Igreja “já
não é bem isso”.
PROPOSIÇÃO AFIRMADA:
Quando alguém afronta o juramento antimodernista de São Pio X, argumentando que
“a Igreja não é mais bem isso”, acaba por defender exatamente o
modernismo.
Com efeito, dizer
que a Igreja mudou significa acreditar que Deus mudou, pois ela é Corpo Místico
de Cristo. Antes que a Igreja mude, primeiro é preciso que Cristo evolua. A
Igreja, sendo o Cristo propagado, mudará tão-só se Cristo mudar.
Ademais, a doutrina
católica tem por objeto a Revelação divina, de modo que a fé muda se a
Revelação mudar. Ora, é exatamente o oposto o que afirma o próprio Cristo,
Verbo de Deus: “céus e terras passarão, mas as minhas palavras não
passarão” (Mt 24,35).
Agredindo o
juramento antimodernista, argumenta exatamente como um modernista. Afinal, a
heresia condenada por S. Pio X defendia a evolução do dogma, da fé e da Igreja.
Ora, isso não é admissível. O modernismo supõe que a verdade tem prazo de
validade, quando joga a fé no fluxo do tempo.
Mas defendendo uma
tese modernista, esse argumento torna-se suicida. Com efeito, pela própria
lógica desse raciocínio, se a verdade pode modificar-se no tempo — como se Deus
pudesse mudar —, também esse argumento anti-anti-modernista (ou seja, pró
Vaticano II) ficará perempto, pois, decorrido algum tempo, também será
“ultrapassado”. Se o juramento antimodernista está caduco, o seu argumento
também irá, mais cedo ou mais tarde, caducar. É apenas uma questão de tempo
para que a impugnação do ‘juramento anti-modernista’ se torne tão transata
(logo, igualmente errada) quanto é tido por alguns o juramento de S. Pio X em
si mesmo.
Ele disse: “… Eu
estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt. 28, 19-20).
Ora, se a Igreja
houvesse errado durante todo esse tempo (dois mil anos, praticamente),
significa que o Espírito Santo teria deixado de dirigir a Igreja durante todo
esse período. Se assim fosse, seria forçoso concluir daí que a promessa de
Nosso Senhor [sobre a assistência divina à Igreja] constituiu uma mentira.
Portanto, Ele próprio, tendo mentido, não poderia ser Deus. 


Raphael de la Trinité





*** * ***
O Juramento Antimodernista

Fonte: São Pio V

Ego N. firmiter amplector ac recipio omnia et
singula, quae ab inerranti Ecclesiae magisterio definita, adserta ac dedarata
sunt, praesertim ea doctrinae capita, quae huius temporis erroribus directo
adversantur.

Ac primum quidem: Deum, rerum omnium principium et finem, naturali rationis
lumine per ea quae facta sunt (Rom 1,20), hoc est, per visibilia creationis
opera, tamquam causam per effectus, certo cognosci, ideoque demonstrari etiam
posse, profiteor.

Secundo: externa revelationis argumenta, hoc est facta divina, in primisque
miracula et prophetias admitto et agnosco tamquam signa certissima divinitus
ortae Christianae religionis, eademque teneo aetatum omnium atque hominum,
etiam huius temporis, intellegentiae esse maxime accommodata.

Tertio: firma pariter fide credo Ecclesiam, verbi revelati custodem et
magistram, per ipsum verum atque historicum Christum, cum apud nos degeret,
proxime ac directo institutam eamdemque super Petrum, apostolicae hierarchiae
principem, eiusque in aevum successores aedificatam.

Quarto: fidei doctrinam ab apostolis per orthodoxos patres eodem sensu
eademque semper sententia ad nos usque transmissam, sincere recipio; ideoque
prorsus reicio haereticum commentum evolutionis dogmatum, ab uno in alium
sensum transeuntium, diversum ab eo, quem prius habuit Ecclesia; pariterque
damno errorem omnem quo divino deposito, Christi sponsae tradito ab eaque
fideliter custodiendo, sufficitur philosophicum inventum, vel creatio humanae
conscientiae, hominum conatu sensim efformatae et in posterum indefinito
progressu perficiendae.

