A eficácia da oração em estado de pecado mortal — Armando Braio Ara

“São quatro as condições para que, presentes, alguém sempre consiga o que pede: a saber, (1) que peça para si mesmo (2) coisas necessárias à salvação, (3) piedosamente, e (4) com perseverança”. (S. Th., II-II, q. 83, a. 15, ad 2).
O bem não exclui a possibilidade do mal. Isso porque o mal não tem existência própria, sendo apenas a ausência ou falta do bem. Não existem duas “forças” ou “energias” contrárias — algo à maneira de um Deus do bem e um deus do mal — , como se fossem duas potências que coexistem e se atacam mutuamente. Nada disso corresponde à verdade.
Existe um só Deus, Criador do Céu e da Terra, e Três Pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.
Devemos entender a perfeição como o Sumo Bem, ou seja, Deus, o único bem que é pleno, e, portanto, onde não há margem para nenhuma possibilidade de mal. Tudo o que é criado, por mais que seja bom (tudo o que foi criado pelo Sumo Bem, obrigatoriamente, será bom), não é perfeito, pois a própria necessidade de ter sido criado para existir exclui a possibilidade de perfeição.
Noutras palavras, toda criatura, tendo sido criada por Deus, que é o Sumo Bem, é, de per se, boa. Contudo, nada do que é criado pode ser perfeito, por ser efeito de uma criação. E, por não ser perfeito, dá margem para a possibilidade do mal.
O ser humano é bom por natureza, mas esse “bom” não se refere à impossibilidade de praticar o mal; refere-se, ao invés, à dignidade com a qual Deus revestiu o homem, por lhe ter conferido a faculdade do conhecimento e participação na própria bem-aventurança divina. Nesse sentido é que o homem é bom.
Enquanto possibilidade de pecar, o homem é fraco, é débil, dada a sua forte inclinação para o mal (consequência do pecado de nossos primeiros pais).
Deus, na criação, conferiu ao homem os chamados dons preternaturais, ou seja, aqueles predicados que, embora extrínsecos à natureza própria do homem, não se encontram para além dessa mesma natureza. Adão e Eva, primeiro casal, possuía estes dons: profunda compreensão do intelecto e conhecimento inteiro de Deus e das coisas da criação, profundo domínio das paixões e ausência da dor e da morte. Estes dons haviam conferido ao homem uma menor possibilidade de pecar, mas não extinguiam por completo essa possibilidade (tanto é que, como sabemos, o homem pecou).
Deus poderia ter conferido um dom sobrenatural ao homem no sentido de lhe vedar totalmente a possibilidade do pecado, mas isso seria uma interferência em seu livre-arbítrio. Fazê-lo, de certo modo, constituiria uma coerção da liberdade, um obstáculo para o pleno exercício da liberdade humana, representando, pois, um como que atentado à própria natureza do homem.
Após a queda, perdemos os dons preternaturais, e por isso nos tornamos propensos ao mal. Isso, em última instância, constitui reflexo de nossa fraqueza e debilidade originais, mas evidentemente conservamos sempre a nossa dignidade de Filhos adotivos de Deus. Tanto é que o próprio Deus Se dignou fazer-Se homem e morrer por nós em Cristo Nosso Senhor.
Resumindo: toda e qualquer criatura de Deus que tenha sido agraciada com o máximo dom do conhecimento divino, unicamente por ser criatura (imperfeita, pois), sempre terá a possibilidade de extravasar a sua imperfeição, escolhendo o mal moral. Mesmo na ordem angélica ocorreu isso; com o homem, portanto, não poderia ser diferente.
Deus não nos obriga a rejeitar tudo o que provém das apetências naturais de nossa natureza decaída, isto é, da concupiscência, mas nos impõe a morigeração, ou seja, insta-nos a refrear esses desejos, agindo de forma equilibrada, comedida e em ordem à santidade.
Algumas pessoas encaram a concupiscência como “algo ruim”, isto é, como se fosse a “presença do mal” no coração do homem, ao passo que, como foi referido acima, a concupiscência deve ser mais bem entendida como efeito da fraqueza humana, que acaba por buscar o mal como motivo de sua própria imperfeição. Sem dúvida, isso não constitui um “atributo” que Deus colocou no homem (para obter determinado “proveito”), muito embora Ele a utilize, após a queda original, para um bem maior, como mencionamos. Na realidade, é a ausência de algo, a falta de um completo domínio por parte daquilo que é inteiramente bom e reto. Isso se verifica porque somos criaturas, logo imperfeitos; daí essa ausência ser perfeitamente compreensível.
Em relação ao fato de que a concupiscência provém de algo indiferente (como é a carne), já se tem a questão como resolvida. Não é esta, por si, que corrompe, mas a apetência desordenada de buscar o deleite que daí provém — isto é, a fonte é o mau desejo, aquilo que nasce da concupiscência e reside na alma, jamais no corpo ou na matéria. Assim, quando certo indivíduo cede a uma solicitação de pensamento impuro ou mau desejo, não significa que o objeto em questão (por exemplo, uma pessoa atraente) seja a causa primeira do pecado, e sim, o móbil que conduz o indivíduo a esse anseio desordenado na direção dessa mesma pessoa.
De si, a nossa natureza corpórea não é má. Tendo sido criada por Deus e fazendo parte de nossa essência, só pode ser um bem. Depende, porém, do lado para o qual pende.
Quanto às diversas formas de mortificação da carne, será objeto de louvor penitenciar-se se o exercício ascético tiver como meta a purificação do espírito, ou seja, facilitar o domínio sobre o corpo para tornar a alma mais predisposta a seguir os preceitos de ordem moral espiritual. Nunca poderá ser, contudo, uma forma de destruir ou lesar a integridade de nosso ser, ao modo de uma vindita, como se a nossa natureza fosse intrinsecamente má. Sentir complacência com a dor pela dor equivale a masoquismo.
Houve manifestações protuberantes de tal gravíssimo erro doutrinário e moral, por exemplo, na seita dos Flagellants.
Algumas pessoas, na Idade Média, que encaravam a Peste Negra como castigo divino, afirmavam aplacar a ira de Deus chicoteando, ou flagelando, a si mesmas. A Irmandade dos Flagelantes, um movimento que, segundo dizem, reunia 800.000 seguidores, teve seu auge de popularidade durante a Peste Negra. As regras da seita proibiam falar com mulheres, lavar-se ou trocar de roupas. Os adeptos desses movimentos praticavam a flagelação pública duas vezes por dia.
Os flagelantes também se insurgiam contra a autoridade da Igreja, contestando-lhe o direito de conceder absolvição e indulgências. Não admira, pois, que, em 1349, o Sumo Pontífice a tenha condenado.
Essas correntes não se inscrevem apenas no seio do Cristianismo.
De quando em quando, por exemplo, a imprensa dá conta de rituais muçulmanos, em que os xiitas praticam rituais de autoflagelação.
