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Cruzada contra a indigência mental‏


Dentre tantas necessidades e misérias, um mal


clamoroso: a dindigência mental


Latim
– a mais “prática” dentre todas as matérias

Nevile Gwynne: Latim é parte da nossa cultura de inúmeras maneiras diferentes


[tradução de César Hernandes; revisão de Raphael de la Trinité].

Incisivo, Nevile Gwynne,
pedagogo e filólogo, indaga: bastará restabelecer o ensino do latim, reintroduzindo-o
no cerne do currículo escolar? Peremptório, ele próprio responde: Se não
voltarmos aos métodos tradicionais de ensiná-lo, de nada adiantará.

Retrocedamos na história.

Em números redondos, até a
década de 1860, as línguas clássicas — latim e grego — eram as únicas matérias regularmente
ensinadas nos principais estabelecimentos de ensino da Inglaterra. No decorrer
de boa parte do século XX, já aos 16 anos, os estudantes deveriam estar aptos a
ler Virgílio — no decorrer de todas as épocas, talvez o escritor mais difícil
de ser entendido…


Nos tempos em que eu frequentava
os bancos escolares, ao longo da década de 1950, o tempo consagrado ao estudo
da língua latina suplantava o de qualquer outra matéria. Como explicar, então,
que, na década seguinte, de forma abrupta e arbitrária, tenham suprimido o
ensino do latim?


É fato que, nos últimos tempos,
o latim voltou à baila. De fato, ponderável número de colégios, mais
recentemente, decidiu reintroduzir o ensino da matéria, ao menos no âmbito de
estudo do vocabulário etimológico. Ao mesmo tempo, novos livros didáticos de latim
têm aparecido em profusão. E, assim vai chegando a vez de meu livro,
“Gwyne’s Latim” [Latim de Gwyne], que em breve, concluídas todas as
etapas de gestação, virá a lume.


Com que propósito aprender latim?
Eis a questão premente.

*** * ***

Comecemos por lembrar que o conhecimento
de latim conduz a uma mais nítida percepção da semântica e da ortografia de considerável
número de palavras inglesas. Além disso, revela-se de extrema utilidade para o
aprendizado das diversas línguas europeias, derivadas do tronco latino. Por
fim, tenhamos presente o requintado teor da literatura dessa mesma língua.


Ademais, parte integrante de nossa
cultura, de inumeráveis maneiras — por exemplo, os dísticos da maioria dos
países, cidades e instituições, são grafados em latim, assim como os nomes
oficiais de todas as plantas e compostos químicos.


Nada disso, porém, de si, parece
justificar que se reservem longas horas para o estudo do latim. 


Provavelmente só deporia em
favor da inclusão da língua como matéria “não obrigatória” no currículo — à
maneira de um curso de bordado ou do aprendizado de qualquer outro ofício
manual. Mesmo assim, com que regularidade? Com frequência diária, revezando-se
com o ensino do grego clássico, como se fazia até há pouco?


Esse, contudo, é só um lado da
questão. Há outros aspectos a considerar.


Não será de pequeno alcance lembrar,
por exemplo, que durante o longo período em que, nos currículos escolares,
latim e grego constituíam as únicas matérias de inclusão obrigatória, a Grã
Bretanha era “soberana” em toda a acepção do termo — ou seja, não só na
indústria, com as invenções tecnológicas, mas também no terreno da literatura,
com suas inexcedíveis obras, sem contar o domínio político sobre um quarto da
superfície do globo.


Eis o que nos leva a analisar o
tema sob um ângulo mais profundo.


Experimentados pedagogos sempre
alegaram que, ao invés de constituir obstáculo para o aprendizado de outras
disciplinas de cunho mais “prático”, o latim — justamente por causa do efeito
profundo exercido sobre a mente e o caráter das pessoas que aprendem essa
língua — seria a mais “prática” dentre todas as matérias. Será que não lhes
assiste razão?


Na década de 1980, com efeito,
realizou-se um teste em várias porções do território norte-americano, tendo
como objetivo aperfeiçoar o ensino ministrado a crianças excepcionais. Em
Indianapolis, a pesquisa obedeceu a critérios de análise meticulosos.


Nessa localidade, 400 meninos
de 11 anos foram divididos em dois grupos. No primeiro grupo figuravam 200
meninos, aos quais foram ensinadas as disciplinas correntes: inglês,
matemática, história, geografia, e assim por diante. Já para o segundo grupo
(as outras 200 crianças), o ensino do latim foi objeto de estudo durante a
maior parte do dia, em detrimento das demais matérias, que tiveram os seus
horários reduzidos. — Qual foi o resultado desse curioso levantamento?
Surpreenderá, certamente, a quem desconheça o efeito que o estudo do latim
exerce sobre o intelecto.


