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Notre Dame restaura sinos destruídos pela Revolução Francesa (Parte II)









Nomes, símbolos, carrilhões e significado dos novos sinos de Notre Dame











Ver Parte I






Fonte: Catedrais Medievais







Símbolos gravados em cada sino


Os novos sinos são:


bourdon “Marie” (6.023 kg; 206,5 cm de diâmetro), dedicado a Nossa Senhora, protetora especial da catedral. Ele é reprodução de idêntico bourdon que tocou de 1378 a 1792, ano do infame saque republicano. Nele estão gravados a “Ave Maria” e um medalhão de Nossa Senhora com o Menino Jesus rodeado de estrelas; tem friso representando a Adoração dos Reis Magos e as bodas de Caná, e por fim uma Cruz de Glória com a inscrição “Via viatores quaerit” (“Eu sou a Via em busca de viajantes”).



Bourdon Maria é o maior do novo conjunto


sino “Gabriel” (4.162
kg e 182,8 cm de diâmetro) é dedicado ao arcanjo São Gabriel que anunciou a
Nossa Senhora a encarnação do Verbo.




Neste sino está inscrita a primeira frase do Angelus “O anjo do Senhor anunciou
a Maria” —, além de 40 faixas que simbolizam os 40 dias que Jesus passou no deserto
e os 40 anos de travessia dos judeus pelo deserto do Sinai; na coroa do sino há
flores de lis e, rodeados de estrelas, Nossa Senhora e o Menino Jesus. No corpo
do sino há também uma Cruz de Glória com a inscrição “Via viatores quaerit” e
um perfil da catedral no coração de Paris. 



sino “Ana Genoveva”(3.477 kg; 172,5 cm de diâmetro) é dedicado a Santa Ana, mãe de Nossa Senhora, e a Santa Genoveva, padroeira e protetora de Paris. Nele está inscrita a segunda frase do Angelus “E ela concebeu do Espírito Santo”. Três faixas simbolizam a Santíssima Trindade; labaredas de fogo evocam a tenacidade de Santa Genoveva; no demais, repete o sino “Gabriel”.

Sino “Ana-Genoveva” dedicado às duas santas


O sino “Dionísio”(2.502 kg; 153,6 cm de diâmetro) lembra a São Dionísio,
primeiro bispo de Paris. Enviado pelo Papa, o bispo sofreu o martírio. Neste
sino está inscrita a terceira jaculatória do Angelus: “Eis a escrava do
Senhor”. Sete faixas simbolizam os sete dons do Espírito Santo e os sete
sacramentos da Igreja. Há também desenhos simbolizando o martírio, Cruz de
Glória, inscrições e desenhos idênticos aos anteriores.






O sino “Marcelo” (1.925 kg; 139,3 cm de diâmetro), em memória de São
Marcelo, nono bispo de Paris, muito venerado pelos parisienses por sua caridade
para com os pobres e os doentes. Neste sino está inscrita a quarta frase do
Angelus: “Faça-se em mim segundo tua palavra”. Cinco faixas simbolizam as três
pessoas da Santíssima Trindade e as duas naturezas formando um só Deus em Jesus
Cristo encarnado. No demais, acompanha os modelos anteriores. 


Toda a família de novos sinos restaurados
O sino “Estêvão” (1.494
kg; 126,7 cm de diâmetro) relembra a catedral de Paris que precedeu a atual e
que era dedicada a Santo Estêvão. Neste sino está gravada a quinta jaculatória
do Angelus: “E o Verbo se fez carne”. Uma faixa em honra dessa jaculatória e
motivos diversos evocam o martírio de Santo Estêvão. Cruz de Glória, frases e
imagem de Nossa Senhora, Menino Jesus e perfil de Notre Dame como nos
anteriores.

O sino “Bento-José” (1.309 kg; 120,7 cm de diâmetro) em alusão ao então
Papa Bento XVI e a São José. Inscrição com a sexta frase do Angelus: “E habitou
entre nós”. Doze faixas simbolizam os doze Apóstolos sob as chaves de São
Pedro. Cruz de Glória e outros detalhes como nos anteriores.

O sino “Maurício” (1.011 kg; 109,7 cm de diâmetro) em memória de
Maurício de Sully, 72º bispo de Paris, que colocou a primeira pedra da catedral
de Notre Dame em 1163. Nesse sino está inscrita a sétima frase do Angelus:
“Rogai por nós, Santa Mãe de Deus”; oito faixas simbolizam a plenitude (7+1);
há ainda elementos arquitetônicos do plano da catedral, evocação de seus
construtores, Cruz de Glória etc., como nos anteriores.

O sino “Jean-Marie” (782 kg; 99,7 cm de diâmetro), o menor deles,
recebeu esse nome em alusão ao cardeal Jean-Marie Lustiger. Nele está inscrita
a oitava e última frase do Angelus: “A fim de que sejamos dignos das promessas
de Cristo”; nove faixas simbolizam as nove hierarquias angélicas; no corpo do
sino, as iniciais dos quatro evangelistas, cada um com seu símbolo. Cruz de
Glória, inscrição e imagens como nos anteriores.

Além dos dez sinos mencionados acima, há outros três na flecha da catedral,
totalizando 13.

Toques
e melodias

Os toques e as melodias dos sinos de Notre-Dame de Paris se subdividem em
quatro grandes categorias:






Veja vídeo
Notre Dame:
Clique para ouvir
os novos sinos.
(23.03.2013)
— o carrilhão das horas das cerimônias
litúrgicas;

— o carrilhão do Angelus três vezes por dia: 6h00, 12h00 e 18h00, segundo
costume do rei Luís XI, que se generalizou na Cristandade;


— o carrilhão das horas (toque breve a cada quarto de hora; melodia curta a
cada hora, e mais de 50 toques e melodias diversas do fundo musical de
Notre-Dame que variam ao longo do ano litúrgico);



— o carrilhão das grandes ocasiões: acontecimentos ligados ao Papado ou de
outra índole, de importância nacional e internacional, datas históricas,
grandes desgraças na humanidade etc.
Os sinos continuarão a fazer-se ouvir com a mesma frequência respeitada até
agora. A grande variante será dada pela riqueza do novo conjunto, que permitirá
uma diversidade maior de melodias e toques.
O “Emanuel” fica reservado para as grandes solenidades como Natal, Epifania,
Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Assunção, Todos os Santos etc.
O entusiasmo pela restauração dos sinos da grande catedral de Paris não se
cingiu a um evento meramente religioso; foi uma amostra a mais das profundas
inversões de tendências que estão ocorrendo na opinião pública da França
hodierna.



Simbolismo e importância do sino para
a Igreja

Eis uma substanciosa explicação das bênçãos do toque do sino feita por
Mons. Jean-Joseph Gaume (1802-1879), célebre por sua ciência teológica.





“Como todas as coisas grandes e belas, é à Igreja
que devemos o sino.
 



O sino nasceu católico, por isso a Igreja o ama como a mãe ama seu filho. Ela
benze o metal de que é feito. Logo que ele veio ao mundo, a Igreja o batizou e
fez dele um ente sagrado.
 


Com razão, porque o sino é destinado a cantar tudo o que há de santo e de
santificante na Terra e no Céu. Pelas orações e cerimônias que o acompanham, o
batismo vai dizer-lhe a sua vocação.
A Igreja sempre considerou com muito respeito o sino, o que se constata com
novo esplendor nas preces e nas cerimônias de seu batismo.
 

Reunidos os fiéis em torno do sino suspenso a alguns metros acima do solo,
chega majestosamente o bispo em hábitos pontificais, acompanhado do clero e
seguido do padrinho e da madrinha do sino.
Em nome de Deus, de quem é ministro, o bispo invoca sobre essa maravilhosa
criatura a virtude do Espírito Santo, tornando-a fecunda no primeiro dia de sua
criação.
 

Certo de ser atendido, o bispo asperge o sino com água benta, conferindo-lhe o
poder e o dever de afastar de todos os lugares onde seu som repercutir, as
potências inimigas do homem e de seus bens: os demônios, os redemoinhos, o
raio, o granizo, os animais maléficos, as tempestades e todos os espíritos de
destruição.
Vejamos sua missão positiva. 

A sua voz proclamará os grandes mistérios do cristianismo, aumentará a devoção
dos cristãos para cantarem novos cânticos na assembleia dos santos, e convidará
os anjos a tomarem parte nos seus concertos.
 

O sino fará tudo isto, porque esta missão lhe é confiada em nome d’Aquele que
possui todo o poder no Céu e na Terra.


Cada badalada faz retinir ao longe os dois mistérios da morte e da vida — alfa
e ômega — necessários para orientar a vida do homem e consolar suas esperanças.
Não admira, pois, que o bispo, dirigindo-se ao próprio sino, o dedique a um
santo ou a uma santa do Paraíso dizendo-lhe, com uma espécie de respeitosa
ternura: “Em honra de São N., a paz doravante esteja contigo, caro sino”.
 

Como o sino deve ter um nome, cumpre que tenha também um padrinho e uma
madrinha. O nome do sino é gravado abaixo da cruz em relevo, que o marca com o
selo de Nosso Senhor e o consagra ao seu alto culto.
Daí vem um fato pouco notado: o amor dos verdadeiros filhos da Igreja ao sino e
o ódio que lhe votam os inimigos de Deus.
 

Uma das mais doces alegrias de nossos pais, ao se libertarem da Revolução
Francesa, foi ouvir os sinos, emudecidos durante muitos anos.

Esse incontestável poder do sino contra os demônios
do ar justifica as virtudes de que ele goza: dissipar os ventos e as nuvens,
afugentar diante de si o granizo e o raio, conjurar as tempestades e os
elementos desencadeados, pois que todas essas perniciosas influências da
atmosfera provêm muito menos de coisas naturais do que da maldade desses
espíritos maléficos.
 



Nossos pais, na hora do perigo, faziam ouvir pelo Pai Celeste o som dos sinos,
seu primeiro grito de alarme. O Senhor não permanecia muito tempo insensível à
voz de seu povo.

A corda que serve para tocar o sino, que sobe e desce sem cessar, indica o
trabalho do pregador, e é também uma imagem da nossa vida”
 

(Mons. Gaume, L’Angelus au
dix-neuvième siècle, Editions Saint-Remi, 2005).