Quinto: certissime teneo ac sincere profiteor, fidem non esse caecum sensum
religionis e latebris «subconscientiae» erumpentem, sub pressione cordis et
inflexionis voluntatis moraliter informatae, sed verum assensum intellectus
veritati extrinsecus acceptae ex auditu, quo nempe, quae a Deo personali,
creatore ac Domino nostro dicta, testata et revelata sunt, vera esse credimus,
propter Dei auctoritatem summe veracis.

Me etiam, qua par est reverentia, subicio totoque animo adhaereo
damnationibus, declarationibus, praescriptis omnibus, quae in encyclicis
litteris Pascendi et in decreto Lamentabili continentur, praesertim circa eam
quam historiam dogmatum vocant.

Idem reprobo errorem affirmantium, propositam ab Ecclesia fidem posse
historiae repugnare, et catholica dogmata, quo sensu nunc intelleguntur, cum
verioribus Christianae religionis originibus componi non posse.

Damno quoque ac reicio eorum sententiam, qui dicunt Christianum hominem
eruditiorem induere personam duplicem, aliam credentis, aliam historici,
quasi liceret historico ea retinere, quae credentis fidei contradicant, aut
praemissas adstruere, ex quibus consequatur, dogmata esse aut falsa aut
dubia, modo haec directo non denegentur.

Reprobo pariter eam Scripturae sanctae diiudicandae atque interpretandae
rationem, quae, Ecclesiae traditione, analogia fidei et apostolicae Sedis
normis posthabitis, rationalistarum commentis inhaeret, et criticam textus
velut unicam supremamque regulam haud minus licenter quam temere amplectitur.

Sententiam praeterea illorum reiicio, qui tenent, doctori disciplinae
historicae theologicae tradendae aut iis de rebus scribenti seponendam prius
esse opinionem ante conceptam sive de supernaturali origine catholicae
traditionis, sive de promissa divinitus ope ad perennem conservationem
uniuscuiusque revelati veri; deinde scripta patrum singulorum interpretanda
solis scientiae principiis, sacra qualibet auctoritate seclusa eaque iudicii
libertate, qua profana quaevis monumenta solent investigari.

In universum denique me alienissimum ab errore profiteor, quo modernistae
tenent in sacra traditione nihil inesse divini, aut, quad longe deterius,
pantheistico sensu illud admittunt, ita ut nihil iam restet nisi nudum factum
et simplex, communibus historice factis aequandum: hominum nempe sua
industria, solertia, ingenio scholam a Christo eiusque apostolis inchoatam
per subsequentes aetates continuantium.

Proinde fidem patrum firmissime retineo et ad extremum vitae spiritum
retinebo, de charismate veritatis certo, quad est, fuit eritque semper in
episcopatus ab apostolis successione (1), non ut id teneatur, quod melius et
aptius videri possit secundum suam cuiusque aetatis culturam, sed ut numquam
aliter credatur, numquam aliter intellegatur absoluta et immutabilis veritas
ab initio per apostolos praedicata (2).

Haec omnia spondeo me fideliter, integre sincereque servaturum et
inviolabiliter custoditurum, nusquam ab us sive in docendo sive quomodolibet
verbis scriptisque deflectendo. Sic spondeo, sic iuro, sic me Deus adiuvet,
et haec sancta Dei Evangelia.

Eu, N., firmemente aceito e creio em todas e em cada
uma das verdades definidas, afirmadas e declaradas pelo magistério infalível
da Igreja, sobretudo aqueles princípios doutrinais que contradizem
diretamente os erros do tempo presente.

Primeiro: creio que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser
conhecido com certeza e pode também ser demonstrado, com as luzes da razão
natural, nas obras por Ele realizadas (Cf. Rm I 20), isto é, nas criaturas
visíveis, como [se conhece] a causa pelos seus efeitos.

Segundo: admito e reconheço as provas exteriores da revelação, isto é, as
intervenções divinas, e sobretudo os milagres e as profecias, como sinais
certíssimos da origem sobrenatural da razão cristã, e as considero
perfeitamente adequadas a todos os homens de todos os tempos, inclusive
aquele no qual vivemos.

Terceiro: com a mesma firme fé creio que a Igreja, guardiã e mestra da
palavra revelada, foi instituída imediatamente e diretamente pelo próprio
Cristo verdadeiro e histórico, enquanto vivia entre nós, e que foi edificada
sobre Pedro, chefe da hierarquia eclesiástica, e sobre os seus sucessores
através dos séculos.

