O albatroz





L’ ALBATROS – Charles Baudelaire




Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage

Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,


Qui suivent, indolents compagnons de voyage,


Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,

Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,

Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches

Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!

Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!

L’un agace son bec avec un brûle-gueule,

L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées

Qui hante la tempête et se rit de l’archer;

Exilé sur le sol au milieu des huées,

Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.




*** * ***




O ALBATROZ – Guilherme de Almeida


Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.
Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado. 
Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo, 
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!
O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.




O ALBATROZ – Onestaldo de Pennafort


Às vezes, em recreio, os homens da equipagem
pegam um albatroz, enorme ave marinha
que segue, companheiro indolente de viagem,
o navio que sobre o atro abismo caminha.
Mal no convés se vê, todo desconjuntado,
logo esse rei do azul, em passos desiguais,
como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,
desajeitadamente, as asas colossais.
Esse alado viajor, como é grotesco andando!
Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!
Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,
arremeda no andar o pobre que voava!
O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,
que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;
exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,
suas asas de gigante impedem-no de andar.


O ALBATROZ – Delfim Guimarães

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem 

Na caça do albatroz, ave enorme e voraz, 


Que segue pelo azul a embarcação em viagem, 

Num vôo triunfal, numa carreira audaz. 

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido 

Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado! 


Que pena que ele faz, humilde e constrangido, 

As asas imperiais caídas para o lado! 

Dominador do espaço, eis perdido o seu nimbo! 

Era grande e gentil, ei-lo o grotesco verme!… 


Chega-lhe um ao bico o fogo do cachimbo, 

Mutila um outro a pata ao voador inerme. 

O Poeta é semelhante a essa águia marinha 

Que desdenha da seta, e afronta os vendavais; 


Exilado na terra, entre a plebe escarninha, 

Não o deixam andar as asas colossais! 


O ALBATROZ – Jamil Almansur Haddad

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem

Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,

Que segue — companheiro indolente de viagem —
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,

O imperador do azul, canhestro e envergonhado,

Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,

Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!

Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!

Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,

Outro imita a coxear o enfermo que voava!

O Poeta é semelhante ao príncipe do céu

Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;

Exilado na terra e em meio do escarcéu,

As asas de gigante impedem-no de andar.
O ALBATROZ – Ivan Junqueira

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem

Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,


Que acompanha, indolente parceiro de viagem,

O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,

O monarca do azul, canhestro e envergonhado,

Deixa pender, qual par de remos junto aos pés, 

As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça

Esse viajante agora flácido e acanhado!

Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,

Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura

Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;

Exilado no chão, em meio à turba obscura,

As asas de gigante impedem-no de andar.




Original e traduções extraídos das seguintes fontes:
•  Charles Baudelaire
   
 Les Fleurs du Mal
    Paris, 1861
•  Ivan Junqueira
 
    As Flores do Mal
   
 Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeriro, 1985
•  Guilherme de Almeida
 
    Flores das Flores do Mal
   
 Edições de Ouro, Rio de Janeriro, s/data
•  Jamil Almansur Haddad
 
    As Flores do Mal
   
 Círculo do Livro, São Paulo, s/data
•  Onestaldo de Pennafort
    Poesias
   
 Org. Simões, Rio de Janeiro, 1954
•  Delfim Guimarães
    Flores do Mal
   
 Guimarães & Cia., Lisboa, 1909
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* Jorge de Lima, “X”, in
 Invenção de Orfeu (1952)



Fonte: Cidade


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