De fato, em todas as matérias
do currículo, inclusive matemática e ciências (apesar da considerável redução no
tempo empregado ao ensino destas), o grupo que recebeu aulas de latim comprovou
um aproveitamento significativamente superior — note-se bem, não apenas superior, mas “significativamente” superior
— em relação aos que não tiveram lições desta disciplina. 


Nos meios acadêmicos, existem
aqueles que se opõem ao restabelecimento do primado do latim. Assim, no tocante
à pesquisa acima, tais objetantes alegam que o teste deveria ter sido feito com
o ensino da língua francesa ou alemã, e não com o latim. E aduzem: em tal caso,
os resultados obtidos teriam sido muito semelhantes, quiçá ainda mais
satisfatórios.


Digam o que disserem esses
especialistas, pode-se atestar — seja pelos argumentos de ordem prática, seja
pelos de ordem teórica, mais comumente utilizados — que os nossos antepassados,
gerações a fio, deram mostra de ter plena consciência do que faziam. No que me
cabe, sabendo que o tema é de crucial importância e de palpitante interesse,
consagro parte do meu livro à explicação de nota singular do latim, que o
caracteriza a fundo, dando margem a esse extraordinário efeito.


Isso assente, a todos quantos
respeitam e amam as crianças, augurando-lhes o melhor futuro, sugiro que se
coliguem, no sentido de pleitear com insistência que o latim seja trazido de
volta às escolas. E, não só para uma elite de cérebros privilegiados, mas para
todas, indiscriminadamente.


Bastaria isso? Obviamente, não.


Para que haja um significativo
aperfeiçoamento na educação, ainda falta algo: indispensável mudar a
metodologia do ensino. Explica-se.


Não foi apenas o currículo que
se alterou, da década de 1960 em diante; concepção e metodologia escolar
passaram por uma revolução simultânea, originando-se daí  desastrosas consequências.


Em face de qualquer espécie de ensino,
cumpre, em primeiro lugar, adquirir domínio sobre a matéria em si. Numa segunda
etapa, e somente aí, fazer a aplicação do aprendizado à prática. Em suma, antes
a “teoria”, depois a “capacidade criadora”.


O princípio é válido para toda
forma de conhecimento: aplica-se tanto ao conhecimento de uma língua como às
técnicas de um esporte ou às regras de um jogo de tabuleiro.


Mormente com uma língua repleta
de flexões, tal como o latim. Cabe, então, começar decorando as diversas formas
da palavra que se deseja utilizar, assim como aprender qual forma usar em cada
circunstância.


O passo seguinte consiste em fazer
exercícios para tornar-se ágil no uso daquilo que foi aprendido, até o ponto de
fazer aquilo sem dificuldade. E, passando de um patamar a outro, ir progredindo
rumo a uma forma mais elaborada.


Não conheço nenhum livro
didático de latim que insista nessa abordagem. Pelo contrário, muitos são os
que enveredam pela direção oposta, qual seja, pretendem entreter o aluno
fazendo-o repetir máximas e citações latinas, baseando-se na suposição errônea
de que, mesmo sem qualquer rudimento de gramática, o indivíduo se torne capaz de
adivinhar o termo equivalente em inglês.


O resultado?


Não é de hoje que renovo, de
público, o meu desafio: em meia hora de aula, consigo fazer um aluno aprender
muito mais do que ele aprenderia ao cabo de quatro ou cinco anos de aulas num
colégio atual, com base nos livros didáticos modernos.


Pode parecer presunção, mas não
retiro uma palavra do que disse. Aliás, convido o leitor a visitar o meu
website, a fim de colher diretamente os relatos de pessoas que aceitaram o meu
desafio.


Em síntese, reputo digno de
nota o meu livro, que sairá em breve. Além de proporcionar, desde o início, a
alunos e professores, um aprendizado de nível razoavelmente elevado, desataco
dois outros pontos.


O primeiro aspecto concentra-se
na demonstração de como o latim deveria ocupar a posição-chave em qualquer
sistema educacional. O segundo reside na insistência com que faço ver que não
há outro meio de ensinar latim com eficácia.


Considero, pois, justas minhas
expectativas em relação a “Gwynne’s Latin”. Acredito que terá boa
difusão e trará grande proveito. Em minha visão, vale mais do que um  manual de estudo: constitui o lançamento de
uma cruzada. 


Fonte: Telegraph