Quarto: acolho sinceramente a doutrina da fé transmitida a nós pelos
apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual
conteúdo, e rejeito totalmente a fantasiosa heresia da evolução dos dogmas de
um significado a outro, diferente daquele que a Igreja professava primeiro;
condeno semelhantemente todo erro que pretenda substituir o depósito divino
confiado por Cristo à Igreja, para que o guardasse fielmente, por uma
hipótese filosófica ou uma criação da consciência que se tivesse ido formando
lentamente mediante esforços humanos e contínuo aperfeiçoamento, com um
progresso indefinido.

Quinto: estou absolutamente convencido e sinceramente declaro que a fé não é
um cego sentimento religioso que emerge da obscuridade do subconsciente por
impulso do coração e inclinação da vontade moralmente educada, mas um
verdadeiro assentimento do intelecto a uma verdade recebida de fora pela
pregação, pelo qual, confiantes na sua autoridade supremamente veraz, nós
cremos tudo aquilo que, pessoalmente, Deus, criador e senhor nosso, disse,
atestou e revelou.

Submeto-me também com o devido respeito, e de todo o coração adiro a todas as
condenações, declarações e prescrições da encíclina Pascendie do decreto Lamentabili, particularmente acerca
da dita história dos dogmas.

Reprovo outrossim o erro de quem sustenta que a fé proposta pela Igreja pode
ser contrária à história, e que os dogmas católicos, no sentido que hoje lhes
é atribuído, são inconciliáveis com as reais origens da razão cristã.

Desaprovo também e rejeito a opinião de quem pensa que o homem cristão mais
instruído se reveste da dupla personalidade do crente e do histórico, como se
ao histórico fosse lícito defender teses que contradizem a fé o crente ou
fixar premissas das quais se conclui que os dogmas são falsos ou dúbios,
desde que não sejam positivamente negados.

Condeno igualmente aquele sistema de julgar e de interpretar a sagrada
Escritura que, desdenhando a tradição da Igreja, a analogia da fé e as normas
da Sé apostólica, recorre ao método dos racionalistas e com desenvoltura não
menos que audácia, aplica a crítica textual como regra única e suprema.

Refuto ainda a sentença de quem sustenta que o ensinamento de disciplinas
histórico-teológicas ou quem delas trata por escrito deve inicialmente
prescindir de qualquer idéia pré-concebida, seja quanto à origem sobrenatural
da tradição católica, seja quanto à ajuda prometida por Deus para a perene
salvaguarda de cada uma das verdades reveladas, e então interpretar os textos
patrísticos somente sobre as bases científicas, expulsando toda autoridade
religiosa, e com a mesma autonomia crítica admitida para o exame de qualquer
outro documento profano.

Declaro-me enfim totalmente alheio a todos os erros dos modernistas, segundo
os quais na sagrada tradição não há nada de divino ou, pior ainda,
admitem-no, mas em sentido panteísta, reduzindo-o a um evento pura e
simplesmente análogo àqueles ocorridos na história, pelos quais os homens com
o próprio empenho, habilidade e engenho prolongam nas eras posteriores a
escola inaugurada por Cristo e pelos apóstolos.

Mantenho, portanto, e até o último suspiro manterei a fé dos pais no carisma
certo da verdade, que esteve, está e sempre estará na sucessão do episcopado
aos apóstolos¹, não para que se assuma aquilo que pareça melhor e mais
consoante à cultura própria e particular de cada época, mas para que a
verdade absoluta e imutável, pregada no princípio pelos apóstolos, não seja
jamais crida de modo diferente nem entendida de outro modo².

Empenho-me em observar tudo isso fielmente, integralmente e sinceramente, e
em guardá-lo inviolavelmente, sem jamais disso me separar nem no ensinamento
nem em gênero algum de discursos ou de escritos. Assim prometo, assim juro,
assim me ajudem Deus e esses santos Evangelhos de Deus.


<>Acta Apostolicæ Sedis, 1910, pp. 669-672


__________
1: IRENEU, Adversus haereses, 4, 26, 2: PG 7, 1053.
2: TERTULIANO, De praescriptione haereticorum, 28: PL 2, 40.


A Versão em português foi traduzido do italiano de: http://www.amiciziacristiana.it/giuramenti.htm


Categoria: