prova de que eu não tinha “nada a dizer”. Dominava o como – os muitos comos! –,
mas era tudo oco, casca vazia. E por que não seria? Minha vida, em termos
objetivos, era comum, razoavelmente feliz, e naquilo que não era feliz vinha a
ser mais comum ainda. Claro que, se um dia eu chegasse a publicar alguma coisa,
não faltariam críticos para apontar o vácuo gritante: “Ele escreve bem, mas não
tem o que dizer!”.
Tem-se tornado mais arraigada do que
nunca a ideia de que a arte é apenas um veículo, entre outros, de significados
sociais preexistentes. Em vez de reconhecer seu núcleo irredutível, tratando-a
como um valor em si…
da arte, do obscurantismo absoluto, mas cada vez mais tem passado por avançada
e chique.
se vivido, imaginado, sonhado ou lido, só existe através da forma e como
expressão dela. Se alguém não sabe escrever, não tem o que dizer, e vice-versa.
O quê da literatura é fundamentalmente literário.
lembro onde li essa frase, muito tempo atrás – provavelmente numa resenha ou
quem sabe em duas ou três, pois a verdade é que se trata de um semiclichê
crítico. Junto com seu autor ou autores, minha memória deixou de registrar
também o alvo ou os alvos da diatribe. Foi a frase em si que passou a me
assombrar de tempos em tempos em meus primeiros anos de escritor tateante, como
se expressasse uma advertência severa e uma verdade terrível.
de uma qualidade mais misteriosa, talvez inata, certamente existencial, quem
sabe política, que parecia tão fugidia quanto assustadora? Eu acreditava levar
jeito para aquela coisa de fazer literatura, sentia que as palavras me
mostravam alguma obediência, mas… teria o que dizer? E como uma pessoa que não
tem o que dizer descobre, inventa, encomenda, pega emprestado, vai à luta de
algo para dizer?
Levou tempo para que eu descobrisse estar diante de uma questão falsa.
Saber escrever e ter o que dizer são rigorosamente a mesma coisa, ou melhor,
não existe na literatura – ou em arte alguma – a possibilidade de separar “como
dizer” e “o que dizer”. Ou se tem o pacote completo ou não se tem nada. Mas
essa sabedoria ainda estava distante para quem, batendo cabeça entre admirações
contraditórias, passava pela fase da imitação.
Enquanto eu tentava tomar posse do estilo deste ou daquele autor
admirado, hoje seco feito Hemingway e Hammett, amanhã barroco e rosiano, uma
semana às voltas com doudos pontos-e-vírgulas colhidos em Machado, na outra
cuspindo gírias e palavrões coletados em João Antônio e Rubem Fonseca, um dia
cronista cômico, no outro mais pesado que um Dostoievski de ressaca – enquanto
eu brincava assim, com a maior seriedade, era talvez inevitável que me
assaltasse de vez em quando uma dúvida aterradora.
Quando a insegurança batia mais forte, eu era dominado pela suspeita de
ser um Zelig* das letras. A própria facilidade com que mimetizava tantos estilos
parecia então uma prova de que eu não tinha “nada a dizer”. Dominava o como –
os muitos comos! –, mas era tudo oco, casca vazia. E por que não seria? Minha
vida, em termos objetivos, era comum, razoavelmente feliz, e naquilo que não
era feliz vinha a ser mais comum ainda. Claro que, se um dia eu chegasse a
publicar alguma coisa, não faltariam críticos para apontar o vácuo gritante:
“Ele escreve bem, mas não tem o que dizer!”.
Devo ter perdido um bom punhado de horas de sono com isso. Sim, eu sei:
é ridículo. Mas não me parecia ridículo na época e duvido que pareça ridículo
hoje a muitos jovens que decidem se aventurar na literatura.
a ideia de que a arte é apenas um veículo, entre outros, de significados
sociais preexistentes. Em vez de reconhecer seu núcleo irredutível, tratando-a
como um valor em si, preferimos admitir que sua linguagem pode até ser
sofisticada, para não dizer elitista, mas acreditamos que o que importa mesmo é
seu conteúdo, sua “mensagem”. E que aquilo que ela diz poderia ser expresso de
outras formas – sociológica, política, crítica, panfletária, jornalística,
histórica – sem perda de valor. Tal ideia contém o germe da negação da arte, do
obscurantismo absoluto, mas cada vez mais tem passado por avançada e chique. O
século XX nos conduziu do pântano do esteticismo ao abismo do filistinismo.
Até conselhos bem intencionados como “Escreva sobre o que você conhece
bem” e “Viva primeiro, escreva depois” reforçam a ideia de que para escrever
literatura que preste é preciso desembarcar nela, como um viajante consumista
voltando de Nova York, com uma bagagem recheada de valiosas “mensagens”. Tais
conselhos podem ter sua utilidade, pois viver é sempre bom, mas artisticamente
são furados. Fundam-se na supervalorização de um certo conteúdo – no caso, a
experiência vivida – sobre a forma. Ocorre
que o conteúdo, pouco importa se vivido, imaginado, sonhado ou lido, só existe
através da forma e como expressão dela. Se alguém não sabe escrever, não tem o
que dizer, e vice-versa. O quê da literatura é fundamentalmente literário.
*Zelig é um filme de Wood Allen de 1983
Fonte: Todo Prosa
